personalidade


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Como admirador da obra e também da vida de Simone de Beauvoir, eu não poderia deixar passar em branco a data em que, se fosse viva, ela completaria 100 anos. Entretanto, sem tempo para escrever algo apropriado para a ocasião, deixo a cargo da própria Simone o texto deste post:

Sartre disse-me um dia que tinha a impressão de não ter escrito os livros que desejava escrever aos 12 anos. “Mas afinal, por que privilegiar uma criança de 12 anos?”, acrescentou ele. Meu caso é diferente. Certamente, é muito difícil confrontar um projeto vago e infinito com uma obra realizada e limitada. Não sinto, porém, um hiato entre as intenções que me levaram a escrever livros e os livros que escrevi. Não fui uma virtuose do escrever. Não ressuscitei os reflexos das sensações, nem captei em palavras o mundo, como Virginia Wolf, Proust, Joyce. Mas não era esse meu objetivo. Queria fazer-me existir para os outros, comunicando-lhes da maneira mais direta o sabor da minha própria vida: mais ou menos consegui fazê-lo. Tenho grandes inimigos, mas também fiz muitos amigos entre meus leitores. Não desejaria nada mais do que isso.

Balanço Final (1972)

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O corpo de Beauvoir não existe mais. Contudo, seu pensamento, suas idéias e palavras, seus livros perduram até hoje, e ainda são capazes de influenciar e interessar muita gente — eu que o diga. Não deve existir mesmo nada mais desejável para um ser humano do que sobreviver a si próprio através de algo que o simbolize dignamente: sua obra.

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Se estivesse viva ela teria feito 100 anos em abril passado. Mas já faz 35 anos que Violette Leduc “viajou”, como ela mesma diria pouco antes de “embarcar”.
Violette Leduc, obscura escritora francesa (obscura mesmo para os franceses), tinha tudo para ser um absoluto fracasso em todos os sentidos que se possa imaginar. Quanto mais conheço sua história e as formas tortuosas — nem sempre muito ortodoxas — que ela empreendeu a fim de se livrar, em parte, de sua “maldição”, quanto mais constato que contra tudo e contra todos (inclusive contra si mesma) ela conseguiu sobreviver, e ainda triunfar, quanto mais “desvendo” sua literatura única tão emaranhada em sua própria vida, mais cresce minha admiração por esta figura singular, personalidade tão complexa quanto difícil, e por isso mesmo fascinante.

A primeira vez que tomei conhecimento de Violette Leduc foi na extensa autobiografia de Simone de Beauvoir: ela falava de uma mulher muito feia que tinha grande talento para escrever — o que fazia com uma “sinceridade intrépida”, num estilo e temperamento arrebatadores. Curioso, mas sem saber exatamente do que tratavam seus livros, Violette Leduc não passava para mim de um nome bonito apenas.

Muito tempo depois, garimpando alguns livros num sebo do centro do Rio, deparei com A Bastarda, livro mais conhecido de Violette Leduc, mencionado várias vezes por Beauvoir. Numa rápida folheada, fiquei impressionado com o texto, que me atraiu como um imã. Não consegui deixar o sebo sem levar o livro. Quando me dediquei a sua leitura com a merecida atenção fiquei fascinado com a ousadia, com a coragem, com a “sinceridade intrépida”. Nunca havia lido nada tão tocante.

Eu pretendia contar aqui um pouco mais sobre Violette Leduc; sobre sua complicada relação de amor e ódio com a mãe, que sempre a culpou por ser filha ilegítima; sobre como usando apenas o que tinha, a própria vida, ela criou uma literatura singular, tão elogiada pela crítica quanto desprezada pelo público; sobre como, apesar de 5 livros e diversos artigos publicados em jornais e revistas, ela continuou sendo “um deserto que monologa” por quase 20 anos; sobre como, por causa de um livro, ela conseguiu sair brutalmente da obscuridade e tornar-se uma mulher rica e famosa (ainda que por pouco tempo); sobre como, a despeito da fama e dos amigos, ela morreu solitária, praticamente abandonada, seu maior temor durante toda a vida… Na verdade, cheguei a escrever o post, mas ele acabou ficando demasiado extenso. Como acabei de colocar no ar a nova versão do site que fiz para “homenagear” Leduc (e por que não, a propósito, seu centenário de nascimento?), quem tiver curiosidade poderá descobrir mais detalhes sobre Violette aqui. Será que ainda preciso dizer o quanto a autora e sua escrita me impressionaram?

Lamentavelmente, no Brasil apenas 2 livros de Leduc foram traduzidos — um dos quais (A Bastarda) se encontra fora de catálogo, só podendo ser achado em sebos. Deste modo, ironicamente, minha tentativa de divulgar a obra de uma autora tão “desconhecida” não deixa de fazer de mim (também) uma espécie de “deserto que monologa”. Mas não me importo, e nisso a obra de Violette me serve de estímulo e consolo: quando se acredita naquilo que se faz não há motivos para perder a coragem.

Simone de Beauvoir

Não me lembro exatamente da primeira vez em que ouvi falar de Simone de Beauvoir, mas lembro muito bem do meu primeiro contato com sua escrita, em Os Mandarins, no início dos anos 90. O romance me causou tanto impacto, me deixou tão impressionado com estilo, forma e conteúdo que senti uma vontade imediata de conhecer toda sua obra, e tudo o que pudesse saber sobre sua vida.

“Devorei” Os Mandarins — um calhamaço de 900 páginas — em quadro dias, e só não o terminei em menos tempo por não querer que aquele “prazer” acabasse depressa. Nenhum livro antes havia conseguido me cativar — e mexer comigo — a tal ponto. Naquela época, eu não ignorava o que era o Existencialismo, pois já tinha lido alguma coisa de Sartre, mas Simone apresentava esta filosofia de modo tão natural, compreensível e sedutor que foi impossível para mim não me interessar também por esta “modalidade” de encarar a vida.

Não foi difícil dar vazão ao meu desejo de tudo ler e tudo saber sobre Beauvoir: além de uma significativa obra literária havia uma extensa autobiografia, sem contar os ensaios. Um prato cheio que tive grande prazer em degustar. O interessante de seus romances é que eles quase sempre são “transposições” (da vida real para a ficção), o que lhes confere um realismo digno de estudo. Em suas memórias, Simone se transforma em “personagem” a fim de, usando a própria vida, comunicar suas experiências pessoais, seus fracassos, suas conquistas, e também as mudanças ocorridas no mundo em que vivia. Seus ensaios, dentre os quais O Segundo Sexo, a “bíblia” do feminismo (obra que mudou definitivamente o papel da mulher na sociedade ocidental), são trabalhos fundamentados em pesquisas tão extensas quanto minuciosas. Quanto mais eu “descobria”, mais fascinado ficava. Desse modo, não levei muito tempo para ter um conhecimento razoável sobre a autora e sua vida, bem como para me dar conta de que Beauvoir havia mudado radicalmente meu jeito de pensar — o que acabou se refletindo no meu modo de viver.

Na verdade, eu poderia dizer que meu desejo de escrever seriamente teve origem com a leitura dos livros de Simone — ainda que eu só tenha conseguido escrever algo a sério bem mais tarde. Eu gostava tanto do que lia que alimentava a vontade de poder, um dia, fazer algo semelhante: um texto capaz de agradar a outros (ainda que o conteúdo não fosse necessariamente agradável). Não sei ainda se obterei êxito nessa empreitada, mas — correndo o risco de parecer pretensioso — creio que minha escrita foi fortemente influenciada, sobretudo, pela literatura existencialista de Beauvoir.

Com a publicação póstuma de alguns diários e de boa parte de sua correspondência, Simone começou a ser “desmistificada” — para decepção de muitos de seus admiradores. Para mim, ao contrário, cada nova informação só faz com que Beauvoir me pareça mais e mais humana, o que, de certo modo, a torna mais próxima, mais admirável. Há quem se choque com a verdade, ou com o fato de Simone não ter dito TODA a verdade, como às vezes afirmava. A mim tudo parece bastante claro: algumas verdades simplesmente não podiam ser ditas em determinadas épocas, ou por envolverem terceiros ou por serem extremamente pessoais. O que me parece certo é que Simone desejava que o que ela não pôde dizer de viva voz ou escrever de próprio punho viesse à tona um dia, talvez quando já não pudesse “prejudicar” ninguém. Por isso instruiu sua filha adotiva (e herdeira de sua obra literária) a publicar postumamente anotações em diários e cartas — que permitiram a seus biógrafos preencher algumas lacunas e corrigir certos episódios. Entretanto, nada do que possa ainda ser revelado afetará, na minha opinião, a importância do legado de Beauvoir.

Em meados deste ano, recebi a incumbência de administrar uma comunidade sobre Simone num desses sites de relacionamento. Confesso que eu nem participava tanto como membro, mas achei interessante a oportunidade de, talvez, modificar o perfil do grupo oferecendo um pouco mais de informação e proporcionando troca de idéias. Apesar de minhas tentativas, fiquei com a impressão de que a maioria dos participantes continuava sem saber quem havia sido Beauvoir e qual sua importância, principalmente para as mulheres.

Eu já havia feito um site bastante simples, que contava, muito resumidamente, alguns fatos sobre a vida e obra da autora francesa. Levando em consideração o que havia percebido na comunidade, achei que estava na hora de atualizá-lo não só em relação ao formato, mas também em termos de conteúdo. E o fiz. Foram praticamente quatro meses em que me dediquei a pesquisar, ler, reler, traduzir, escrever, conceber e realizar o novo site. O resultado final me agradou bastante, e posso dizer, sem modéstia, que não existe em língua portuguesa (e nem em estrangeira) um espaço online mais completo sobre Simone de Beauvoir. Não sei se a intenção de “divulgar” e fazer com que minha autora favorita não “caia no esquecimento” aqui no Brasil surtirá efeito, mas acredito que por tudo o que ela me proporcionou — e ainda proporciona! — era o mínimo que eu poderia fazer. Uma pequena homenagem, mas muito sincera.

Para conhecer o site, clique no link abaixo:

www.simonebeauvoir.kit.net