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Blog fechado por tempo indeterminado.

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Nasci numa quarta-feira de cinzas — o que talvez seja emblemático.
As pessoas da minha família sempre gostaram muito do Carnaval: até pouco tempo, minha mãe jurava que eu havia nascido numa terça-feira gorda, em que ela pulou até a hora H. Mas deve ter se confundido, já que foi meu irmão (2 anos mais novo) que nasceu numa terça-feira de Carnaval — o que talvez seja emblemático também.
Olhando o álbum de fotos da família é fácil encontrar muitas imagens de bailes, minha mãe e minha avó fantasiadas… outros tempos, outro mundo. Não me recordo muito bem das minhas primeiras incursões na grande festa pagã (ainda se usa essa expressão?), no álbum de fotografias apenas uma imagem me serve de referência: eu e meu irmão, com (talvez) 5 e 3 anos respectivamente, empoleirados sobre cadeiras expressando total desânimo… Só mesmo olhando a foto e forçando o pensamento consigo lembrar daquele dia. Os dois fantasiados de índio. Não que tivéssemos escolhido a mesma fantasia, mas porque, apesar de não sermos gêmeos (aliás, eu e meu irmão não podíamos ser mais diferentes), minha mãe insistia em nos vestir de forma parecida — provavelmente para que um não se achasse melhor que o outro. “Boa intenção” que fazia com que perdêssemos completamente a individualidade. Eu, um indiozinho todo de azul; meu irmão, todo de amarelo. Mas, talvez insatisfeita com nossas fantasias monocromáticas, minha mãe resolveu trocar o meu saiote e tornozeleira com os do meu irmão, misturando tudo. Um desastre em termos de harmonia. Cocar, saiote, tornozeleira… como aquelas penas pinicavam! Pequenos ainda para brincarmos no meio do salão do clube, eu e meu irmão nos divertíamos recolhendo confetes e serpentinas do chão, enfiando todos num saco, para mais tarde jogar pela janela.

Depois desse ano (1969 talvez), preciso dar um salto no tempo a fim de lembrar da outra ocasião carnavalesca. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos e, provavelmente motivado pelos amiguinhos da rua (animados em brincar o Carnaval num clube próximo), eu e meu irmão resolvemos nos fantasiar de bate-bola (ou clóvis, como preferem os paulistas). Escondido atrás de uma máscara assustadora, desta vez nem me importei em fazer “par de jarros” com meu irmão. Sim, foi minha mãe quem comprou os tecidos que minha avó transformou em fantasias. Metade de corpo em cetim preto, a outra metade em vermelho, alternadamente. Apesar de não termos tirado fotografias, este dia está mais nítido na minha lembrança: cobertos da cabeça aos pés, segurando fedorentas bexigas, eu e meu irmão saímos à rua achando engraçado que ninguém nos reconhecesse. Mas no clube, tudo foi muito diferente (pelo menos para mim). Se a tarde já estava naturalmente quente, dentro do salão parecíamos no interior de uma fornalha, repleta de crianças desesperadas em se divertir. Eu, mesmo ainda imóvel, transpirava absurdamente. Assim que a música começou a tocar, a criançada se atirou no meio do salão formando uma roda que se movimentava freneticamente. Eu me lembro bem de ter visto aquela cena patética e não ter acreditado: “Mas o que significa isso?”, indaguei, perplexo, para minha mãe. “Ué, as crianças estão pulando Carnaval! Não foi pra isso que a gente veio aqui?”, disse ela a única resposta possível. Não sei ao certo o que eu esperava encontrar num baile de Carnaval, mas aquela correria em bando me parecia a coisa mais sem sentido e sem graça que eu já havia presenciado. “Vai lá, vai brincar também!”, incentivou minha mãe, vendo que meu irmão se divertia no meio da multidão infantil. Eu fui, nem sei por que, mas fui. Não dei mais que duas voltas. A fantasia comprida e quente grudava no corpo banhado de suor; a máscara plástica, com abertura apenas no lugar dos olhos, sufocava; as outras crianças empurravam, pisavam-me os pés… em suma, um verdadeiro inferno para o qual eu estava dignamente trajado. Tudo, menos diversão. Decidido a não compactuar com aquela pantomima ridícula, voltei para a mesa na qual estava minha mãe e armei uma tromba gigantesca, esperando ansiosamente a hora de voltarmos para casa. Diferente de mim, meu irmão se divertiu (ou seja lá que nome tenha) a tarde inteira. Depois disso, nunca mais eu quis saber do tal Carnaval.

Não posso dizer que minha completa aversão à folia se deva exatamente a um trauma de infância, mas reconheço que em criança não tive muito sucesso neste quesito. Eu até poderia ter tentado dissipar essa imagem algum tempo depois, mas nunca senti a necessidade que parece vitimar os foliões típicos — e depois, pra quê insistir naquilo? O Carnaval pode até ser a maior festa nacional, a festa do povo, mas para mim é cada vez mais sem graça e sem nexo, já que não vejo motivo algum para festejos, o que vejo quase sempre é alienação — mas as pessoas devem ter direito a isso (sei que sou exceção). Enfim, já terminou. E o ano de 2008 já pode finalmente começar aqui no Brasil.

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Como admirador da obra e também da vida de Simone de Beauvoir, eu não poderia deixar passar em branco a data em que, se fosse viva, ela completaria 100 anos. Entretanto, sem tempo para escrever algo apropriado para a ocasião, deixo a cargo da própria Simone o texto deste post:

Sartre disse-me um dia que tinha a impressão de não ter escrito os livros que desejava escrever aos 12 anos. “Mas afinal, por que privilegiar uma criança de 12 anos?”, acrescentou ele. Meu caso é diferente. Certamente, é muito difícil confrontar um projeto vago e infinito com uma obra realizada e limitada. Não sinto, porém, um hiato entre as intenções que me levaram a escrever livros e os livros que escrevi. Não fui uma virtuose do escrever. Não ressuscitei os reflexos das sensações, nem captei em palavras o mundo, como Virginia Wolf, Proust, Joyce. Mas não era esse meu objetivo. Queria fazer-me existir para os outros, comunicando-lhes da maneira mais direta o sabor da minha própria vida: mais ou menos consegui fazê-lo. Tenho grandes inimigos, mas também fiz muitos amigos entre meus leitores. Não desejaria nada mais do que isso.

Balanço Final (1972)

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O corpo de Beauvoir não existe mais. Contudo, seu pensamento, suas idéias e palavras, seus livros perduram até hoje, e ainda são capazes de influenciar e interessar muita gente — eu que o diga. Não deve existir mesmo nada mais desejável para um ser humano do que sobreviver a si próprio através de algo que o simbolize dignamente: sua obra.

férias

Isso mesmo: vou tirar férias do blog para poder me dedicar exclusivamente ao trabalho que estou fazendo — e que deve durar até fevereiro.
Não, eu não escrevo vários posts por semana, apenas um, mas isso (quando tenho algum assunto relevante) é algo que exige tempo não só para escrever, bem como para revisar o texto. Podem me chamar de exagerado, mas tudo o que costumo “assinar” tem de ficar da melhor forma possível. Afinal, com a idade estou cada vez mais exigente, sobretudo comigo mesmo — o que não quer dizer que eu sempre tenha êxito nos meus intentos. Além disso, manter um blog — pelo menos para mim — significa também responder os comentários e visitar os blogs dos “comentaristas”, o que também toma tempo — ainda que eu tenha poucos visitantes que comentam (a propósito, prefiro qualidade).
Para completar, estamos no tal fim de ano, em que Natal e Ano Novo sempre ocupam todos os espaços — mesmo quando não o desejamos (e eu nunca o desejo!).
Assim, tirarei férias virtuais, pois na vida real estarei bastante ocupado.
Se tudo correr como estou prevendo, devo voltar em fevereiro.
Até lá!

O garoto (que eu não conheço) me enviou o seguinte recado através daquele site de relacionamentos:

Eu tenho 14 anos e escrevi um livro. Queria saber se tem alguma chance de ser publicado, pois eu sou de menor.

A princípio, estranhei o fato de o rapaz ter me feito tal pergunta — logo a mim, tão fracassado no setor “publicação de livro pelas vias convencionais”! Não sei exatamente como ele me descobriu (em alguma comunidade, suponho) e por que achou que eu poderia informar o que ele desejava saber. Em todo caso, como o fracasso também pode nos dar alguma experiência em determinados assuntos, enviei a ele a seguinte resposta:

Talvez o problema não seja tanto o fato de você ser menor de idade. Se seu texto for realmente bom, isso pode ser até um trunfo. Mas apenas um agente literário poderia dar a resposta que você me pede, pois ele teria condições de fazer uma análise crítica de sua obra — só que é preciso pagar pelo serviço. Se fosse simples (e eficaz) fazer contato com uma editora, eu recomendaria que você o tentasse, mas, por experiência própria, sei que dedicar-se a tal empreitada poderá ser pura perda de tempo, pois a resposta, se vier, muito dificilmente será positiva — mesmo que você tenha alguém que o indique. Ainda assim, se achar que não pode contratar um agente ou que não tem nada a perder, procure uma editora que publique o tipo de livro que você escreve e envie seu original — como você é bem jovem, talvez não se importe muito com o quesito “tempo”. Boa sorte!

Terei jogado um balde de água gelada na fervura do garoto? Eu não duvidaria que muitos pensassem assim, mas prefiro acreditar que fui realista: se eu tivesse feito a mesma pergunta gostaria de receber a resposta mais sincera possível! Evidente que o que eu disse não é uma lei imutável, e é claro que eu poderia ter dito outras coisas ao rapaz, mas como se tratava de um “recado” imaginei que o comentário deveria ser sucinto.

Pensando melhor, eu poderia ter dado outras sugestões ao adolescente: que ele procurasse um leitor crítico, que fizesse uma oficina literária, que experimentasse publicar fragmentos de seu livro num blog…
O leitor crítico normalmente cobraria um preço mais em conta do que o agente, mas o trabalho dele se limitaria a dizer se o livro tinha condições de ser publicado ou não — entretanto, ainda que o parecer do leitor crítico fosse favorável, nada garantiria que o livro seria aceito por uma editora. Um agente, se visse potencial no livro, teria como oferecê-lo diretamente aos editores.
A oficina literária (dependo do estabelecimento e do professor) seguramente seria bastante proveitosa para alguém tão jovem — se foi para mim, que já era um “senhor”!… É claro que as boas oficinas não ensinam ninguém a escrever, mas quem já escreve pode melhorar imensamente a qualidade de seus escritos, pois nas aulas aprende-se na prática — submetendo textos a serem criticados pelos demais alunos e também criticando os textos deles — o que é lugar-comum, grandiloqüência, redundância… e mais uma infinidade de detalhes que um aspirante a escritor precisa evitar a fim de que o texto seja pelo menos razoável. Além disso, as oficinas podem funcionar para que o aluno se certifique de que realmente tem algum talento (um bom professor fará questão de deixar isso claro) ou de que não tem o menor jeito com a escrita — esses casos, geralmente, são bem mais numerosos nas oficinas (e um bom professor nem precisa deixar isso claro, o próprio aluno, se não for alienado, o perceberá).
A publicação de fragmentos — ou até do texto integral — na Internet é coisa que já vem sendo feita há algum tempo, e a quantidade de blogs desse tipo é uma realidade e, inclusive, “fonte de consulta” até para algumas editoras. Porém, o “teste” no qual se constitui este experimento pode não representar a verdade. Quero dizer que se o intuito da publicação for descobrir como o “público” reage ao texto, essa reação pode não significar grande coisa, já que a maioria dos leitores tende sempre a tecer comentários elogiosos, mesmo quando imerecidos — mas isso não deve ser encarado como uma regra absoluta (ou deve?).

O que me impressiona é essa NECESSIDADE imediata em querer ser publicado! Sinceramente, se eu tivesse 14 anos, e gostasse muito de escrever, estaria bem mais preocupado (e interessado!) em me aperfeiçoar, em estudar sobre o assunto, em procurar conhecer gente que escreve e que consegue publicar… e a encher gavetas e mais gavetas (ainda que virtuais) com meus escritos. Não sei que tipo de livro o rapaz escreveu, tampouco sei se tem alguma qualidade literária (aliás, apenas isso não é suficiente para a publicação: o livro também TEM de ser comercial), nem mesmo sei se o garoto já possui gavetas abarrotadas de texto, mas penso que, aos 14 anos, ele deveria se dedicar mais a escrever, escrever, escrever… do que (já) pensar em publicar.

As pessoas aqui no Brasil, muito comumente, acreditam que Escrever (com “E” maiúsculo) é coisa fácil. Só mesmo sendo muito leigo no assunto para imaginar tal inverdade. A simples alfabetização não confere o “dom” da escrita a ninguém. Mas, não sei por que, quase todo brasileiro acha que não só tem plenas condições de escrever um livro, como também de publicá-lo. O mais irônico é que o Brasil é um país de não-leitores!!! A quem se destinariam os livros de todos esses “autores natos” se publicados? Talvez até seja justamente por causa da não-leitura que a maioria pense que pode (e sabe!) Escrever, pois não lê coisa alguma e não tem parâmetros para discernir o que é literatura e o que não o é — mesmo que se trate apenas de “literatura de entretenimento”. Posso até parecer leviano e pretensioso no que vou dizer, mas acredito que se os brasileiros que se julgam “escritores natos” se preocupassem mais em ser, antes de tudo, LEITORES, não haveria tantos originais abarrotando — muito indevidamente! — as editoras nacionais.

entre cores e temas

Passei a semana anterior fazendo pesquisas sobre os novos temas propostos pela minha agente de Londres para a coleção Primavera-Verão 2008 (apesar de as cartelas de cores serem de 2009). Enfim, são tantos temas e derivações — que podem ser explorados de maneiras quase infinitas — e tantas cores — que também podem ser multiplamente combinadas — que não tive tempo de pensar em nada, ou melhor, de escrever nada, relevante para publicar aqui (aliás, o que é relevante?).
Eu já tinha começado a criar algumas padronagens que, por sorte, consegui encaixar num dos temas, mas foi dificílimo encontrar uma paleta de cores perfeitamente adequada à mini-coleção que eu já havia elaborado. É que nem sempre as cores da mesma cartela funcionam bem para padrões distintos que se pretende reunir num único grupo. E quem imagina que “pintar desenhos” é coisa simples e divertida não faz idéia da trabalheira que essa tarefa pode dar. Só para que se tenha uma idéia: levei o fim de semana inteiro (parte da sexta e da segunda-feira também — 3 dias, portanto) para definir as cores de quatro(!) padrões. Demorei, mas encontrei uma solução que me satisfez, muito.
Tenho até fevereiro do ano que vem para enviar minhas criações — o que, felizmente, me manterá bastante ocupado no tal final de ano, que eu abomino.
A título de curiosidade, segue o link para as cartelas de cores do verão 2009 (na Europa), e também alguns dos temas e seus desdobramentos:

Lenzing Colors | Trends Summer 2009

Nautical
70’s inspired | lots of nautical prints | stripes | dots | cute character prints over stripes

Camping
classic plaids | boyish checks | plaids with gradient

Sweet California
girly small flowers | hippie chic |two colour flowers | ditsies | vintage florals

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Hoje faz um ano que comecei a escrever este blog. Por vezes me parece pouco tempo, por vezes, muito. Até hoje não descobri exatamente a finalidade desta escrita, mas talvez não seja necessariamente importante saber tudo o que fazemos, ou conferir um significado definido a alguns de nossos atos. O que sei é que, de algum modo, como já disse no primeiro post, manter um blog não deixa de ser uma forma de existir — ainda que essa existência não seja “genuinamente verdadeira” como gostariam alguns (eu, inclusive).
É verdade que muito freqüentemente experimento a sensação de que este blog é não apenas bastante inútil, como também um tanto patético, mas existem tantas inutilidades patéticas espalhadas pelo mundo!… uma a mais, uma a menos não fará a menor diferença.
Nestes 365 dias escrevi e publiquei 53 posts, recebi 523 comentários e tive 16.512 visitas. E o que isso significa? Muita coisa e nada ao mesmo tempo. Meros dados estatísticos, mas que também representam gente que leu meus textos, que se deu ao trabalho de elaborar um comentário, e que muitas vezes voltou para ler o que eu escrevi sobre os comentários deixados. Sinal de que alguma coisa aqui “funciona” a ponto de atrair leitores fiéis, ainda que muitos nada comentem. Acho tão estranho quanto fascinante essa idéia de “conquistar” a atenção do outro: para mim, de certa forma, não deixa de ser um tanto “assustador” (que outra palavra?) saber-me motivo de “interesse” de outrem, pois de algum modo estabelece-se uma espécie de compromisso que devo honrar, expectativas que não devo decepcionar. É claro que estou exagerando — nada precisa ser realmente tão “sério” quanto dou a entender —, mas tenho essa tendência quando me sinto alvo de atenções. Por outro lado, minha expectativa e interesse por outras pessoas (ou blogueiros) — e a maioria eu sequer conheço pessoalmente —, também acontece. Só que diferentemente do que costumo imaginar para mim (uma falsa impressão?), procuro ser totalmente condescendente com o outro: afinal, as pessoas precisam ter liberdade para fazer o que bem entendem com suas vidas — e seus blogs, por conseguinte.
De uns tempos pra cá não tenho me empenhado muito em “descobrir” novas pessoas e novos blogs, e sinto que o mesmo se dá em ordem inversa (alguma lei da blogosfera? — provavelmente). No fundo, isso não me incomoda: os poucos “comentaristas” que cativei não só me satisfazem, como despertam minha curiosidade — ainda que minhas visitas não sejam tão assíduas quanto eu gostaria. Acho interessante as pessoas que têm — como direi? — “compulsão” pela escrita, e publicam vários textos por semana. Tenho mesmo certa admiração por quem consegue se expressar com tal freqüência (desde que haja conteúdo, claro), mas não é o meu caso. Não querendo desmerecer os dotados de eloqüência, talvez eu possa dizer que já superei essa fase — e não vai nisso nenhuma pitada de pretensão de minha parte. Se uma das reais intenções do meu blog é fazer com que eu exista (ou me sinta existir), uma vez por semana é um intervalo de tempo bastante razoável para marcar minha presença neste espaço virtual repleto de palavras que podem não me traduzir fielmente, mas que me simbolizam de vários modos.