reprise


no fim de cada dia

Faz alguns meses que consigo identificá-la apenas pela sombra. Mesmo agora, quando o sol do inverno a alonga ainda mais no fim de tarde. Preso aqui em cima, usando a sacada como mirante, tendo todo o tempo do mundo não foi muito complicado me especializar em tal técnica. Começou por brincadeira, e também com a pontualidade de Adélia. Da sacada, no fim de cada dia, ficava observando sua sombra entrar na rua, voltando do trabalho, caminhando devagar, a bolsa pendente. Depois, na esquina, ela surgia me acenando, sempre sorrindo daquele jeito triste. Culpa minha.

Nunca lhe disse que a reconhecia mesmo antes que dobrasse a esquina. Se ela soubesse disso talvez tivesse tido mais cuidado. Hoje vai ser o dia em que Adélia conhecerá minha morte. Morrerei com o veneno que ela mesma comprou, a meu pedido. Falei que havia visto um rato na cozinha, ela acreditou em mim. E não havia motivo para duvidar. Mas o rato não mora na cozinha, habita dentro de mim: posso vê-lo perfeitamente no espelho do nosso quarto, sentado numa cadeira de rodas. Hoje o rato inválido vai morrer, e nos livrar do sofrimento.

Se não fosse minha brincadeira de adivinhar sombras… talvez eu não tivesse coragem. Faz duas semanas que descobri tudo, ou quase. Adélia, sempre tão pontual, começou a se atrasar, a dar desculpas, a mentir. A princípio estranhei, depois, a certeza. A sombra de Adélia passou a entrar na rua acompanhada por outra sombra, mais larga, mais alta, mais forte. Às vezes lado a lado, ou então de mãos dadas, ou ainda juntos, o braço da sombra dele sobre os ombros da sombra dela. Paravam, conversavam um pouco. As sombras se abraçavam, se beijavam. Depois se separavam. A sombra de Adélia prosseguia, arrastando-se pesadamente como se subisse uma ladeira íngreme. Dobrava a esquina sozinha, me acenando e sorrindo mais tristemente que antes.

Ontem foi diferente: a sombra dela chorou, a dele tentou consolá-la. Ficaram abraçados por um longo tempo. O sol se pôs, e só consegui ver sua sombra sob a luz do poste, pisoteada na vertical, quando já não era mais necessário. Eu havia fraquejado, desistido até, mas não posso continuar lhe impondo o fardo no qual me transformei, sombra do que já fui. Ela não merece isso, eu não mereço isso. Amo-a tanto e sou tão grato por tudo o que fez por mim desde o acidente que exijo em troca sua felicidade. Adélia não precisa de mim, precisa de um homem, um homem que a deseje e que ela possa desejar, de verdade. Agora não passo de um roedor que inspira cuidados quase humilhantes para continuar vivo, mediocremente. A piedade de Adélia me constrange. Minha condição me aniquila. Inútil dizer-lhe que me deixe: não tenho ninguém além dela. A única solução para o meu caso está na caixinha em minhas mãos.

Sinto-me responsável por um bom desfecho. Ela já encontrou um novo par. Preciso fazer minha parte. Tenho que matar o horror que vive em mim. Hoje, quando Adélia dobrar a esquina não estarei na sacada. Talvez ela se assuste e corra, achando que algo me aconteceu; talvez continue andando como sempre, adivinhando o que fiz… não tenho como saber. O que sei é que hoje Adélia estará definitivamente liberta. Eu também.

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Conto escrito (e publicado) originalmente em junho de 2005, composto tendo como inspiração a imagem que o ilustra.

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“Para que serve um diário senão para que outros o leiam?”

Afirmação verdadeira, ainda que esses “outros” sejamos nós mesmos, algum tempo depois. Foi o que aconteceu comigo hoje. Remexendo gavetas, deparei não com um diário propriamente dito, mas com antigas anotações que eu fazia quando mais novo. Terei escrito o que reencontrei agora (mais de 20 anos depois) para mim mesmo? Por que guardei essa papelada? Escrita terapêutica. Frases rabiscadas com pressa, com raiva, com tristeza, com espanto… arsenal de sentimentos que pareciam à flor da pele. Quanto exagero, quantas lágrimas, quanto sofrimento, quanto desperdício de energia… e de tempo!
Mas tudo muito útil se eu levar em conta que posso emprestar essas sensações aos meus personagens.

Um alívio não ser mais quem já fui, não estar passando pelo que já passei, ter mudado. Nos meus escritos antigos, nada encontrei que fizesse alusão a momentos alegres e felizes — o que não significa que não tenham existido. Por isso atribuí ao amontoado de palavras propriedades curativas. Curei-me de diversas “enfermidades”, mas há sempre novas “moléstias” as quais ainda não somos imunes. Em todo caso, não tenho feito uso da escrita ultimamente como quando mais jovem — pelo menos não que eu saiba. Aliás, quando mais novo, eu não imaginava que o estivesse fazendo, não era algo premeditado. Ainda assim, minhas palavras passadas me intrigam. Não lembrava de um monte de coisas; de outras, ao contrário, lembrei com surpreendente nitidez. Memória seletiva. Não deve ser mesmo importante lembrar de TUDO, apenas do que interessa.

Impressionante observar que pessoas que eu considerava amigas sequer sei se ainda existem. O que terá acontecido com todos aqueles que, de certa forma, me ajudaram a ser o que sou hoje? Terão mesmo me ajudado? Alguns sim, por melhores (ou piores) que tenham sido. Talvez, para muitos deles eu também não passe de um “cadáver” em suas memórias…

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Admito: o post é antigo (pinçado do meu blog anterior), mas continua valendo até hoje.

Château de Chambord

Maio de 1995. Primavera na França. Mas, naquela manhã, fazia um frio invernal demais para a estação que eu julgava amena. Chuviscava em Blois — cidade que escolhi como base para a segunda etapa do meu desejo quase incontrolável de conhecer castelos medievais. Já havia visitado Ussé, Azay-le-Rideau, Villandry, Amboise e Blois. Agora seria a vez de CHAMBORD. E nem a chuva fina e o frio intenso me fariam desistir de mais essa “descoberta”.

Não foi fácil encontrar o ônibus que levava àquela localidade afastada, distante cerca de 15 quilômetros de Blois. Constatei que nem sempre falar francês resolve tudo: é preciso saber onde e a quem perguntar.

O ônibus era uma espécie de oásis às avessas, com seu sistema de aquecimento bastante conveniente para o frio inclemente que fazia no exterior. As poltronas eram tão confortáveis que devo ter cochilado por alguns minutos. Mas, de repente, o veículo silencioso no qual eu viajava em companhia de meia dúzia de passageiros, foi “invadido” por uma turma de crianças uniformizadas — todas numa algazarra significativa.
A chuva apertava e, ao longe, eu já podia identificar a silhueta de CHAMBORD contra o fundo cinza-chumbo. Um dos maiores castelos do mundo, o maior do Vale do Loire.

Achei que o ônibus fizesse ponto final junto ao castelo, mas foi com grande surpresa que o vi fazer a curva e retornar para Blois, depois de passar na porta da gigantesca construção. Corri até o motorista e avisei-o de que ficaria no castelo. Ele me olhou com certa indiferença, mas pediu que eu aguardasse: iria me deixar num outro ponto de onde eu poderia chegar a CHAMBORD.

Desci no meio do mato, debaixo da chuva. Havia uma alameda que conduzia ao castelo, que, daquele ponto, parecia estar a quilômetros. Comecei a seguir para lá a passos rápidos, na vã tentativa de não ter de correr para não me molhar muito. Talvez tivesse dado certo se a chuva não se transformasse numa tempestade. Corri sob o aguaceiro por um caminho que mais se assemelhava a um pântano. Cheguei encharcado junto ao castelo. Entrei pela primeira porta aberta que encontrei.

Foi estranho. O ambiente espaçoso e vazio, onde duas grandes lareiras haviam sido acesas, parecia ter me feito voltar no tempo. Por um instante flutuei numa nuvem de “antiguidade”. Aproximei-me do fogo, tirei meu casaco e tentei me aquecer um pouco. Talvez, em tempos remotos, algum outro homem tivesse repetido um gesto parecido com o meu… ou melhor: EU é que me senti repetindo uma ação que me soava natural, muito embora nunca a houvesse praticado. Mãos voltadas para o fogo, alternando com as costas para o mesmo calor, tentava me secar por inteiro. E o consegui, de certo modo. A enorme porta de madeira que dava para o lado de fora deixava ver uma estrutura semelhante a um cadafalso. A chuva pesada desabava. A estranheza ainda me dominava: queria sair do lugar, ir para outra parte do castelo, mas algo me retinha. O calor do fogo apenas? Não sei. E não tive tempo de descobrir: som de vozes, outros visitantes chagavam ao salão quebrando a quase aura de mistério por mim experimentada. 

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Texto publicado originalmente no POR UM TRIZ, meu blog anterior, em janeiro de 2005.
Nada como poder recorrer a antigos posts que nos “socorram” quando a inspiração nos falta, a paciência nos abandona e o tempo se esvai numa velocidade assustadora.

Como não consegui pensar em nada razoável para publicar esta semana, recorro a um “repeteco”: um post já publicado nos primórdios do meu blog anterior (mas que está valendo até hoje). Acho que foi a coisa mais divertida que já escrevi — até eu achei graça quando o reli!

futilidade masculina

Se existe uma coisa que detesto é ter que fazer a barba. Digo “ter” porque de nada adiantaria deixá-la crescer: além de rala e falhada, agora a profusão de pêlos brancos que insistem em surgir me deixam com um aspecto deplorável. Desde que esses pêlos começaram a nascer no meu rosto adolescente experimentei várias formas na tentativa de remoção; na verdade cinco. Vamos a elas:

1. Barbeador Elétrico

Algo que só funciona perfeitamente se for usado a cada 30 minutos (quem tem barba cerrada deve aumentar o intervalo para 5 minutos). Foi meu primeiro contato com a prática (nada prática) na remoção de pêlos faciais. Pensando que o problema estava nos produtos usados na pele (talco ou óleo) para fazer o barbeador deslizar, alternei os dois durante muitos anos, até abandonar a técnica pouco eficaz de vez.

2. Lâmina de Barbear

Pareceu-me a alternativa óbvia ante o fracasso do barbeador elétrico. Comparativamente mais eficiente que o primeiro método, o mais desagradável é que, junto com os pêlos, uma considerável camada de pele é removida pelas lâminas (inútil aquela borrachinha que alegam conter Aloe vera). Para quem, como eu, tem pele fina nada mais “confortável”. No entanto, a parte mais dramática vem na seqüência: a aplicação da loção após barba. É como deslizar nu sobre um tobogã de gilette caindo imediatamente numa piscina de álcool. Ui! Achei que fosse questão de tempo esperar minha pele “engrossar” com tal processo, mas isso nunca aconteceu.

3. Depilatório (sim, eu fiz isso!)

Sempre buscando alternativas inovadoras, observei que minha mãe usava um método que parecia interessante na remoção dos pêlos de suas pernas: eles eram dissolvidos!, e demoravam um tempão a renascer. Por que não adaptar tal coisa ao meu caso?, pensei. A embalagem alertava para o uso do produto exclusivamente nas pernas ou axilas, mas desconsiderei a advertência, achando que apenas não tinham tido a mesma idéia brilhante que eu. Passei a gosma com cheiro de esgoto no rosto, prendendo o nariz com a ponta dos dedos e olhando no espelho o resultado milagroso. Mas o que vi foi meu rosto instantaneamente vermelho e ardente como brasa, chegava a sair fumaça! Água, água, água! A cara ficou um desastre por vários dias, mas consegui sobreviver.

4. Cera quente (desespero de causa?)

Uma conhecida — que se considerava esteticista — garantiu-me que com a cera quente eu me livraria da barba por aproximadamente 2 semanas. Se eu tornasse aquela prática num hábito, em pouco tempo não teria mais que me preocupar com o barbear, continuou ela assegurando. Acreditei. No cubículo escuro que ela denominava consultório, deitei numa espécie de maca e deixei que a “esteticista” arrancasse meu couro. Quando a sessão de tortura terminou — cerca de duas horas mais tarde — ela me deu um espelho de mão. Naquela escuridão o resultado me pareceu satisfatório, e eu nem fiquei chateado em pagar a fortuna cobrada pelo serviço. Só quando cheguei em casa, e corri ao espelho iluminado do meu banheiro, pude comprovar a realidade: um monte de pêlos indesejáveis vicejava em plena vermelhidão facial! Quatro dias mais tarde TODOS os pêlos me acenavam debochados da saída de seus folículos.

5. Pinça (técnica chinesa – de paciência)

Requer habilidade, dedicação e muito, muito tempo. E, claro, precisa ser feita em etapas. Inconvenientes: alguns pêlos renitentes são dolorosíssimos de se arrancar, sobretudo os mais grossos; a probabilidade dos novos pêlos encravarem é surpreendente (eles ficam revoltados). Desvantagem: sendo feita em etapas, a cara fica parecendo uma lavoura abandonada no meio da colheita. Acabei me rendendo aos inconvenientes e desvantagens.

Hoje, mais de 20 anos depois do início de tudo, acabei adotando as lâminas de barbear como a técnica menos complexa. Ainda me corto todo e minha pele parece afinar cada vez mais. Entretanto, alguém teve a excelente idéia (deve mesmo ter sido um homem) de mudar a fórmula de algumas loções após barba tornando-as compatíveis com a pele humana retalhada. A descida sem roupa no tobogã de gilette continua a mesma, só que o mergulho agora é feito num tanque de bálsamo hidratante de fácil absorção, que amacia e relaxa a pele, deixando-a com aparência saudável. Estranhamente, apesar de soar como pura frescura, a promessa das novas loções se cumpre. Enfim, um pouco de suavidade nesta tarefa ingrata.