junho 2007


Eu já deveria estar habituado, já que é algo tão freqüente, mas não tem jeito: a falta de educação, ou ausência de gentileza, de algumas pessoas sempre me deixa impressionado — mal impressionado, para ser mais preciso.
Não sei se esse tipo de comportamento é reflexo dos tempos atuais, se é uma questão de pouca instrução, se está mais ligado aos jovens (que consideram quase tudo como “pagar mico”), ou ainda se é uma soma desses fatores, o que sei é que por mais que eu procure não dar importância ao fato ele invariavelmente me incomoda. E talvez me incomode porque fico sempre com a impressão de, ao tentar ser gentil com certas pessoas, ter perdido meu tempo com quem não merecia. Serei tão exigente assim? Não: um simples “obrigado” resolveria tudo.

Não sou uma pessoa pública, e isso é mais do que óbvio. Mas blogs, sites, comunidades e congêneres, de certo modo, podem fazer com que seus autores “desconhecidos” fiquem em evidência, dependendo do que escrevam, fotografem, desenhem, etc. — e dependendo também dos tais buscadores. Neste post vou me ater apenas ao chamado “mundo virtual”, muito embora no “mundo real” tais atitudes também ocorram em proporções alarmantes.

É verdade que meu nome está associado a alguns blogs, sites & cia., mas isso, teoricamente, não significa que estou à disposição de qualquer um para responder perguntas, dar conselhos, fornecer informações, ministrar aulas e outras coisas mais, como se fossem “obrigações” (gratuitas) às quais eu estivesse firmemente atrelado.

Entretanto, sempre que recebo um e-mail de alguém pedindo algum tipo de “auxílio”, se tenho condições de ajudar, faço-o de bom grado. Do contrário, me desculpo educadamente dizendo os motivos de não poder auxiliar.
Dos que não tenho como ajudar não costumo esperar nenhum retorno, já que minha resposta negativa, mesmo justificada e sempre cordial, deve frustrar suas expectativas — o que, em todo caso, não seria motivo para deixar de agradecer (sempre agradeço a quem não pode me auxiliar quando quem solicitou a ajuda fui eu). Mas acho espantoso que justamente aqueles a quem consigo auxiliar de algum modo sequer me enviem uma mensagem agradecendo a gentileza que tive em dedicar parte do meu tempo a elaborar uma lista de livros da autora X e indicar locais onde poderiam ser encontrados; de fornecer informações sobre o ofício de desenhista de padronagens e como conseguir agente no exterior; de enviar pesquisas pessoais sobre este ou aquele tema…

Isso não significa que eu não goste de ajudar a quem quer que seja, muito pelo contrário. Que fique claro: se o pedido estiver ao meu alcance faço-o com prazer! Mas meu prazer seria ainda maior se eu soubesse que minha ajuda teve realmente alguma importância para quem a pediu. E, neste caso, um mero “obrigado” — palavra bem mais curta do que a mensagem inicial contendo o pedido — seria suficiente, e me daria a certeza de que não desperdicei meu tempo. Será que a educação saiu de moda?

Não é por causa dos mal-agradecidos que deixarei de ser gentil. Não vou me transformar em alguém parecido com quem me incomoda. Mas enquanto existir gente ingrata me solicitando auxílio não poderei deixar de me espantar com suas atitudes nada corteses. Muito provavelmente este texto não resolverá a situação, mas não custa registrar aqui de forma geral o que seria inútil fazer de forma particular.
Quem disse que gentileza gera gentileza foi demasiado otimista: isso nem sempre acontece.

Se estivesse viva ela teria feito 100 anos em abril passado. Mas já faz 35 anos que Violette Leduc “viajou”, como ela mesma diria pouco antes de “embarcar”.
Violette Leduc, obscura escritora francesa (obscura mesmo para os franceses), tinha tudo para ser um absoluto fracasso em todos os sentidos que se possa imaginar. Quanto mais conheço sua história e as formas tortuosas — nem sempre muito ortodoxas — que ela empreendeu a fim de se livrar, em parte, de sua “maldição”, quanto mais constato que contra tudo e contra todos (inclusive contra si mesma) ela conseguiu sobreviver, e ainda triunfar, quanto mais “desvendo” sua literatura única tão emaranhada em sua própria vida, mais cresce minha admiração por esta figura singular, personalidade tão complexa quanto difícil, e por isso mesmo fascinante.

A primeira vez que tomei conhecimento de Violette Leduc foi na extensa autobiografia de Simone de Beauvoir: ela falava de uma mulher muito feia que tinha grande talento para escrever — o que fazia com uma “sinceridade intrépida”, num estilo e temperamento arrebatadores. Curioso, mas sem saber exatamente do que tratavam seus livros, Violette Leduc não passava para mim de um nome bonito apenas.

Muito tempo depois, garimpando alguns livros num sebo do centro do Rio, deparei com A Bastarda, livro mais conhecido de Violette Leduc, mencionado várias vezes por Beauvoir. Numa rápida folheada, fiquei impressionado com o texto, que me atraiu como um imã. Não consegui deixar o sebo sem levar o livro. Quando me dediquei a sua leitura com a merecida atenção fiquei fascinado com a ousadia, com a coragem, com a “sinceridade intrépida”. Nunca havia lido nada tão tocante.

Eu pretendia contar aqui um pouco mais sobre Violette Leduc; sobre sua complicada relação de amor e ódio com a mãe, que sempre a culpou por ser filha ilegítima; sobre como usando apenas o que tinha, a própria vida, ela criou uma literatura singular, tão elogiada pela crítica quanto desprezada pelo público; sobre como, apesar de 5 livros e diversos artigos publicados em jornais e revistas, ela continuou sendo “um deserto que monologa” por quase 20 anos; sobre como, por causa de um livro, ela conseguiu sair brutalmente da obscuridade e tornar-se uma mulher rica e famosa (ainda que por pouco tempo); sobre como, a despeito da fama e dos amigos, ela morreu solitária, praticamente abandonada, seu maior temor durante toda a vida… Na verdade, cheguei a escrever o post, mas ele acabou ficando demasiado extenso. Como acabei de colocar no ar a nova versão do site que fiz para “homenagear” Leduc (e por que não, a propósito, seu centenário de nascimento?), quem tiver curiosidade poderá descobrir mais detalhes sobre Violette aqui. Será que ainda preciso dizer o quanto a autora e sua escrita me impressionaram?

Lamentavelmente, no Brasil apenas 2 livros de Leduc foram traduzidos — um dos quais (A Bastarda) se encontra fora de catálogo, só podendo ser achado em sebos. Deste modo, ironicamente, minha tentativa de divulgar a obra de uma autora tão “desconhecida” não deixa de fazer de mim (também) uma espécie de “deserto que monologa”. Mas não me importo, e nisso a obra de Violette me serve de estímulo e consolo: quando se acredita naquilo que se faz não há motivos para perder a coragem.

Como eu disse aqui, não fui uma criança leitora, lia somente os livros que o colégio obrigava — aliás, fiquei até traumatizado por conta do sistema de (des)estímulo empregado nas escolas que freqüentei nos anos 70. Entretanto, minha infância quase sem livros e o trauma escolar não foram entraves para que, mais tarde, eu viesse a me interessar espontaneamente pela leitura. Tudo acabou sendo desencadeado quando eu já estava na universidade.

No início dos anos 80, na Escola de Belas Artes (UFRJ) a maioria dos livros que precisávamos usar nos trabalhos estava escrita em francês. Isso não chegava a ser uma “dificuldade” quando havia no grupo alguém que soubesse o idioma, mas nem sempre se podia contar com tal sorte. Provavelmente pensando nisso, a própria universidade oferecia um curso denominado “francês instrumental”: noções básicas que permitiriam aos alunos compreenderem os textos dos referidos livros de arte. Tendo que cursar matérias eletivas, acabei me decidindo pelo estudo da língua que supostamente me libertaria da necessidade de recorrer a outros alunos — e ainda poderia, quem sabe, me abrir novos horizontes. Não me arrependi. Na verdade, foi uma das melhores coisas que fiz na vida (se eu levar em conta tudo o que acabou decorrendo a partir dessa escolha).

Gostei tanto de aprender francês — para mim, infinitamente mais fácil do que o inglês — que depois dos dois períodos de seis meses na faculdade me matriculei num curso convencional, perto de casa. No ano seguinte, orientado e estimulado por meu professor, mudei para a Alliance Française — que ele assegurava ter mais recursos que o modesto curso que eu seguia. Meu professor não mentiu, e fiquei bastante satisfeito com a troca. Tudo isso para dizer que foi através das aulas na Alliance, e dos fragmentos de texto nelas apresentados, que comecei a me interessar novamente pela leitura. Minha identificação com certos textos e autores foi tão imediata que eu queria saber mais, não só sobre os escritos, mas também sobre as vidas deles.

Assim, já com mais de 20 anos, travei contato com Gide, Camus, Beauvoir, Sartre, Yourcenar, Duras, Sagan… Curioso em ler mais do que os trechos usados em sala de aula, comecei a procurar pelos livros desses autores — o que não foi difícil. André Gide foi o primeiro a quem me “dediquei”, já que, na época, seus livros (traduzidos) eram facilmente encontrados em qualquer livraria. Devorei, deliciado, praticamente toda a obra do autor, e posso dizer sem exagero algum que um mundo completamente novo se abriu diante de mim. É difícil explicar o prazer que descobri com uma leitura que parecia me dizer respeito, que parecia escrita para mim, e que tanto me agradava. Não sei dizer se pelos temas ou pela forma, mas o arrebatamento foi de tal ordem que me surpreendi por ter ficado tanto tempo longe dos livros. Quanto tempo perdido!, pensava estupefato. Mas eu estava disposto não a recuperá-lo (já que o tempo perdido é sempre irrecuperável), mas a aproveitar o que tinha pela frente com essa forma de prazer única. Aos poucos, fui destinando meu tempo livre a “descobrir” os outros autores que haviam me despertado interesse nas aulas de francês: por sorte, eles e seus livros eram tão numerosos que eu me sentia diante de uma fonte inesgotável de palavras e idéias. E matei minha sede. Li tudo o que encontrei com a avidez de quem tinha os dias contados e, pouco a pouco, meus horizontes foram se expandindo de uma forma surpreendente para mim. Talvez alguns imaginem que, por conta do estímulo do idioma, limitei-me apenas aos autores franceses. É verdade que eles tiveram a prerrogativa, pois quando me interesso por um autor quero ler tudo o que ele escreveu, e tudo sobre ele também — e isso pode levar algum tempo. O fato é que durante quase duas décadas fiquei tão satisfeito com a diversidade do que li que não senti vontade de buscar escritores de outras nacionalidades — isso só aconteceria mais tarde.

Agora, nesta tentativa de retrospectiva, pode parecer até meio ridícula a forma (deslumbrada) com que relato esses acontecimento, mas a sensação — ainda hoje! — é justamente essa: a leitura, apesar de “retomada” tardiamente, mudou a minha vida. E não apenas do ponto de vista cultural, mas também em relação à forma de pensar, e de agir. Há quem diga que os livros não têm o poder de mudar as pessoas. Eu discordo: tudo depende das obras lidas e dos leitores em questão. É verdade que cada um tem uma relação muito particular com livros e autores, e nem todos reagem do mesmo modo diante das mesmas obras — afinal, o gosto pessoal também conta. O que sei é que por causa da leitura (e da literatura) acabei conseguindo “me salvar” de mim mesmo — e num sentido bastante amplo, que eu só compreenderia realmente algum tempo depois.

De uma coisa tenho certeza: nunca é tarde para começar (ou recomeçar). Por conta das experiências na escola, eu tinha tudo para ser um adulto com total aversão a livros e leituras, mas quando se tem a oportunidade de encontrar autores adequados e textos sedutores — e quando se tem também um mínimo de interesse e disposição — tal quadro pode ser significativamente alterado, para melhor, para muito melhor.