Madame Oráculo

Admito: nunca havia lido nada de Margaret Atwood, embora seu nome (ou pelo menos o sobrenome) não me fosse totalmente desconhecido — mas eu sequer sabia que ela era canadense, na verdade, uma das autoras contemporâneas mais importantes e respeitadas naquele país.
Foi através de uma amiga de blog, que sempre falava sobre a autora e seus livros de forma entusiasmada, que tive minha curiosidade despertada. Escrevi um e-mail para a amiga virtual manifestando meu interesse pela escritora canadense, e ela gentilmente me enviou uma lista dos livros de Atwood, bem como um resumo do que tratavam os romances.

Demorei um pouco a me decidir por qual livro iniciar o “descobrimento” da literatura de Atwood, pois eles me pareceram caros quando fiz uma pesquisa nas livrarias — comprar livros novos: um “luxo” de que posso lançar mão cada vez mais raramente. Assim, acabei recorrendo a um sebo, onde encontrei — a preços incrivelmente convidativos! — dois títulos da autora, dentre os quais Madame Oráculo (um de seus livros mais conhecidos).

O terceiro romance escrito por Margaret Atwood me conquistou desde a primeira página: não só pelo tom da narrativa, bem como pela história em si.
Joan Foster, escritora de fantasias góticas (romances cor-de-rosa de temática histórica), depois de ter simulado a própria morte, encontra-se numa cidadezinha italiana descobrindo a possibilidade de uma nova vida. Seu objetivo principal agora é reinventar a personagem que ela foi nos últimos 30 anos: a criança obesa menosprezada e perseguida pela mãe; a herdeira que precisou emagrecer forçosa e drasticamente a fim de receber o dinheiro que a tia lhe havia deixado; a jovem que perdeu a virgindade com um escritor polonês de quinta categoria; a esposa do radical e enfadonho Arthur, com tendências maníaco-depressivas; a amante de um “artista modernoso” e sem grana que se autodenomina Porco-Espinho Real.
Joan tem dupla identidade — recurso de que se valeu, ainda jovem, por não estar muito segura do que faria de sua vida — mas, na verdade, sua existência é múltipla e facetada.
Através da longa — e quase sempre divertida — jornada de Joan, Atwood traça o retrato de uma mulher dividida entre o que gostaria de ser e o que os outros permitem que ela seja. Apesar disso, ou justamente por isso, Joan segue em frente, sempre tentando recriar a si mesma e dar algum sentido a(s) sua(s) vida(s). Seu poder de auto-análise e sua lucidez diante do mundo e das situações que experimenta são admiráveis. Ao mesmo tempo, uma pergunta parece impor-se a todo instante: é realmente possível solucionar os problemas escondendo-se deles?

O que mais me agradou no livro, sem dúvida, foi a comicidade presente quase o tempo todo, mesmo quando o assunto não tinha, aparentemente, nada de divertido — uma característica (e também uma grata novidade para mim) que Margaret Atwood explora muitíssimo bem. A maioria das passagens com o tal Porco-Espinho Real são engraçadíssimas: cheguei mesmo a gargalhar! Também gostei muito do fato de Joan escrever os tais romances cor-de-rosa de inspiração histórica, pois ao longo do texto conhecemos trechos de algumas de suas fantasias e características de suas heroínas góticas — e tudo fica ainda mais interessante quando a protagonista traça (ou tenta traçar) um paralelo entre sua vida e as vidas das personagens que ela cria.

Apesar de ter apreciado bastante a leitura, dois pontos me pareceram “desfavoráveis” (pelo menos para o meu gosto). Um deles é o salto para o passado mais remoto da protagonista (quando ela era ainda bem criança) logo depois de um início que me deixou ansioso em saber o que aconteceria no presente de Joan. Evidente que conhecer o passado da personagem é fundamental para entender e apreciar toda a trama, mas fiquei tão interessado em prosseguir na descoberta dos “mistérios” que, a princípio, senti certo desânimo em ter que começar a desvendar a vida de Joan desde a infância. Mas essa sensação não durou praticamente nada, pois a narrativa é tão interessante, flui de tal forma que embarquei completamente na origem de tudo.
Achei também que o desfecho merecia ser mais bem trabalhado, mais “detalhado” (uma das características marcantes ao longo de toda a trama). Se bem que tenho essa mania esquisita de esperar sempre por finais surpreendentes ou que não fiquem em aberto. Não, o final de Madame Oráculo é conclusivo, pelo menos até onde pode sê-lo, e ele não me desagrada de todo, mas reconheço que a expectativa que criei ao longo da leitura foi cumprida apenas em parte — o que não atrapalhou em nada o meu prazer.
A despeito desses 2 “senões” — que podem existir apenas para mim mesmo, e que não anulam os méritos do romance —, creio que quem tiver curiosidade sobre o livro não se arrependerá de conhecer um pouco da literatura de Margaret Atwood.