maio 2007


Para quem ainda não sabe tenho um livro publicado. Não, não se trata do meu romance virtual, mas de um livro no formato convencional, impresso em papel. Fui um dos 40 selecionados no primeiro concurso Contos do Rio, em 2003, e isso fez com que meu conto fosse publicado pela Bom Texto Editora, em 2005. Assim, quem ainda não sabia disso, não deve também ter lido o post que escrevi (na época) sobre minha “noite de autógrafos” — e dos outros 39 selecionados também, claro. Então, mais uma reprise:

Contos do Rio

Fui pontual, como de costume. Tudo bastante organizado e muito parecido com o que eu tinha imaginado. Entretanto, naquele momento em que poucos haviam chegado, pensei que a noite seria longa e, de certo modo, um tanto “desconfortável” para quem, como eu, não é muito adepto de grandes aglomerações. Procurei o banner com o meu nome e sentei à mesa a mim destinada, que seria dividida com outro autor. A idéia original devia ser mesmo economia de espaço, mas não deixava de ser interessante a possibilidade de fazer com que os autores — quase que ainda totalmente estranhos uns aos outros — se conhecessem um pouco mais. Na minha mesa não deu certo, e eu nem tive chance de puxar conversa com meu parceiro, que preferiu ficar de pé, junto dos amigos e da família — o que não me pareceu nada censurável. Por outro lado, conversei um pouco com o autor da mesa vizinha: lembrava bem do conto nada ortodoxo dele, e o achei bastante simpático.
Não demorou muito para que alguns dos meus amigos me encontrassem no ambiente já bastante cheio e movimentado, e desfizessem por completo a imagem (de desconforto) que eu havia esboçado mentalmente na chegada. Outros amigos não demoraram a se juntar a nós. Foi uma noite bastante divertida e agradável.

Contudo, não deixei de sentir certo estranhamento ao dar autógrafos. É que imaginei que o faria apenas para amigos e conhecidos, mas não: gente que eu nunca havia visto aparecia com o livro querendo algumas palavras escritas por mim, minha “assinatura”. Mais surpreendente ainda os que chegavam com o livro aberto na página do conto, dizendo que tinham gostado muito do meu texto, me desejando sucesso nos próximos livros. Na verdade, não foram muitos, mas para mim foi curioso saber que pessoas que eu não conhecia também apreciam meus escritos. É provável que existam outros, e esse número poderá aumentar agora com o livro, que não ficará restrito ao Rio de Janeiro. Aliás, o que me parece interessante é justamente mostrar ao restante do país o que acontece aqui nesta cidade em termos de escrita e de histórias. Isso não significa que os relatos tenham de ser necessariamente verídicos para ter valor, mas há sempre muita verdade (ou realidade) nas entrelinhas ficcionais.

No livro, com um projeto gráfico muito bom e uma bela capa, meu texto ocupou 3 páginas — o penúltimo conto, devido à ordem alfabética dos autores. Olho o título que escolhi para o conto que enviei ao concurso quase no último dia, meu nome abaixo dele… uma sensação esquisita me domina: nada mudou para mim em essência, continuo sendo eu mesmo, mas minhas palavras agora estão registradas, impressas num objeto que existe fisicamente, que poderá ser lido por outras pessoas, que poderá, talvez, durar bem mais que eu. Isso faz com que meu “eu” ganhe uma nova dimensão para mim mesmo: não deixa de ser uma forma de perpetuação, um modo de — ainda que mui modestamente — fazer parte da eternidade. Sensação bastante esquisita, mas que me deixa muito contente. 

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Para quem ainda não leu o conto, segue o link: CONDENADOS.

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Este blog possui um sistema de estatísticas que indica como alguns visitantes chegam até aqui (por meio de palavras ou frases-chave), e também quais foram os posts mais lidos. Preciso admitir que esses dados geralmente me deixam curioso e, às vezes, bastante intrigado. Todo blogueiro deve saber que, como os textos cedo ou tarde acabam indo parar nos mecanismos de busca, é muito fácil receber visitantes inadvertidos — que procuravam qualquer coisa, menos o assunto do post em questão. Deixando os desavisados de lado, observo que, de certo modo, os blogs também podem ser considerados como uma espécie de “serviço de utilidade pública” — dependendo do teor dos textos, obviamente.
Assim, levando em conta os sete meses de existência do hebdomadário, os 26 posts publicados e as mais de 4.300 visualizações cheguei às seguintes conclusões:


  • A correspondência — ou melhor, a troca de cartas escritas em papel — parece despertar ainda hoje algum interesse (mera curiosidade “histórica”?) — 64 visitantes

  • As diferenças entre o real e o imaginário (ou entre autores e personagens) seduzem um número razoável de pessoas — 66 visitantes

  • Os garotos de programa e/ou prostituição masculina atraem gente mais em busca de imagens do que de palavras, logicamente. Ainda assim, se o texto (imenso) foi inteiramente lido, creio que tal fato se deva a certa curiosidade: revelariam minhas palavras alguma obscenidade? (os que vieram atrás disso devem ter ficado bastante frustrados…) — 70 visitantes

  • Os castelos do Vale do Loire, sobretudo Chambord, parecem fazer parte do roteiro de viagem de muitos turistas (brasileiros, suponho). Desde que o post foi publicado ele tem recebido visitas quase diárias — 72 visitantes

  • A questão da infância & leitura parece interessar a um número bastante significativo de leitores(?). Levando-se em conta que este post foi publicado na semana passada, não deixa de ser um percentual expressivo. Muitos visitantes chegaram até ele procurando por resumos dos livros de José de Alencar (sinal de que o autor — por incrível que pareça! — ainda hoje deve ser o “terror” de muitos alunos). Aliás, a busca pelos tais resumos me deixou surpreso: nunca pensei que o horror às leituras obrigatórias chegasse a tanto! Pelo visto, a leitura nas escolas e universidades(?) nunca esteve tão desprestigiada. Uma pena!… — 79 visitantes

  • As pessoas parecem ter interesse (ou curiosidade) sobre descobertas recentes (mesmo que elas sejam pequenas e extremamente pessoais) — 83 visitantes

  • Londres deve mesmo ser uma cidade muito interessante. Eu ainda não a conheço, mas meus desenhos sim. Quem sabe um dia?… A maioria dos leitores deste post veio por causa da cidade em si e não por conta de minhas padronagens — 101 visitantes

  • A grafologia, para minha surpresa, é a segunda colocada no ranking dos posts mais lidos no meu blog. Eu não falei exatamente sobre o tema, mas apenas da minha relação pessoal com um tipo de teste barato e seu curioso resultado128 visitantes

  • Em primeiro lugar (e não menos surpreendente para mim) está o post mencionando um tipo de futilidade masculina: o ato de fazer a barba e suas possíveis variantes. Confesso que nunca pensei que fosse ter um texto, digamos, tão “popular”. O número de leitores (creio que a maioria do sexo masculino) ainda me impressiona: não há um só dia em que o post não seja lido (geralmente mais de uma vez por dia!). Sinal de que fazer a barba, e suas conseqüências, ainda aflige muitos homens. No texto, não prometo solução de problemas, apenas conto (de forma humorada, creio) as peripécias que já fiz em busca de um sistema que me ajudasse a ficar livre dos tais pêlos. Curiosamente, tendo em vista as palavras e frases-chave usadas, verifico que um número considerável de rapazes(?) deseja saber qual o método mais eficaz de acabar com esse “transtorno”. As dúvidas sobre o funcionamento do barbeador elétrico, bem como sobre a utilidade da pedra ume, são constantes. Observei também que um número significativo de leitores provém de Portugal (o que me faz crer que este deve ser um “problema” relevante para os jovens d’além mar) — 473 visitantes

Ainda que estas estatísticas não sejam muito confiáveis, acho interessante saber que, de algum modo, minhas impressões pessoais sobre assuntos variados podem estar tendo alguma utilidade para certas pessoas. Na verdade, esta nunca foi minha intenção. Não escrevo posts visando necessariamente determinado público, mas não posso evitar que isso aconteça. Antes de tudo, escrevo para me expressar, para (talvez) tentar entender um tema visto de outro ângulo, para dizer o que penso e (talvez) descobrir o que pensam os outros sobre um assunto. Escrevo porque isso me parece uma forma de existir, porque (no fundo) sou vaidoso, porque acho que tenho algum jeito com a coisa. Escrevo porque gosto.
Se meus escritos servirem a outrem de alguma forma (seja ela qual for), ficarei duplamente satisfeito, já que para mim eles sempre servem para algo — ainda que, às vezes, eu só o descubra bem mais tarde.

infância & leitura

Diferente do que possam pensar alguns, não fui uma criança que leu muito. Na verdade, quando pequeno li muitíssimo pouco, praticamente nada. Não era por falta de livros. Eles sempre existiram em quantidade considerável nas casas da minha infância, mas eu gostava bem mais de aproveitar meu tempo brincando ou desenhando — e desenhar era quase uma obsessão, já que era raro o dia em que eu não me divertia com lápis de cor e papéis.
Para “dificultar” ainda mais meu interesse pela leitura, quando criança, existiam uns disquinhos (vinil, compacto) que acompanhavam livretos de histórias que minha mãe comprava para meu irmão e eu. Assim, com nossa vitrolinha, ouvíamos as histórias e olhávamos as figuras coloridas: para quê ler com tanta praticidade?, acho que eu pensava. Em nossa estante, entre livros de “literatura”, havia também várias coleções (tipo enciclopédia), fartamente ilustradas e que me seduziam bem mais pelas imagens que pelos escritos.

Quando crescemos um pouco mais, minha mãe teve a idéia de formar uma nova coleção: Clássicos da Literatura Juvenil. Lembro de ter ficado fascinado com a idéia e a sucessão dos livros, que surgiam a cada semana. Mas o que me atraía eram as capas (cada uma de uma cor) e as ilustrações nelas usadas. E eu arrumava os livros semanalmente, às vezes por ordem numérica; em outras, por ordem cromática. Ler mesmo, só os títulos. Não sei explicar exatamente meu desinteresse pelos textos destes livros, já que as imagens me se seduziam tanto. O que sei é que nunca tive a menor vontade, ou curiosidade, de ler as páginas dos mais de 30 volumes que formavam minha coleção de clássicos. Pensando bem, acho que eu considerava “chato” ler: uma atividade tão passiva, tão inerte. Não, não fui uma criança hiperativa, longe disso, mas me lembro de gostar de algo um pouco mais “dinâmico e criativo” como desenhar, por exemplo.

Na escola (pública), não saberia precisar com exatidão quando se iniciaram as leituras obrigatórias dos livros de “literatura”. Lembro vagamente de um bem fino, O Gigante de Botas, que continha grandes ilustrações e contava a história dos bandeirantes — o primeiro que li? Lembro também de Quatro num Fusca e de Memórias de um Cabo de Vassoura, mas não me recordo nada destas histórias. Pelo visto, esse “debut” forçado no mundo da literatura não me causou nenhum estranhamento, nenhum estímulo também.

Um pouco mais tarde — e eu me lembro muito bem dessa fase pré-adolescente —, fui obrigado a ler na escola (pública, ainda) um livro que me causaria verdadeira aversão às leituras e a tudo o que estivesse relacionado a elas — principalmente pelo “eco acidental”: uma dose maciça que eu não desejaria a nenhuma criança. Refiro-me a Ubirajara, um romance indianista de José de Alencar. Um livro inacreditavelmente chato, confuso, escrito num estilo “empolado”, com um mundo de nomes indígenas difíceis de memorizar e guerras e lutas e batalhas… uma história que parecia não ter fim. Pela primeira vez senti verdadeiro horror por um livro, uma história, um autor. Às vezes penso que os professores das escolas públicas dos anos 70 eram um tanto sádicos. Numa época em que os alunos deveriam ser estimulados a ler, forçá-los a interpretar tal obra — sim, pois havia uma prova sobre o texto — era, na minha opinião (e no meu caso particular), o caminho mais curto para apavorar e desesperar qualquer criança com um mínimo de bom senso. Nada contra os clássicos, mas tudo contra eles quando se trata de impô-los a jovens despreparados ou sem interesse para tanto. Sim, eu poderia dizer que este livro me traumatizou, e muito.

Para piorar meu “drama”, no ano seguinte, novo professor de língua portuguesa, e novo livro a ser obrigatoriamente lido: Iracema, outro romance indianista de José de Alencar!!! Não sei como suportei. Eu me lembro de ter chorado quando, ao começar a ler a volumosa edição, me dei conta de ser um “repeteco” do romance anterior, só que desta vez com uma quantidade de páginas bem maior. Quem não leu estes livros dificilmente poderá imaginar o impacto que essa dose cavalar de José de Alencar pode ter numa criança. Não resisto a publicar um pequeno trecho do livro a fim de “ilustrá-lo”:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Que criança sairia indene depois da leitura de semelhante texto? Enfim, consegui sobreviver e até — espantosamente! — tirar boas notas nas tais provas sobre os livros, mas jamais esqueci o horror que me eles causaram, sem contar meu profundo desprezo e total antipatia por seu autor.

Diante das “leituras escolares forçadas”, eu estremecia quando chegava a época dos professores determinarem o terror da vez a ser lido. Mas escolas diferentes possuem regras distintas. Por sorte, por causa de nossas constantes mudanças de endereço (e de bairro — sim morávamos em imóveis alugados), eu também mudava frequentemente de colégio. Após o “trauma indianista” achei a maior novidade, em outra escola (agora particular), o professor oferecer dois títulos para que nós, alunos, escolhêssemos o que mais nos agradasse. Deste modo, entre Senhora, de José de Alencar(!!!!!) e A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães não hesitei um segundo sequer. Para estimular meu interesse pela obra de Bernardo Guimarães, na época estava no ar a novela homônima (em sua primeira versão televisiva). E foi com duplo prazer que li o romance sobre a escrava branca: não só por poder escolher (e me livrar do Alencar!), bem como pelo caráter, digamos, “interativo” que as imagens da novela (que eu assistia) proporcionavam junto ao texto do livro. De certo modo, foi um pouco decepcionante descobrir que a adaptação do texto para a TV alterava alguns detalhes da obra original, mas gostei de ter lido o romance e de ter sabido do final da trama antes de a novela terminar.

A possibilidade de escolha, ainda que limitada, mudou ligeiramente minha forma de encarar as leituras obrigatórias. Mesmo que a responsabilidade de optar por um “livro ruim” tivesse sido desviada para os alunos, o simples fato de poder escolher me parecia uma evolução. Assim, menos traumatizado, li vários outros clássicos da Literatura Brasileira, dentre os quais me recordo vivamente de O Cortiço, de Aluízio Azevedo e de Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Porém, mesmo tendo, de certa forma, superado meu trauma, eu só lia os livros que a escola “obrigava”. Meu interesse espontâneo pela Literatura surgiria bem mais tarde (eu já estava com mais de 20 anos!), mas essa é, talvez, uma história para outro post, este já ficou demasiado longo.

Não sei como andam as escolas hoje em dia e a relação que estas instituições procuram estabelecer entre jovens e livros. Uma coisa me parece certa: a obrigatoriedade por títulos específicos (sobretudo dos clássicos nacionais, sempre) não me parece uma boa estratégia — aliás, no meu entender, ela não poderia ser pior. Sei que as escolas públicas mudaram muito (em vários sentidos) nas últimas décadas. Sei inclusive que a maioria piorou brutalmente em termos de qualidade de ensino. Mas espero que, de algum modo, as crianças e adolescentes de hoje tenham à disposição métodos de estímulo à leitura bem mais eficazes do que os por mim experimentados.

Ocupado demais — tentando dar vazão à minha “carreira internacional” — para escrever algo relevante. E assim, obviamente, ocupo este espaço com o irrelevante.

Em todo caso, já que tive tempo suficiente de ao menos publicar este “aviso”, aproveito para dispor um fragmento de minha autoria que até hoje, depois de tanto tempo (e depois de tantos escritos!), ainda me faz pensar: 

“Escrever… para quê?, para quem? Por que escrever? Qual a finalidade desse contínuo enfileiramento de palavras?… tão imprecisas, tão excessivas… que dizem sempre tão pouco…”
Os Malabaristas – cap. 2