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Sou alguém desconfiado por natureza. Mas não considero minha desconfiança como uma espécie de defeito — ao contrário, creio que ela talvez funcione bem mais como “instinto de preservação”. Isso não significa que eu desconfie de tudo e de todos. Só costumo ter tal atitude diante de situações ou pessoas que, num primeiro momento, me pareçam suspeitas (ainda que não o sejam de fato). Toda esta introdução para comentar — na falta de algo mais relevante para publicar aqui — a estranheza que certas pessoas me causam (principalmente se forem desconhecidas, e “desconfiáveis”, por conseguinte). É claro que isso não chega a me afetar, mas sempre fico impressionado com os expedientes dos quais alguns se valem para um provável tête-à-tête em busca (ou em troca) sabe-se lá do quê. Não me considero, digamos, “vítima” deste tipo de situação/pessoas, mas admito que esses episódios acontecem com uma freqüência bem maior do que eu gostaria. A seguir, dois casos (ou exemplos) relativamente recentes:

Há alguns meses, por causa das minhas fotos no Flickr, recebi uma mensagem de um homem que dizia ter acabado de ver minhas imagens e tinha grande interesse em saber o que estava fazendo profissionalmente. Disse ter lido que eu era fluente em francês e queria saber se eu falava inglês também. Além disso, perguntou que países além do Brasil eu conhecia, e terminou o e-mail indagando se eu não aceitaria tomar um café para conversarmos. A princípio, já desconfiado, acreditei que o contato talvez fosse de ordem profissional, mas a abordagem me soou tão estranha (e nada profissional), que respondi a mensagem comentando algumas coisas vagamente e perguntando qual o real interesse do sujeito nas tais informações — afinal, ele devia ter sido mais claro e objetivo, já que eu teria que responder o que me perguntava sem a menor noção do assunto em questão. Eu não tinha vontade alguma de tomar café com um total desconhecido a fim de conversar sobre algo que eu ignorava inteiramente. Recebi uma resposta num tom que classifiquei como “ressentido”, na qual o fulano me perguntava se eu tinha disponibilidade para fazer uma viagem pelo sudeste asiático fotografando pessoas, tecidos, padronagens, cores… Disse ele que havia trabalhado mais de 20 anos na empresa X e vivera muitos anos nos EUA e na Tailândia, onde mantinha sua residência oficial. Terminava a mensagem perguntando se havia esclarecido minhas dúvidas. Se o tal sujeito estivesse mesmo dizendo a verdade, por que não foi direto desde o início? Isso evitaria minhas desconfianças (e dúvidas), bem como que perdêssemos tempo num encontro que teria sido em vão — já que, além de não falar inglês, não disponho de equipamento fotográfico para uma empreitada de tal dimensão. Respondi que, ainda que o tal projeto me soasse um tanto vago, lamentavelmente eu não me sentia capacitado para tanto — aleguei os motivos citados acima. Terminei agradecendo o interesse e a oferta. E o fulano não voltou a me escrever.

Mais recentemente, no fim do mês retrasado, recebi o e-mail de uma moça que havia visitado meu outro blog e se dizia apaixonada pelas estampas que desenho. Informou que estava criando uma linha de produtos e gostaria muito de usar minhas padronagens no trabalho. Queria saber se poderíamos conversar a respeito. Desta vez não fiquei desconfiado, pois a moça fornecia o link para seu site/portfolio, bem como o telefone para contato — inclusive achei o trabalho dela bem interessante. Respondi agradecendo os elogios e dizendo que poderíamos, sim, conversar sobre o assunto. Mas antes eu gostaria de saber de que forma ela pretendia usar minhas estampas, já que isso não havia ficado claro. Ela me respondeu que ainda estava no começo do tal trabalho, e como eu também morava no Rio, perguntou se não podíamos nos encontrar pessoalmente para conversar. Então fiquei desconfiado. Por que, se ambos moramos na mesma cidade, a moça não optou por me telefonar antes a fim de explicar melhor do que se tratava o trabalho, até para saber se realmente minhas estampas serviriam ao projeto? Respondi que, na verdade, eu não via problema em marcar um encontro, mas achava melhor, antes disso nos falarmos por telefone. Expliquei que eu fazia apenas os desenhos (artes) e não tinha nenhum envolvimento com a produção/impressão de tecidos. Depois disso, a tal moça não me escreveu mais. Das duas, uma: ou ela estava com segundas intenções (o que acho muito pouco provável), ou viu que meus desenhos não serviriam para seu trabalho por não estarem impressos em tecidos. O mais estranho é que como não me respondeu até hoje — ainda o fará? — fiquei sem saber o que ela realmente pretendia. O que me parece certo é que, se os objetivos fossem mesmo profissionais, nosso encontro teria sido uma total perda de tempo, para ambos.

Não posso assegurar que — apesar da abordagem duvidosa — as intenções destas duas pessoas não fossem estritamente profissionais, mas essa “ânsia” por um encontro sem explicar o que pretendem e sem saber se poderei atendê-los me parece um legítimo despropósito — sem contar o caráter dúbio que fica no ar (pelo menos para mim, “o” desconfiado). Estranho também a ausência de um simples agradecimento depois de minhas explicações — seria uma atitude tão educada quanto profissional. Não sei como os outros resolvem suas questões de trabalho, mas eu levo meu ofício extremamente a sério e procuro, antes de tudo, fornecer e obter todas as informações possíveis a fim de não perder meu tempo e não desperdiçar o do provável cliente também. Serei exigente — ou desconfiado — demais?

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Sempre achei estranho o fato de a maioria das mulheres esconder a idade. Mais estranho ainda as que mentem sobre isso. E não menos estranha a regra de etiqueta que considera deselegante, proibitivo até, indagar a idade de uma mulher — claro que perguntar tal coisa sem nenhum motivo não faz sentido, mas se há uma razão em sabê-lo deve ser porque a resposta é relevante. Fiquei pensando quando teria surgido essa “necessidade” de ocultar o tempo de vida, e também a finalidade disso. Idéia de um homem ou de uma mulher? Um hábito antigo que perdura até hoje?

Tenho impressão de que a estratégia da mulher em não revelar a idade deve estar associada ao receio de parecer velha. Vergonha por não ser (mais) jovem? Desprezo pela velhice? De fato, a sociedade ocidental parece valorizar cada vez mais a juventude, como se apenas ela importasse — o que me parece um equívoco —, e é verdade também que o preconceito contra os velhos existe. Vergonha e desprezo justificados? Evidente que os jovens contam, e muito, nos tempos atuais, mas os maduros, idosos e crianças também contam! Acredito no ser humano como uma espécie de plural — plural que se desdobra também cronologicamente. Por isso, não vejo demérito algum em não ser (mais) jovem; ao contrário: a maturidade, quase sempre, faz com que quem a experimente se sinta mais seguro de si, mais ciente de quem realmente é. Tudo bem, este é o ponto de vista de um homem maduro — eu —, mas por que para as mulheres (ou para a maioria delas) parece tão difícil se convencer disso? Ou estão convencidas mas se “submetem”, sem pensar muito, a uma regra(?) esquisita sob pena de não parecerem “normais”?

Nada contra as mulheres que escondam ou mintam a idade, que fique claro — afinal, acredito que as pessoas devem ter liberdade para fazer aquilo que querem (por mais estranho que pareça). Mas tenho uma admiração especial pelas mulheres que não se deixam encerrar nessas normas criadas sabe-se lá por quem e com que propósito.

Posso até estar enganado na minha ignorância sobre o tema — por isso, e por conta do meu “público” essencialmente feminino, o abordo aqui —, mas fico sempre com a sensação de que negar a idade é negar a si mesmo; mentir sobre ela é mentir para si próprio. E quem se beneficia com essa negação, com essa mentira? A própria mulher? Os homens? As outras mulheres? Não tenho a mais pálida idéia. O que me parece certo é que nem sempre essa tática surte o efeito desejado, já que ao ocultar a idade a mulher pode parecer mais velha do que realmente é aos olhos dos outros — já vi isso acontecer várias vezes.

O conceito de velhice, ao que me consta, vem se transformando ao longo dos anos. Atualmente, uma mulher de 40 anos não pode mais ser considerada necessariamente uma velha — o que era muito comum nos anos 50 ou 60 do século passado. Não apenas o arsenal cosmético evoluiu muito nos últimos tempos, bem como a própria idéia de idade se modificou. Não sei se essas mudanças visam deliberadamente aproximar a maturidade da juventude, o fato é que não é muito complicado hoje, para uma pessoa madura, sobretudo uma mulher, aparentar jovialidade, muito naturalmente — mesmo sem lançar mão do botox e de outros artificialismos pesados (ainda que, quando bem utilizados, eles tenham valor). Para quem já não é mais tão jovem não há mal algum em se cuidar, em desejar uma aparência agradável, desde que a mente funcione como a de alguém maduro (compatível com a idade cronológica), pois não há nada mais ridículo do que pessoas — mulheres e homens — que se comportam como jovens acreditando assim transformarem-se num deles. Isso nunca dá muito certo, e a caricatura grotesca na qual tal incauto se converte sempre é motivo de riso, pena ou constrangimento — também já vi isso acontecer diversas vezes.

Sábado passado, lendo um artigo no jornal sobre uma escritora estreante fiquei intrigado com este trecho: “A mais nova autora tem em torno de 30 anos (ela não diz a idade, não quer parecer nova hoje, nem velha daqui a alguns anos)…” O que será que a moça quer parecer afinal? Com alguém sem idade, suponho — alguém que não existe! Curiosamente, a jovem escritora parece desprezar a juventude tanto quanto a velhice. Quanta estranheza!…

Não compreendo ainda o que leva as mulheres (ou a maioria delas) a considerarem a idade como uma espécie de tabu, mas penso que este post, e os comentários sobre ele, talvez me ajudem a entender um pouco melhor a questão.

Eu já deveria estar habituado, já que é algo tão freqüente, mas não tem jeito: a falta de educação, ou ausência de gentileza, de algumas pessoas sempre me deixa impressionado — mal impressionado, para ser mais preciso.
Não sei se esse tipo de comportamento é reflexo dos tempos atuais, se é uma questão de pouca instrução, se está mais ligado aos jovens (que consideram quase tudo como “pagar mico”), ou ainda se é uma soma desses fatores, o que sei é que por mais que eu procure não dar importância ao fato ele invariavelmente me incomoda. E talvez me incomode porque fico sempre com a impressão de, ao tentar ser gentil com certas pessoas, ter perdido meu tempo com quem não merecia. Serei tão exigente assim? Não: um simples “obrigado” resolveria tudo.

Não sou uma pessoa pública, e isso é mais do que óbvio. Mas blogs, sites, comunidades e congêneres, de certo modo, podem fazer com que seus autores “desconhecidos” fiquem em evidência, dependendo do que escrevam, fotografem, desenhem, etc. — e dependendo também dos tais buscadores. Neste post vou me ater apenas ao chamado “mundo virtual”, muito embora no “mundo real” tais atitudes também ocorram em proporções alarmantes.

É verdade que meu nome está associado a alguns blogs, sites & cia., mas isso, teoricamente, não significa que estou à disposição de qualquer um para responder perguntas, dar conselhos, fornecer informações, ministrar aulas e outras coisas mais, como se fossem “obrigações” (gratuitas) às quais eu estivesse firmemente atrelado.

Entretanto, sempre que recebo um e-mail de alguém pedindo algum tipo de “auxílio”, se tenho condições de ajudar, faço-o de bom grado. Do contrário, me desculpo educadamente dizendo os motivos de não poder auxiliar.
Dos que não tenho como ajudar não costumo esperar nenhum retorno, já que minha resposta negativa, mesmo justificada e sempre cordial, deve frustrar suas expectativas — o que, em todo caso, não seria motivo para deixar de agradecer (sempre agradeço a quem não pode me auxiliar quando quem solicitou a ajuda fui eu). Mas acho espantoso que justamente aqueles a quem consigo auxiliar de algum modo sequer me enviem uma mensagem agradecendo a gentileza que tive em dedicar parte do meu tempo a elaborar uma lista de livros da autora X e indicar locais onde poderiam ser encontrados; de fornecer informações sobre o ofício de desenhista de padronagens e como conseguir agente no exterior; de enviar pesquisas pessoais sobre este ou aquele tema…

Isso não significa que eu não goste de ajudar a quem quer que seja, muito pelo contrário. Que fique claro: se o pedido estiver ao meu alcance faço-o com prazer! Mas meu prazer seria ainda maior se eu soubesse que minha ajuda teve realmente alguma importância para quem a pediu. E, neste caso, um mero “obrigado” — palavra bem mais curta do que a mensagem inicial contendo o pedido — seria suficiente, e me daria a certeza de que não desperdicei meu tempo. Será que a educação saiu de moda?

Não é por causa dos mal-agradecidos que deixarei de ser gentil. Não vou me transformar em alguém parecido com quem me incomoda. Mas enquanto existir gente ingrata me solicitando auxílio não poderei deixar de me espantar com suas atitudes nada corteses. Muito provavelmente este texto não resolverá a situação, mas não custa registrar aqui de forma geral o que seria inútil fazer de forma particular.
Quem disse que gentileza gera gentileza foi demasiado otimista: isso nem sempre acontece.