Eu pretendia mencionar a “repercussão” do livro como um todo, porém, diante dos comentários que andei recebendo, achei interessante focalizar um ponto específico: Liz — ou, para ser mais preciso, as intensas reações que ela provoca nas mulheres.

Estranhamente, quando publiquei fragmentos de Os Malabaristas no meu antigo blog, fiquei com a nítida impressão de que as mulheres — sim, meu “público” (que comenta) é essencialmente feminino — haviam se identificado com Liz, a protagonista do romance. Tanto que, na época, me surpreendi ao constatar que o personagem criado por mim não soava tão fictício quanto supus que seria — ainda que a intenção fosse torná-lo o mais verossímil possível.
Entretanto, as pessoas (ou melhor, as mulheres) que tiveram a oportunidade de ler o texto integral, salvo uma rara exceção, reagiram de forma bastante distinta das outras que comentaram os fragmentos no blog.
A fim de facilitar a possibilidade dos comentários, de oferecer outra opção de contato com o autor (além do e-mail) e de proporcionar uma espécie de debate, acabei criando uma comunidade naquele conhecido site de relacionamentos. Para me certificar da aversão que minha heroína (ou anti-hehoína?) havia causado nas mulheres que me enviaram mensagens, resolvi abrir um tópico perguntando com que personagem os leitores mais se identificavam ou sentiam empatia: Liz ou Leon? Seguem alguns dos comentários, recebidos por e-mail ou publicados na tal comunidade (editados por questão de espaço, e também para não “entregar” demais a história):

Marilia | leu o livro inteiro na versão on-line (comentou por e-mail)
Quem me confunde mais é a Liz, muito desmiolada. No entanto, esse tipo de pessoa à beira de um ataque de desespero, dando murro em ponta de faca, lutadora, forte e resistente, mas totalmente desnorteada também acontece o tempo todo.
[…] Ela se apoiaria tanto assim em um rapazinho 14 anos mais jovem, quase podia ser filho dela, um rapaz que nunca lhe ofereceu garantias de nada, um garoto, a quem ela desejava e queria confusamente?… Nem o sexo entre eles era bom. Ela fica passiva, esquisita com ele. E mesmo assim vai atrás, e não atrás do que ela diz que quer, independência, trabalho bom, vai cegamente atrás dele. Com 34 anos! […] É muito desvairada e romântica para alguém com 34. Estou descobrindo que não sou eu que não gosto de Liz. Eu gosto! Eu a estou defendendo. Desconfio que quem não gosta dela é o autor. […] Tenho que admitir sobre a Liz: ela é coerente do começo ao fim. É forte, corajosa e não pensa duas vezes, nem uma — e é de uma imaturidade impressionante, mas muita gente vai assim mesmo pela vida afora. Ela não aprendeu nada durante o romance.

Maria | ainda está lendo o livro na versão on-line (comentou por e-mail)
Do 1º ao 7º li quase de um só fôlego. No capítulo sétimo empaquei. Talvez eu tenha empacado de raiva da Liz. Implorando migalhas, se humilhando, sem um pingo de auto-estima. É um personagem deplorável e muito bem descrito psicologicamente. Todos nós temos um lado Liz, inseguro, carente. Que futuro aguarda Liz?

Sonia | leu todas as versões do livro mesmo antes de ele ser publicado (comentou por e-mail e na comunidade)
Liz a mulher forte e decidida. Só aparências. Liz recusa-se a perceber quando não é desejada, se submete servilmente a um homem que simplesmente a usa.
[…] “Se você desistir, por favor, me avisa.” Só mesmo uma tonta como a Liz para não entender essa. […] Pensando melhor, creio que minha estranheza não veio das atitudes de Franz, e sim da falta de “desconfiômetro” de Liz, a quem ele já tinha dado sinais inequívocos de que não era uma pessoa confiável. […] Interessante como você faz Liz, que não era ligada a drogas, entrar de cabeça nesse mundo, como se fosse para ela a coisa mais normal do mundo. Acontece e pronto. […] Pra mim a Liz é a única culpada por tudo de mau que lhe acontece. Ela pode falar e posar de mulher moderna, mas não passa de um fantoche nas mãos dos homens.

Ana | leu todos os fragmentos e está lendo a versão em PDF (comentou por e-mail e na comunidade)
O que considerei mais rico no seu texto foi a condução inteligente dos diálogos interiores, dos monólogos com Liz, em que tinha a impressão de “ouvir” os pensamentos das personagens de tão pungentes. Ainda não concluí a leitura do livro, mas pelos fragmentos do seu blog, tive mais identidade com Leon. Liz me pareceu mais instável do que intensa. Ela parece recorrente em confundir sentimentos (amizade/amor/compaixão) e ter fascínio por relações “complicadas”.[…] Quando terminar a leitura do livro ratifico ou comento minha nova visão.

A única “voz dissonante” e que, de certo modo, coincide com a minha visão, vem a seguir:

Fernanda | leu o livro inteiro na versão on-line (comentou na comunidade)
Eu não diria que houve uma identificação de minha parte, mas, apesar de tudo, simpatizei mais com Liz. Ela é moderna, destemida, determinada, sabe o que quer e (sem ser mau-caráter) não mede esforços para consegui-lo. É uma batalhadora que acredita poder realizar seus desejos (e ainda ajudar Leon a realizar os dele). Mesmo que, como disse a Ana, Liz pareça confundir alguns sentimentos e ter gosto por relações complexas (aliás, qual relação não o é?), ela não mente e não engana ninguém em momento algum, procurando sempre ser justa e honesta com todos. Para mim, diferente do que pensa a Sonia, Liz não me pareceu “só aparência”, ao contrário, sempre autêntica, ela se mostra ciente o tempo todo do papel que cumpre na relação que tenta desenvolver com Hendrik (por isso tantas dúvidas sobre ele e sobre si mesma). No meu ponto de vista, Liz não se submeteu servilmente ao namorado — e se o Hendrik a usou ela fez o mesmo com ele —, mas pode até ter se submetido a uma situação que lhe pareceu momentaneamente oportuna a fim de conseguir o que buscava. Talvez, o “problema” mais grave de Liz é ser vítima de si mesma.

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Certa vez, uma conhecida que teve um conto criticado por mim (a pedido dela), respondeu-me relativamente indignada — por não ter concordado com meus comentários —, que sempre defendia seus personagens com unhas e dentes!
Eu não faço isso, não só porque não acho justo (os personagens que defendam a si mesmos!), bem como porque sei que é perda de tempo. Cada leitor sempre lerá o livro que ELE quiser, independentemente do que o autor, talvez, tenha idealizado. E a graça da coisa, no meu entender, reside justamente aí. Liz não é odiada e rejeitada gratuitamente pela maioria das mulheres: é bem provável que ela tenha mexido com algo no inconsciente dessas leitoras — suas próprias fraquezas? Não sei, e não cabe a mim tal julgamento. O que sei é que os comentários sobre Liz parecem se referir a alguém de carne e osso, alguém que existe e que “incomoda” o bastante para despertar opiniões veementes… tudo o que eu mais queria!

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