julho 2007


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Meu pai morreu.
Quando soubemos disso, cerca de três anos haviam se passado. Não chorei, nem fiquei triste. Mas tive pena: o corpo foi encontrado junto ao meio-fio, parte na rua, parte na calçada. Como não sabiam de quem se tratava, e como ninguém apareceu procurando por ele, levaram o cadáver para o IML. Por um triz não foi enterrado como indigente. Um amigo lembrou à família de meu pai — a esta altura mais do que preocupada com seu desaparecimento — a procurar, além dos hospitais, nos lugares em que não ousavam arriscar. Assim, o morto teve um sepultamento simples, mas decente.

Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequeno. Lembro vagamente de uma briga feia: gritos, choro, minha mãe ferida, minha avó assustada. Na época, eu não entendia direito porque aquilo acontecia — e ninguém parecia disposto a falar no problema. Com o tempo descobri o óbvio: meu pai bebia, perdia o emprego, se descontrolava, batia na mulher dele.
Com o desquite, eu e meu irmão mais novo ficamos sob a guarda de nossa mãe — que trabalhava e tinha condições de nos criar. Depois disso, lembro de ter visto meu pai aparecer umas poucas vezes em nossa casa nova. Eu ainda gostava dele. Sem compreender direito o motivo da separação, da ausência repentina do meu pai, depois que ele entrava para nos visitar eu trancava a porta e escondia a chave: esperança infantil de que ele não fosse embora. Mas meu pai sempre conseguia escapar. Até que um dia nunca mais apareceu.

A gente se acostuma a tudo na vida. Comigo não foi diferente. Apesar de ser apontado na escola e na rua como “filho da desquitada” (coisa ainda suspeita no fim dos anos 60), eu não me sentia triste, apenas um pouco constrangido: não conseguia entender como podia ser “feio” aos olhos dos outros minha mãe ter escolhido o melhor para ela e seus filhos. Esse constrangimento fazia com que me sentisse inferior aos meus amiguinhos: todos pareciam ter “algo maravilhoso” que eu desconhecia. Esse “desfalque” ficava mais evidente quando, na escola, chegava a época de fazermos um presente para o dia dos pais. Eu era o único a fazer um presente para minha mãe — o segundo do ano. Isso me mortificava tanto quanto os olhares de piedade dos outros coleguinhas.

Cresci e procurei esquecer os incômodos. Mudar constantemente de casa ajudava a não precisarmos dar satisfações a quem não interessava.
Cerca de 10 anos depois de seu desaparecimento, meu pai ressurgiu, como um fantasma vivo vindo do fundo do passado. Desconfortável estar na presença daquele completo estranho que dizia ter um amor imenso por mim e meu irmão. Apesar de ele parecer sincero, eu não conseguia corresponder ao sentimento que um filho normalmente teria. Meu pai começou a fazer promessas, um monte delas — parecia querer compensar a mim e meu irmão de uma só vez por todo o tempo em que nos faltara. Eu não acreditava, e não queria nada do que ele prometia: apenas coisas materiais, como se o amor tivesse necessariamente que ser representado por algo palpável, visível, mensurável. Além das promessas, fazia cobranças; exigia de mim um comportamento incompatível com minha educação, com minhas vontades. Nem tive tempo de sentir o peso do incômodo: assim como surgiu, meu pai tornou a desaparecer. Não me surpreendi; no fundo, senti até certo alívio. Não me importaria nem um pouco se nunca mais o visse. Assim aconteceu. Quando soubemos de sua morte, tive apenas a confirmação de uma realidade há muito presente em mim.
No entanto, não deixou de ser um pouco chocante conhecer as circunstâncias dessa morte estúpida. Morreu sozinho (como todos morreremos), mas também abandonado, talvez por si mesmo. Bebeu até cair, morreu na sarjeta, como um Zé-ninguém — quantos clichês…

Soube que ele havia conseguido refazer sua vida: uma nova mulher, filhos, família. Mas, infelizmente, não se curou da doença. Uma vida desperdiçada, inútil, vazia… Às vezes penso até que ponto minha adolescência indiferente não teria contribuído para a derrocada final desse estranho do qual descendo. Teria eu podido ajudá-lo de algum modo? Teria conseguido “salvá-lo”, ainda que o desejasse? Não sei. Jamais saberei.
Uma lágrima para o homem que me ajudou a vir ao mundo — apenas isso. Uma lágrima, nada mais.

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Eu pretendia publicar meus contos e relatos antigos (postados originalmente no meu blog anterior) na seção PÁGINAS deste blog. Mas como tenho a (falsa?) sensação de que os visitantes só lêem mesmo os posts — e quero que leiam meus outros textos, ainda que antigos — resolvi publicá-los aqui mesmo. Além de estarem mais “visíveis” — mesmo que somente por determinado período —, estes textos servirão para ocupar o espaço quando eu não tiver tempo, paciência, ou não souber o que publicar aqui. Eu e minhas justificativas…

Tenho grande implicância com anúncios de emprego que pedem ao provável candidato para especificar quanto pretende receber pela função que desempenhará caso seja contratado. Fico sempre com a impressão de que tal estratégia se constitui numa espécie de leilão (oculto) às avessas, no qual os que derem os menores lances terão as maiores chances de contratação. Evidente que cada empresa deve ter o direito de formular os anúncios de seleção de emprego segundo seus próprios critérios, e cabe ao interessado (ou implicante, como eu) decidir se vai participar do tal leilão ou não.

Recentemente, respondi a um anúncio no jornal que solicitava um profissional com o perfil que considero ter — sim, eu ainda me sinto atraído por um emprego com carteira assinada (por mais antiquado que isso pareça hoje em dia). Para meu alívio, o anúncio não pedia que o candidato à vaga informasse sua pretensão salarial — o que me fez acreditar que o salário não seria leiloado; apenas não tinha sido divulgado (aliás, algo nada prático levando-se em conta que, no fim de tudo, o ordenado poderia não me interessar). Enfim, enviei o currículo e o link para meu portfolio, mas sem muita expectativa.

Dois dias depois, recebi uma resposta do setor de recursos humanos da tal empresa dizendo que meu currículo e portfolio se enquadravam no perfil que eles procuravam para a vaga de designer. Porém, para minha insatisfação, o e-mail terminava com a seguinte frase: “Gostaríamos de agradecer seu interesse e saber qual sua pretensão salarial para o cargo em questão”. Ou seja, eu não estaria livre do leilão: ele só não havia (ainda) sido anunciado. Pensando bem, se eu me enquadrava no perfil — o que significava, em tese, um tipo de prerrogativa —, não custava informar o que me solicitavam.

Sei bem quanto vale o meu trabalho e quanto eu gostaria de receber por ele. Sei também que os tempos estão cada vez mais difíceis para determinadas categorias profissionais e para contratações. A fim de não fornecer um valor totalmente fora da realidade, apesar de já saber a quantia que eu pretendia ganhar mensalmente, telefonei para uma amiga que trabalha na mesma área que eu e desempenha a mesma função. Ela me disse exatamente o valor que eu tinha pensado — R$ 200,00 a mais do que eu ganhava no meu último emprego há 4 anos. Assim, enviei minha resposta ao setor de recursos humanos.

Até hoje — e lá se vai quase um mês — não obtive resposta, mas não é preciso pensar muito para concluir que meu “lance” não deve ter sido dos menores. Por que, se era tão importante, a pretensão salarial não foi pedida desde o início? Ou antes: por que a empresa não revelou de uma vez quanto poderia pagar a fim de atrair apenas os realmente interessados? Porque, muito provavelmente, devem ter tido receio de, ao revelar o (baixo) salário, receberem apenas currículos e portfolios ruins, ou sequer os receberem. Deste modo, a tática do leiloamento deve corresponder à esperança de, talvez, obterem material de qualidade de alguém com pretensão salarial abaixo da média — o que não deve ser muito comum (ou será que me equivoco?).

Para que serve o tempo? Para ser aproveitado… tanto quanto para ser desperdiçado! Muitas empresas poderiam economizar tempo e também poupar o tempo dos pretensos candidatos se fossem mais objetivas, diretas, sinceras, em resumo, mais profissionais. É claro que não é a primeira vez que isso acontece ao longo da minha “carreira”, mas se fosse a última eu ficaria bastante satisfeito (não custa sonhar!). Em todo caso, fora o tempo perdido, não há o que lamentar: se não podiam pagar o que eu pretendia receber (que nem era tanto assim), eu não devia mesmo me enquadrar no perfil da vaga disponível.

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Adendo: escrevi este post ontem, domingo. Hoje pela manhã, encontrei na minha caixa de correspondência o e-mail da “empresa leiloeira” informando que a vaga já havia sido preenchida — que novidade! Agradeceram minha participação e disseram que meu currículo e portfolio ficariam arquivados no banco de dados para uma oportunidade futura — oportunidade que, para quem sabe ler nas entrelinhas, jamais acontecerá. Pelo menos se dignaram a me responder…

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Certas formas de lucidez são piores do que as piores cegueiras. No instante em que aceitamos nosso próprio reflexo como definitivo, importa pouco saber se o espelho, o olhar, são ou não deformantes; é necessário que esse reflexo seja belo, ou tente sê-lo; porque, se não o for e a isso nos resignarmos, iremos ao encontro do pior, não tentaremos senão acentuar sua crueldade como, nas festas dos povoados e nos circos ambulantes, esses paspalhões que reconhecem de súbito em um espelho deformante sua feiúra, sua imagem caricatural e se comprazem em acentuar o grotesco, em vez de fugirem. Porque os outros, então, se reúnem e riem abertamente dessa feiúra em maiúsculas e da qual não podiam senão sorrir às escondidas, quando era miniatura. Em suma, nota-se a insignificância! E que procura o mais insignificante ou o mais estúpido senão ser visto?
A Cama Desfeita | Françoise Sagan (1977)

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Tenho uma relação estranha com espelhos: eles (ou o que neles percebo) me fascinam tanto quanto desagradam.

padronagens.wordpress.com

Já tive um blog no qual publiquei somente os desenhos das estampas que eu criava. Na época, creio que essa intenção acabou adquirindo — sem que eu o previsse, claro — o caráter de novidade, pois cheguei até a “ganhar” um post no DRAWN! (o mais importante blog de design do mundo) comentando minha idéia criativa. Para meu total espanto, cheguei a ter mais de 3.000 visitas num só dia.

Mas o tempo passou, minhas padronagens já não são novidade e o site antigo estava mais do que ultrapassado (em vários sentidos). Assim sendo, resolvi abrir um novo blog para republicar “minha arte”. Aproveitei para fotografar umas “bandeiras” (grandes retalhos de tecido impresso) a fim de mostrar o resultado concreto do trabalho. Procurei dispor as imagens num formato compacto e mais interessante para evidenciar as mini-coleções, quando for o caso.

Quem tiver curiosidade, poderá ver o que andei desenhando através do link abaixo:

http://padronagens.wordpress.com

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Embora algumas vezes certos espelhos, determinados amigos e umas poucas fotografias pareçam me desmentir, considero-me — ao menos cronologicamente falando — maduro. Um “senhor de idade”, como eu costumo dizer (brincando?). Se a maturidade ainda me causa algum estranhamento, encaro com naturalidade o fato de, com o passar dos anos, ter me tornado mais seletivo e exigente. Afinal, se a contagem regressiva se torna cada vez mais evidente não faz sentido desperdiçar um tempo que sempre nos parece insuficiente.

Após duas décadas de dedicação quase exclusiva aos escritores franceses, só depois dos 40 anos comecei a me interessar verdadeiramente por autores de outras nacionalidades. Creio que esse desejo por “novidade” surgiu quando, a fim de tentar descobrir se meu livro prestava, fiz uma oficina literária com Sérgio Sant’Anna. Preciso confessar minha total ignorância, nesta época, sobre a obra do escritor que seria meu professor na oficina. Não demorei muito a descobrir que seu trabalho era bastante respeitado pela crítica e pelo público, o que o tornava alguém renomado no panorama da literatura nacional. Isso me incomodou, e de duas formas: eu não só desconhecia os livros de Sérgio Sant’Anna bem como de TODOS os meus compatriotas contemporâneos! Impossível não me sentir, por antecipação, defasado no meio da turma que iria freqüentar. Apressei-me em procurar algo do meu futuro professor antes do início das aulas. Como queria ganhar tempo, acabei comprando o livro mais fino que encontrei: Um Crime Delicado. Fiquei imediatamente fascinado com o texto, e também muito satisfeito em saber que seria aluno de um autor que me agradava muito — o que não deixou de ser uma sorte dupla.

Considero esta oficina importantíssima não só para o meu, digamos, “lado autor”, bem como para meu lado leitor. Não sei se devido ao trauma dos tempos da escola ou por preconceito (ou mesmo por ambos), o fato é que, a exceção dos livros que li obrigado quando aluno, eu não tinha costume de ler coisa alguma de Literatura Brasileira. O que não deixava de ser uma grande incoerência, ironia até. Não que fosse “condição essencial” conhecer obras de autores nacionais para poder escrever em língua portuguesa, mas não faria mal algum saber o que esses escritores haviam produzido. No fundo, talvez o trauma de infância tenha me marcado de algum modo, já que tendo minha curiosidade sobre autores brasileiros despertada, comecei a ler apenas os livros dos meus contemporâneos, gente que está viva hoje. Ainda não me dediquei com o devido afinco à descoberta dos escritores nacionais ou então estou sendo seletivo e exigente, como mencionei no início, e não vou abrir demasiadamente esse leque. Melhor dizendo: li os livros de vários brasileiros, inclusive da minha geração (e mais novos até), mas a maioria não me agradou. E depois, eu tenho a esquisita mania de querer ler tudo, ou quase tudo, dos escritores que me agradam. Deste modo, neste âmbito, por enquanto, somente dois nomes parecem dignos de registro na minha trajetória como leitor: Sérgio Sant’Anna, de quem admiro imensamente o trabalho (e o fato de conhecê-lo pessoalmente não deve ser levado em conta neste caso); e também Edgard Telles Ribeiro, que não é muito “badalado”, mas que possui uma literatura que sempre me causa espanto, no bom sentido, claro — seu livro, O Manuscrito ainda hoje me atordoa quando nele penso.

Paralelamente, procurei descobrir também o que estava sendo (ou tinha sido) escrito em outros países — o que se prolonga até hoje. Assim, travei contato com a literatura inglesa (E.M. Forster, Stephen Splender, Ian McEwan), literatura holandesa (Margriet de Moor), literatura argentina (Ernesto Sabato, Roberto Arlt, Julio Cortázar), literatura canadense (Michel Tremblay), literatura alemã (Thomas Mann, Patrick Süskind), literatura italiana (Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino), literatura americana (Henry Miller, Ernest Hemingway, David Leavitt, Truman Capote)… E, mais recentemente, com a literatura húngara (Sándor Márai), literatura afegã (Khaled Hosseini), literatura indiana (Thrity Umrigar) e literatura japonesa (Yukio Mishima).
É muito pouco, bem sei, mas espero ter tempo para aumentar minha lista, e descobrir algo da literatura africana (todo um continente!), turca, chinesa, portuguesa, russa… Em todo caso, como é impossível tudo ler, conhecer algum livro que nos chame a atenção e nos agrade talvez seja suficiente — mesmo quando o que foi lido não pode ser considerado como um “legítimo” representante da literatura deste ou daquele país. Isso, para mim, pouco importa. O que conta — e tem contado cada vez mais — é o impacto que a história me causa, a viagem que o texto me proporciona, as sensações que minha imaginação percebe, o desvendar de mundos e vidas que ignoro e nos quais penetro… em suma, o prazer que o livro me dá. Pois sem prazer algum (ainda que esta palavra tenha conotações muito pessoais), quando se é maduro, e, por conseguinte exigente e seletivo, não faz sentido desperdiçar o tempo que nos resta com o que não vale a pena.