O garoto (que eu não conheço) me enviou o seguinte recado através daquele site de relacionamentos:

Eu tenho 14 anos e escrevi um livro. Queria saber se tem alguma chance de ser publicado, pois eu sou de menor.

A princípio, estranhei o fato de o rapaz ter me feito tal pergunta — logo a mim, tão fracassado no setor “publicação de livro pelas vias convencionais”! Não sei exatamente como ele me descobriu (em alguma comunidade, suponho) e por que achou que eu poderia informar o que ele desejava saber. Em todo caso, como o fracasso também pode nos dar alguma experiência em determinados assuntos, enviei a ele a seguinte resposta:

Talvez o problema não seja tanto o fato de você ser menor de idade. Se seu texto for realmente bom, isso pode ser até um trunfo. Mas apenas um agente literário poderia dar a resposta que você me pede, pois ele teria condições de fazer uma análise crítica de sua obra — só que é preciso pagar pelo serviço. Se fosse simples (e eficaz) fazer contato com uma editora, eu recomendaria que você o tentasse, mas, por experiência própria, sei que dedicar-se a tal empreitada poderá ser pura perda de tempo, pois a resposta, se vier, muito dificilmente será positiva — mesmo que você tenha alguém que o indique. Ainda assim, se achar que não pode contratar um agente ou que não tem nada a perder, procure uma editora que publique o tipo de livro que você escreve e envie seu original — como você é bem jovem, talvez não se importe muito com o quesito “tempo”. Boa sorte!

Terei jogado um balde de água gelada na fervura do garoto? Eu não duvidaria que muitos pensassem assim, mas prefiro acreditar que fui realista: se eu tivesse feito a mesma pergunta gostaria de receber a resposta mais sincera possível! Evidente que o que eu disse não é uma lei imutável, e é claro que eu poderia ter dito outras coisas ao rapaz, mas como se tratava de um “recado” imaginei que o comentário deveria ser sucinto.

Pensando melhor, eu poderia ter dado outras sugestões ao adolescente: que ele procurasse um leitor crítico, que fizesse uma oficina literária, que experimentasse publicar fragmentos de seu livro num blog…
O leitor crítico normalmente cobraria um preço mais em conta do que o agente, mas o trabalho dele se limitaria a dizer se o livro tinha condições de ser publicado ou não — entretanto, ainda que o parecer do leitor crítico fosse favorável, nada garantiria que o livro seria aceito por uma editora. Um agente, se visse potencial no livro, teria como oferecê-lo diretamente aos editores.
A oficina literária (dependo do estabelecimento e do professor) seguramente seria bastante proveitosa para alguém tão jovem — se foi para mim, que já era um “senhor”!… É claro que as boas oficinas não ensinam ninguém a escrever, mas quem já escreve pode melhorar imensamente a qualidade de seus escritos, pois nas aulas aprende-se na prática — submetendo textos a serem criticados pelos demais alunos e também criticando os textos deles — o que é lugar-comum, grandiloqüência, redundância… e mais uma infinidade de detalhes que um aspirante a escritor precisa evitar a fim de que o texto seja pelo menos razoável. Além disso, as oficinas podem funcionar para que o aluno se certifique de que realmente tem algum talento (um bom professor fará questão de deixar isso claro) ou de que não tem o menor jeito com a escrita — esses casos, geralmente, são bem mais numerosos nas oficinas (e um bom professor nem precisa deixar isso claro, o próprio aluno, se não for alienado, o perceberá).
A publicação de fragmentos — ou até do texto integral — na Internet é coisa que já vem sendo feita há algum tempo, e a quantidade de blogs desse tipo é uma realidade e, inclusive, “fonte de consulta” até para algumas editoras. Porém, o “teste” no qual se constitui este experimento pode não representar a verdade. Quero dizer que se o intuito da publicação for descobrir como o “público” reage ao texto, essa reação pode não significar grande coisa, já que a maioria dos leitores tende sempre a tecer comentários elogiosos, mesmo quando imerecidos — mas isso não deve ser encarado como uma regra absoluta (ou deve?).

O que me impressiona é essa NECESSIDADE imediata em querer ser publicado! Sinceramente, se eu tivesse 14 anos, e gostasse muito de escrever, estaria bem mais preocupado (e interessado!) em me aperfeiçoar, em estudar sobre o assunto, em procurar conhecer gente que escreve e que consegue publicar… e a encher gavetas e mais gavetas (ainda que virtuais) com meus escritos. Não sei que tipo de livro o rapaz escreveu, tampouco sei se tem alguma qualidade literária (aliás, apenas isso não é suficiente para a publicação: o livro também TEM de ser comercial), nem mesmo sei se o garoto já possui gavetas abarrotadas de texto, mas penso que, aos 14 anos, ele deveria se dedicar mais a escrever, escrever, escrever… do que (já) pensar em publicar.

As pessoas aqui no Brasil, muito comumente, acreditam que Escrever (com “E” maiúsculo) é coisa fácil. Só mesmo sendo muito leigo no assunto para imaginar tal inverdade. A simples alfabetização não confere o “dom” da escrita a ninguém. Mas, não sei por que, quase todo brasileiro acha que não só tem plenas condições de escrever um livro, como também de publicá-lo. O mais irônico é que o Brasil é um país de não-leitores!!! A quem se destinariam os livros de todos esses “autores natos” se publicados? Talvez até seja justamente por causa da não-leitura que a maioria pense que pode (e sabe!) Escrever, pois não lê coisa alguma e não tem parâmetros para discernir o que é literatura e o que não o é — mesmo que se trate apenas de “literatura de entretenimento”. Posso até parecer leviano e pretensioso no que vou dizer, mas acredito que se os brasileiros que se julgam “escritores natos” se preocupassem mais em ser, antes de tudo, LEITORES, não haveria tantos originais abarrotando — muito indevidamente! — as editoras nacionais.

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