“reclamação”


Às vezes eu gostaria de não ser tão observador.
Às vezes eu gostaria de não ter uma memória tão seletiva.
Às vezes eu gostaria de ser mais paciente (comigo e com os outros).
Às vezes eu gostaria de não ser tão exigente (com os outros e comigo).
Às vezes eu gostaria de não pensar tanto.

[Aqui entrava todo um discurso explicativo/justificativo, que censurei, pois parecia mais destinado a mim mesmo do que a qualquer outro.]

Talvez, se esses desejos não me assaltassem apenas às vezes eles já não me incomodariam: se fossem um peso esmagador eu já teria dado um jeito de me livrar da carga, ou teria sucumbido a ela.

Tenho grande implicância com anúncios de emprego que pedem ao provável candidato para especificar quanto pretende receber pela função que desempenhará caso seja contratado. Fico sempre com a impressão de que tal estratégia se constitui numa espécie de leilão (oculto) às avessas, no qual os que derem os menores lances terão as maiores chances de contratação. Evidente que cada empresa deve ter o direito de formular os anúncios de seleção de emprego segundo seus próprios critérios, e cabe ao interessado (ou implicante, como eu) decidir se vai participar do tal leilão ou não.

Recentemente, respondi a um anúncio no jornal que solicitava um profissional com o perfil que considero ter — sim, eu ainda me sinto atraído por um emprego com carteira assinada (por mais antiquado que isso pareça hoje em dia). Para meu alívio, o anúncio não pedia que o candidato à vaga informasse sua pretensão salarial — o que me fez acreditar que o salário não seria leiloado; apenas não tinha sido divulgado (aliás, algo nada prático levando-se em conta que, no fim de tudo, o ordenado poderia não me interessar). Enfim, enviei o currículo e o link para meu portfolio, mas sem muita expectativa.

Dois dias depois, recebi uma resposta do setor de recursos humanos da tal empresa dizendo que meu currículo e portfolio se enquadravam no perfil que eles procuravam para a vaga de designer. Porém, para minha insatisfação, o e-mail terminava com a seguinte frase: “Gostaríamos de agradecer seu interesse e saber qual sua pretensão salarial para o cargo em questão”. Ou seja, eu não estaria livre do leilão: ele só não havia (ainda) sido anunciado. Pensando bem, se eu me enquadrava no perfil — o que significava, em tese, um tipo de prerrogativa —, não custava informar o que me solicitavam.

Sei bem quanto vale o meu trabalho e quanto eu gostaria de receber por ele. Sei também que os tempos estão cada vez mais difíceis para determinadas categorias profissionais e para contratações. A fim de não fornecer um valor totalmente fora da realidade, apesar de já saber a quantia que eu pretendia ganhar mensalmente, telefonei para uma amiga que trabalha na mesma área que eu e desempenha a mesma função. Ela me disse exatamente o valor que eu tinha pensado — R$ 200,00 a mais do que eu ganhava no meu último emprego há 4 anos. Assim, enviei minha resposta ao setor de recursos humanos.

Até hoje — e lá se vai quase um mês — não obtive resposta, mas não é preciso pensar muito para concluir que meu “lance” não deve ter sido dos menores. Por que, se era tão importante, a pretensão salarial não foi pedida desde o início? Ou antes: por que a empresa não revelou de uma vez quanto poderia pagar a fim de atrair apenas os realmente interessados? Porque, muito provavelmente, devem ter tido receio de, ao revelar o (baixo) salário, receberem apenas currículos e portfolios ruins, ou sequer os receberem. Deste modo, a tática do leiloamento deve corresponder à esperança de, talvez, obterem material de qualidade de alguém com pretensão salarial abaixo da média — o que não deve ser muito comum (ou será que me equivoco?).

Para que serve o tempo? Para ser aproveitado… tanto quanto para ser desperdiçado! Muitas empresas poderiam economizar tempo e também poupar o tempo dos pretensos candidatos se fossem mais objetivas, diretas, sinceras, em resumo, mais profissionais. É claro que não é a primeira vez que isso acontece ao longo da minha “carreira”, mas se fosse a última eu ficaria bastante satisfeito (não custa sonhar!). Em todo caso, fora o tempo perdido, não há o que lamentar: se não podiam pagar o que eu pretendia receber (que nem era tanto assim), eu não devia mesmo me enquadrar no perfil da vaga disponível.

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Adendo: escrevi este post ontem, domingo. Hoje pela manhã, encontrei na minha caixa de correspondência o e-mail da “empresa leiloeira” informando que a vaga já havia sido preenchida — que novidade! Agradeceram minha participação e disseram que meu currículo e portfolio ficariam arquivados no banco de dados para uma oportunidade futura — oportunidade que, para quem sabe ler nas entrelinhas, jamais acontecerá. Pelo menos se dignaram a me responder…

Eu já deveria estar habituado, já que é algo tão freqüente, mas não tem jeito: a falta de educação, ou ausência de gentileza, de algumas pessoas sempre me deixa impressionado — mal impressionado, para ser mais preciso.
Não sei se esse tipo de comportamento é reflexo dos tempos atuais, se é uma questão de pouca instrução, se está mais ligado aos jovens (que consideram quase tudo como “pagar mico”), ou ainda se é uma soma desses fatores, o que sei é que por mais que eu procure não dar importância ao fato ele invariavelmente me incomoda. E talvez me incomode porque fico sempre com a impressão de, ao tentar ser gentil com certas pessoas, ter perdido meu tempo com quem não merecia. Serei tão exigente assim? Não: um simples “obrigado” resolveria tudo.

Não sou uma pessoa pública, e isso é mais do que óbvio. Mas blogs, sites, comunidades e congêneres, de certo modo, podem fazer com que seus autores “desconhecidos” fiquem em evidência, dependendo do que escrevam, fotografem, desenhem, etc. — e dependendo também dos tais buscadores. Neste post vou me ater apenas ao chamado “mundo virtual”, muito embora no “mundo real” tais atitudes também ocorram em proporções alarmantes.

É verdade que meu nome está associado a alguns blogs, sites & cia., mas isso, teoricamente, não significa que estou à disposição de qualquer um para responder perguntas, dar conselhos, fornecer informações, ministrar aulas e outras coisas mais, como se fossem “obrigações” (gratuitas) às quais eu estivesse firmemente atrelado.

Entretanto, sempre que recebo um e-mail de alguém pedindo algum tipo de “auxílio”, se tenho condições de ajudar, faço-o de bom grado. Do contrário, me desculpo educadamente dizendo os motivos de não poder auxiliar.
Dos que não tenho como ajudar não costumo esperar nenhum retorno, já que minha resposta negativa, mesmo justificada e sempre cordial, deve frustrar suas expectativas — o que, em todo caso, não seria motivo para deixar de agradecer (sempre agradeço a quem não pode me auxiliar quando quem solicitou a ajuda fui eu). Mas acho espantoso que justamente aqueles a quem consigo auxiliar de algum modo sequer me enviem uma mensagem agradecendo a gentileza que tive em dedicar parte do meu tempo a elaborar uma lista de livros da autora X e indicar locais onde poderiam ser encontrados; de fornecer informações sobre o ofício de desenhista de padronagens e como conseguir agente no exterior; de enviar pesquisas pessoais sobre este ou aquele tema…

Isso não significa que eu não goste de ajudar a quem quer que seja, muito pelo contrário. Que fique claro: se o pedido estiver ao meu alcance faço-o com prazer! Mas meu prazer seria ainda maior se eu soubesse que minha ajuda teve realmente alguma importância para quem a pediu. E, neste caso, um mero “obrigado” — palavra bem mais curta do que a mensagem inicial contendo o pedido — seria suficiente, e me daria a certeza de que não desperdicei meu tempo. Será que a educação saiu de moda?

Não é por causa dos mal-agradecidos que deixarei de ser gentil. Não vou me transformar em alguém parecido com quem me incomoda. Mas enquanto existir gente ingrata me solicitando auxílio não poderei deixar de me espantar com suas atitudes nada corteses. Muito provavelmente este texto não resolverá a situação, mas não custa registrar aqui de forma geral o que seria inútil fazer de forma particular.
Quem disse que gentileza gera gentileza foi demasiado otimista: isso nem sempre acontece.