fevereiro 2007


Para quem ainda não sabe, entre outras atividades, também sou desenhista de padronagens. Aprendi este ofício na prática, quando trabalhei numa multinacional fabricante de material plástico. Na época (1989), como não existiam computadores, tudo tinha de ser feito a mão, com lápis, tintas e pincéis — não faz tanto tempo assim, mas ao lembrar isso me sinto meio jurássico.
Ainda que minha formação universitária tenha me conferido o diploma de Bacharel em Paisagismo, os 4 anos que passei desenhando na Escola de Belas Artes da UFRJ me deram uma base sólida o bastante para que eu me “aventurasse”, sem experiência alguma, no mundo das estampas e padrões.

Familiarizar-me com um universo até então desconhecido não foi tão complicado como imaginei a princípio, e não demorei muito a dominar as técnicas necessárias para ocupar eficazmente o cargo que consegui na fábrica — graças a ter me saído tão bem num teste “dificílimo” (pelo menos foi assim que a pessoa que me monitorou o classificou) que nem precisei concluí-lo. Na verdade, depois que vi os primeiros resultados do meu trabalho impresso fiquei tão entusiasmado que meu interesse pelo ofício e por descobrir e criar novas fórmulas de rapport (módulo de repetição) fez com que eu me dedicasse com afinco ao horizonte praticamente ilimitado que se estendia diante de mim. Assim, trabalhei satisfeito durante quase 4 anos nessa empresa — lamentavelmente, no fim deste período todo o setor de Marketing foi extinto, e com ele o Departamento de Criação no qual eu trabalhava.

Tive outros empregos (sempre relacionados, de algum modo, ao “desenho”) depois disso, e, como toda pessoa que quer continuar no mercado de trabalho, precisei adquirir conhecimentos de computação gráfica — imprescindível hoje em dia. Mais uma vez, não foi uma tarefa demasiado complicada, sobretudo levando-se em conta que nunca fiz curso algum — desagradável mesmo é ter que estar sempre atualizado: como é cansativo! Curiosamente, durante um bom tempo (nos meus outros trabalhos) esqueci quase por completo a existência de estampas e padrões.

Até que em 2003, lendo um anúncio no jornal que “recrutava” desenhistas de padronagem — e estando sem trabalho fixo —, acabei enviando meu currículo. Não se tratava de um emprego, mas de um projeto que me pareceu muito interessante: formar um grupo de desenhistas especializados em design de superfície a fim de desenvolver um trabalho tão diverso e rico quanto à cultura brasileira. Apesar da intenção ambiciosa e muito pouco garantida em termos financeiros, aceitei participar da empreitada. Aliando o que eu já sabia ao que aprendi sobre programas de computador (e também à experiência acumulada ao longo dos anos), o resultado, além de rápido e prático, me pareceu bastante agradável. A coordenadora do grupo de designers achou o mesmo. Assim, criamos uma grande coleção tendo o Brasil como tema — já que, na época, ele estava na moda. A intenção do projeto era oferecer as estampas a compradores aqui mesmo no Brasil. Entretanto, não demoramos a perceber que o Brasil não comprava o Brasil. Ou seja, o que “funcionava” aqui eram os padrões estrangeiros/importados simplesmente copiados ou, quando muito, adaptados à nossa realidade. Foi necessário mudar de estratégia e, já que o Brasil só era moda no exterior, buscar o mercado internacional — e assim, ironicamente, aderirmos ao “sistema nacional” só que às avessas. Uma missão nada simples e muito dispendiosa. Chegamos a participar de uma feira de tecelagem em Nova York (na qual vendi um padrão), mas os custos para continuarmos em tais eventos se mostraram muito além das possibilidades do grupo. Ainda conseguimos uma agente em NY, que durante algum tempo ficou com nosso acervo, mas aos poucos tudo foi se desfazendo, e cada designer se voltou para outros projetos.

Então, no começo deste mês, recebi um e-mail da agente de NY, que agora vive em Londres, perguntando se eu não estaria interessado em enviar algumas de minhas estampas para que ela mostrasse aos seus clientes (Victoria’s Secret, Dickies, Le Sportsac…). Aceitei o convite, e enviei cerca de 20 padronagens, que a própria agente escolheu no meu, digamos, catálogo. Para minha surpresa — e contentamento! —, em menos de 10 dias já tive uma estampa vendida! E pelo que disse minha agente existem alguns clientes interessados em outras. Estimulado, só me resta esperar que meu trabalho tenha boa aceitação, e que Londres me dê mais sorte que NY…

Abaixo, algumas de minhas padronagens:

padronagens

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Não sou muito adepto destas listas, mas admito que funcionam muito bem como “tapa-buraco”, ainda mais numa semana morta como acredito que será esta, por causa do tal Carnaval. Enfim, vamos a ela:

5 coisas que gostaria fazer antes de morrer

  • Descobrir/encontrar um ofício que me satisfaça de verdade e com o qual eu me sustente (seria querer demais?)
  • Voltar a ter um lugar só pra mim, onde posso fechar a porta e esquecer que o resto do mundo existe (não há necessidade de ser um lugar próprio)
  • Voltar a Veneza (talvez no inverno para vê-la com um aspecto diferente da primavera)
  • Voltar à França (não precisa ser Paris, eu me contento com o Midi)
  • Patinar num lago congelado (nem que seja de bengala)

5 coisas que sei fazer muito bem

  • Desenhar
  • Fotografar
  • Escrever
  • Organizar, arrumar, decorar (o meu espaço, bem entendido)
  • Paisagismo (não foi à toa que me formei na UFRJ)

5 coisas que vivo dizendo

  • Como assim?
  • Mas quem foi que te disse isso?
  • E quem te disse que isso é verdade?
  • Você não esperou eu terminar de falar!…
  • Ai, meu Deus do céu! (apesar de ser ateu!)

5 coisas que não faço ou não gosto de fazer

  • Acordar tarde
  • Ser quem não sou para conseguir o que quero (não faço nunca!)
  • Marcar compromisso e não poder cumpri-lo
  • Ficar em débito com alguém, seja por dinheiro ou objetos materiais
  • Insistir em “causas perdidas” 

 5 coisas que me agradam imensamente

  • Ler (boa literatura, evidentemente)
  • Encontrar pessoas interessantes e com boa conversa
  • Ficar sozinho comigo mesmo
  • Música barroca, principalmente italiana (o resto para mim não existe)
  • Caminhar (sobretudo em dias nublados ou frios)

 5 coisas que me desagradam profundamente

  • Pessoas que querem me forçar a pensar e agir como elas (das quais sempre discordo inteiramente)
  • Ser enganado, roubado ou traído por gente que eu estimava
  • Pessoas exaltadas, escandalosas, mal-educadas, violentas, agressivas, vulgares, arrogantes, esnobes, burras, falsas, estúpidas, desonestas, compulsivas, mal-humoradas, com Síndrome de Franz… (na verdade, esta seria uma lista em separado, já que o número de itens é bem maior)
  • Natal, Ano Novo, Carnaval (estes 3 eu abomino!), datas festivas e festas em geral
  • Verão, sol, calor (nos trópicos)

Sîdrome de Franz

Você conhece alguém com Síndrome de Franz?
Como esta pergunta só fará algum sentido para quem tiver lido até o capítulo 5 do meu livro on-line, e como não sei ao certo se os visitantes deste blog chegaram a tanto (se é que chegaram), vou dizer resumidamente as principais características do personagem. Ah, a expressão que dá título ao post foi criada por mim.

Franz é um rapaz aparentemente inteligente, sedutor, bonito e que promete muito mais do que pode (ou pretende) cumprir. Pior: ciente de que não tem mais a menor vontade de fazer o que combinou, não o informa a quem ainda acredita no combinado. Mais grave ainda: não dá sequer uma reles explicação (ainda que falsa ou absurda) sobre um comportamento totalmente incompatível com a imagem que se esmerou tanto em construir. Na verdade, não só nada esclarece quando o pior vem à tona como ainda foge de sua “vítima”. Entretanto, apesar de tudo isso (ou justamente por isso), Franz se mostra uma pessoa instigante, enigmática, fascinante… porque parece sempre ocultar (talvez de si mesmo) um dado significativo capaz de mudar tudo.

Menciono isso porque houve quem alegasse, ao ler meu romance, que Franz não era um personagem convincente, já que suas atitudes e comportamento pareciam improváveis. Pois eu asseguro: dos personagens do livro Franz é o menos fictício de todos! — o que só comprova a tese de que a realidade, muitas vezes, pode ser bem mais inacreditável que a ficção.

O fato é que pessoas como Franz (ou com sua síndrome) existem de verdade, por mais estranhas e inverossímeis que pareçam. Meu personagem foi construído tendo como base uma pessoa real, que conheci à distância, e outra, que conheci bem de perto (da qual falarei oportunamente). Apesar de ter “usado” dois indivíduos para moldar a personalidade de Franz, um deles prevaleceu em 90%, ou seja, não foi uma equação elevada ao quadrado. Por isso mesmo não há exagero algum nos atos de Franz: ao contrário, cheguei até a atenuá-los em alguns pontos.

O rapaz alemão no qual me inspirei para compor Franz e a moça francesa que conheci pessoalmente (com quem me correspondi durante anos), me faziam acreditar que o tipo fosse característico de países europeus. Estava enganado. Muito recentemente, quase encontrei uma pessoa com Síndrome de Franz nativa aqui do Rio de Janeiro. Alguém que eu já conhecia virtualmente, mas que na hora de se tornar real desistiu de um simples contato que, pelo menos para mim, tinha tudo para ser o início de uma interessante experiência. Admito que até agora não entendi exatamente o que poderia ter acontecido para nada ter acontecido, já que nenhuma explicação me foi dada — e não foi por falta de iniciativa minha —, mas tudo (me) leva a crer que a responsabilidade por essa estranheza coube a mim, evidentemente. Uma das estratégias de quem tem Síndrome de Franz é deixar em sua ausência uma infinidade de dúvidas, perguntas sem resposta e sensação de culpa. Enfim, como eu já conhecia o tipo, minha surpresa se ateve mais ao fato de saber que pessoas assim também existem abaixo do Equador. Em todo caso, tive mais sorte que Liz (a protagonista do romance que se encontra com Franz em Amsterdam e tem uma experiência nada agradável). Melhor mesmo não perder tempo e gastar energia com quem não sabe o que quer. Ainda assim, por mais instigantes, enigmáticas e fascinantes que estas pessoas possam parecer, uma coisa me intriga: qual a real finalidade de se “autodemolir” quando, se a verdade fosse dita desde o início, tudo poderia ser perfeitamente compreendido? Será que com sua “rejeição” buscam justamente serem rejeitados? Por outro lado, será que, como Liz, tenho certa tendência a atrair (ou ser atraído) por esse tipo de gente? Serei mesmo tão parecido com ela neste aspecto? Se eu estudasse psicologia creio que teria um ótimo assunto para elaborar uma tese…
E você, conhece alguém com Síndrome de Franz?

Todos os textos que tentei escrever ficaram péssimos.
Minha paciência parece ter me abandonado.
O tempo está sempre num ritmo diferente do meu.
Entretanto, para não deixar esta semana “em branco”, recorro a um trecho de Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, que poderá ser útil para muitos — se conseguirem colocar o dito em prática — sobretudo eu mesmo.

“Nosso grande erro é tentar encontrar em cada um, em particular, as virtudes que ele não tem, negligenciando o cultivo daquelas que ele possui.”