excertos


— Há palavras que fazem mal se as guardamos dentro de nós. Não quero que você guarde as que tem contra mim.
[…]
— Compreenda — continuou por fim. — Já que a coisa aconteceu, que eu falei, você não pode fazer nada contra. Ela permanece entre nós dois. Se você fizer de conta que não falei nada, então ela crescerá de importância, mil vezes mais do que eu quis dizer.

Os Pequenos Cavalos de Tarquínia | Marguerite Duras (1953)

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Isso já aconteceu comigo, aliás, as duas coisas: já guardei palavras que me fizeram mal; e também já expus palavras que tinha “contra” outrem. Por experiência própria, penso que o mal é feito em qualquer dos casos: contra si mesmo (quando se guarda o que deveria ser dito) ou para o outro (dependendo de como irá encarar a “revelação”).
O que me intriga um pouco na “conclusão” da segunda parte do trecho acima é não saber exatamente a quem atribuir o aumento da importância do que foi dito quando se faz de conta que nada aconteceu: mil vezes mais importante para quem disse ou para quem o ignorou? Provavelmente para ambos.

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Certas formas de lucidez são piores do que as piores cegueiras. No instante em que aceitamos nosso próprio reflexo como definitivo, importa pouco saber se o espelho, o olhar, são ou não deformantes; é necessário que esse reflexo seja belo, ou tente sê-lo; porque, se não o for e a isso nos resignarmos, iremos ao encontro do pior, não tentaremos senão acentuar sua crueldade como, nas festas dos povoados e nos circos ambulantes, esses paspalhões que reconhecem de súbito em um espelho deformante sua feiúra, sua imagem caricatural e se comprazem em acentuar o grotesco, em vez de fugirem. Porque os outros, então, se reúnem e riem abertamente dessa feiúra em maiúsculas e da qual não podiam senão sorrir às escondidas, quando era miniatura. Em suma, nota-se a insignificância! E que procura o mais insignificante ou o mais estúpido senão ser visto?
A Cama Desfeita | Françoise Sagan (1977)

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Tenho uma relação estranha com espelhos: eles (ou o que neles percebo) me fascinam tanto quanto desagradam.

Impressão minha ou ele me notou dessa vez? Tantos elogios… se fosse só por educação, poderia ter sido mais econômico. Ele me pareceu bem espontâneo, surpreso também, quase espantado… como se visse uma pessoa dada como morta, ou desaparecida. Impressão ou já começo novamente a ver coisas que não existem? Mas pra mim sempre existiram… até o dia em que tive que enterrar tudo, e por culpa dela! Reflexo da terapia esse resquício de revolta? Espero que sim, e que eu também consiga resolver essa coisa que já dava como encerrada, ou enterrada. Estranhíssimo, agora que começo a tentar me consertar, a ver se fico uma pessoa melhor, esse encontro com ele… A coisa mais maluca do mundo: somos praticamente vizinhos há três anos e nunca nos encontramos! Por que só agora? E logo ele? Algo deve estar conspirando a meu favor… Talvez a surpresa de Antônio seja por ter encontrado uma Irene que já começa a se transformar em outra… É claro, como não pensei nisso? Ele se espantou em ver como mudei, não tanto fisicamente, ou será que isso também? Em todo caso, reflexo da análise, sem dúvida. Se eu mesma noto a mudança, por que não ele?, depois de tanto tempo? Será que dessa vez… será um sinal? A vida é tão estranha… por que não? Por que não ele de novo?, mas com outra Irene, a que eu sempre quis ser, e só agora consigo? Por isso ele reparou em mim, só pode ser… Mas preciso não me deixar levar por coisas que talvez só estejam na minha cabeça. Um encontro inesperado, nada mais. Encontro não, reencontro. Ou será que Antônio vai me fazer pôr tudo da perder? Não estou bem agora, sozinha? Estou? Não completamente, ainda. E não posso ficar melhor com ele? Quem sabe? Talvez essa coincidência me dê a oportunidade de resolver tudo de uma vez por todas. Estou me reconstruindo, aos poucos, em segredo… não por medo ou vergonha do que Denise pense – já que a idéia partiu dela mesma –, talvez para não dar o braço a torcer, não reconhecer que mais uma vez, como sempre, ela estava com a razão. Na hora certa conto tudo. Até lá, se ela me perguntar alguma coisa invento uma mentira. Mas Denise não vai perguntar nada. Há muito que eu pareço ter deixado de existir pra ela. Além do mais não sou obrigada a dar satisfações do que faço – mesmo que eu goste dela, mesmo que ela diga gostar de mim… Tanta coisa ainda a consertar!… E agora Antônio outra vez. E eu aqui, fritando os miolos com suposições.

Ele está ótimo. Os cabelos grisalhos e os óculos lhe deram um ar de intelectual. Ele parece outro, mas ainda me lembra o Antônio de que eu gostava, e que não devia gostar, ou melhor, não adiantava gostar. Sempre fui tão boba nesses assuntos… o oposto de Denise. Mas ele não gostava de mim, nem me notava, só tinha olhos pra ela, que não o amava… Quantas confidências Denise me fez!… e eu sem coragem de dizer a ela o quanto gostava dele… mas de que isso adiantaria? Denise não poderia dizer a Antônio pra se apaixonar por mim já que ela não se sentia atraída por ele. Se eu não fosse irmã dela seria fácil me afastar, ou ignorar suas confidências… Se eu conseguisse ser tão franca quanto ela talvez tivesse sofrido menos… mas já faz tanto tempo!… tudo acabou, essa bobagem que estou sentindo deve ser algum reflexo desse passado. Nem sei se ele está comprometido… talvez esteja até casado, se bem que não vi nenhuma aliança na mão dele… 

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Como na semana passada alguns leitores — ou melhor, algumas leitoras — demonstraram curiosidade em “ouvir” a voz de Irene, ei-la aqui. Será que, a exemplo do que ocorreu no post anterior, agora quem vai despertar interesse é Denise? Ou ainda Antônio? E Irene, terá correspondido à provável expectativa que haviam criado em torno dela?
Admito que fiquei curioso em saber, por isso não resisti a publicar mais este fragmento.

Alguma coisa aconteceu. Coisa que ela não quer me contar. E que não vou insistir em saber. De repente, um ânimo, uma euforia. Indisfarçáveis. Propositais? Não, Irene nunca foi disso, nem mesmo agora. Se bem que venho notando uma certa mudança, como se ela estivesse num lento processo de evolução. Mas não acredito que tenha levado minha idéia da terapia a sério. “O que foi que aconteceu que te deixou assim tão alegre?”, perguntei por perguntar, vendo sua cara feliz. “Nada”, respondeu, sorrindo, como se quisesse me mostrar que guardava um segredo. Se não a conhecesse direito diria que sua animação é por causa de um homem. Mas não pode ser, Irene já desistiu dessas coisas. Eu não veria nada de mais se ela se interessasse por alguém, até gostaria, mas quem? E quem se interessaria por Irene? Poderia estar casada com o Luciano, que gostava muito dela, tanto que queria terminar o noivado com a outra pra ficarem juntos. Mas acho que Irene não gostava dele, ou viu que o preço seria alto demais. E depois, mãe foi tão contrária, encheu tanto a cabeça da pobre com histórias infelizes… Mas lembro que naquele tempo ela parecia ter remoçado um pouco; comprou vestidos, mudou o corte de cabelo… por que fez isso se não tinha interesse real em Luciano? Outro homem? Qual? Já faz tempo, devo estar confundindo as coisas… Coitada da minha irmã. 

Sempre tentei ajudar Irene a não ser submissa, mas ela era muito acomodada, e não fazia por onde. Desde criança sempre foi tão conformada!… o oposto de mim. Por isso mãe gostava mais dela, e a sobrecarregava com controles e adestramentos dos quais eu fugia. Dava pena, mas o que eu podia fazer? A iniciativa tinha que partir de Irene.

Agora já não temos mãe repressora, mas parece que é muito tarde para mudar, ou não? Não, deve ser só impressão. Talvez ainda um pouco da sensação de liberdade, com a qual ela parecia não saber muito bem o que fazer. Pelo menos foi bastante eficiente com seu dinheiro. Achei que eu ia conseguir resolver a vida com minha parte na herança, mas tudo deu errado. Se não fosse por Irene… Eu tinha que arriscar, era uma excelente oportunidade, tudo parecia tão promissor… Eu devia ter sido mais precavida, guardado algum… Agora, tudo de novo, recomeçar quase do zero. É a vida. Sorte Irene ter comprado um bom apartamento, e ter aceitado me abrigar aqui. Cheguei a pensar que ela talvez me negasse ajuda, que estivesse magoada comigo por causa das nossas desavenças… Até hoje não sei se ter me dado guarida não foi para ela uma espécie de vingança, como se fosse superior a mim e me desse uma lição no fim das contas. Eu, sempre tão segura e independente, tendo que pedir para morar com ela… Não deixou de ser um pouco humilhante.

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