memória


Nasci numa quarta-feira de cinzas — o que talvez seja emblemático.
As pessoas da minha família sempre gostaram muito do Carnaval: até pouco tempo, minha mãe jurava que eu havia nascido numa terça-feira gorda, em que ela pulou até a hora H. Mas deve ter se confundido, já que foi meu irmão (2 anos mais novo) que nasceu numa terça-feira de Carnaval — o que talvez seja emblemático também.
Olhando o álbum de fotos da família é fácil encontrar muitas imagens de bailes, minha mãe e minha avó fantasiadas… outros tempos, outro mundo. Não me recordo muito bem das minhas primeiras incursões na grande festa pagã (ainda se usa essa expressão?), no álbum de fotografias apenas uma imagem me serve de referência: eu e meu irmão, com (talvez) 5 e 3 anos respectivamente, empoleirados sobre cadeiras expressando total desânimo… Só mesmo olhando a foto e forçando o pensamento consigo lembrar daquele dia. Os dois fantasiados de índio. Não que tivéssemos escolhido a mesma fantasia, mas porque, apesar de não sermos gêmeos (aliás, eu e meu irmão não podíamos ser mais diferentes), minha mãe insistia em nos vestir de forma parecida — provavelmente para que um não se achasse melhor que o outro. “Boa intenção” que fazia com que perdêssemos completamente a individualidade. Eu, um indiozinho todo de azul; meu irmão, todo de amarelo. Mas, talvez insatisfeita com nossas fantasias monocromáticas, minha mãe resolveu trocar o meu saiote e tornozeleira com os do meu irmão, misturando tudo. Um desastre em termos de harmonia. Cocar, saiote, tornozeleira… como aquelas penas pinicavam! Pequenos ainda para brincarmos no meio do salão do clube, eu e meu irmão nos divertíamos recolhendo confetes e serpentinas do chão, enfiando todos num saco, para mais tarde jogar pela janela.

Depois desse ano (1969 talvez), preciso dar um salto no tempo a fim de lembrar da outra ocasião carnavalesca. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos e, provavelmente motivado pelos amiguinhos da rua (animados em brincar o Carnaval num clube próximo), eu e meu irmão resolvemos nos fantasiar de bate-bola (ou clóvis, como preferem os paulistas). Escondido atrás de uma máscara assustadora, desta vez nem me importei em fazer “par de jarros” com meu irmão. Sim, foi minha mãe quem comprou os tecidos que minha avó transformou em fantasias. Metade de corpo em cetim preto, a outra metade em vermelho, alternadamente. Apesar de não termos tirado fotografias, este dia está mais nítido na minha lembrança: cobertos da cabeça aos pés, segurando fedorentas bexigas, eu e meu irmão saímos à rua achando engraçado que ninguém nos reconhecesse. Mas no clube, tudo foi muito diferente (pelo menos para mim). Se a tarde já estava naturalmente quente, dentro do salão parecíamos no interior de uma fornalha, repleta de crianças desesperadas em se divertir. Eu, mesmo ainda imóvel, transpirava absurdamente. Assim que a música começou a tocar, a criançada se atirou no meio do salão formando uma roda que se movimentava freneticamente. Eu me lembro bem de ter visto aquela cena patética e não ter acreditado: “Mas o que significa isso?”, indaguei, perplexo, para minha mãe. “Ué, as crianças estão pulando Carnaval! Não foi pra isso que a gente veio aqui?”, disse ela a única resposta possível. Não sei ao certo o que eu esperava encontrar num baile de Carnaval, mas aquela correria em bando me parecia a coisa mais sem sentido e sem graça que eu já havia presenciado. “Vai lá, vai brincar também!”, incentivou minha mãe, vendo que meu irmão se divertia no meio da multidão infantil. Eu fui, nem sei por que, mas fui. Não dei mais que duas voltas. A fantasia comprida e quente grudava no corpo banhado de suor; a máscara plástica, com abertura apenas no lugar dos olhos, sufocava; as outras crianças empurravam, pisavam-me os pés… em suma, um verdadeiro inferno para o qual eu estava dignamente trajado. Tudo, menos diversão. Decidido a não compactuar com aquela pantomima ridícula, voltei para a mesa na qual estava minha mãe e armei uma tromba gigantesca, esperando ansiosamente a hora de voltarmos para casa. Diferente de mim, meu irmão se divertiu (ou seja lá que nome tenha) a tarde inteira. Depois disso, nunca mais eu quis saber do tal Carnaval.

Não posso dizer que minha completa aversão à folia se deva exatamente a um trauma de infância, mas reconheço que em criança não tive muito sucesso neste quesito. Eu até poderia ter tentado dissipar essa imagem algum tempo depois, mas nunca senti a necessidade que parece vitimar os foliões típicos — e depois, pra quê insistir naquilo? O Carnaval pode até ser a maior festa nacional, a festa do povo, mas para mim é cada vez mais sem graça e sem nexo, já que não vejo motivo algum para festejos, o que vejo quase sempre é alienação — mas as pessoas devem ter direito a isso (sei que sou exceção). Enfim, já terminou. E o ano de 2008 já pode finalmente começar aqui no Brasil.

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Como admirador da obra e também da vida de Simone de Beauvoir, eu não poderia deixar passar em branco a data em que, se fosse viva, ela completaria 100 anos. Entretanto, sem tempo para escrever algo apropriado para a ocasião, deixo a cargo da própria Simone o texto deste post:

Sartre disse-me um dia que tinha a impressão de não ter escrito os livros que desejava escrever aos 12 anos. “Mas afinal, por que privilegiar uma criança de 12 anos?”, acrescentou ele. Meu caso é diferente. Certamente, é muito difícil confrontar um projeto vago e infinito com uma obra realizada e limitada. Não sinto, porém, um hiato entre as intenções que me levaram a escrever livros e os livros que escrevi. Não fui uma virtuose do escrever. Não ressuscitei os reflexos das sensações, nem captei em palavras o mundo, como Virginia Wolf, Proust, Joyce. Mas não era esse meu objetivo. Queria fazer-me existir para os outros, comunicando-lhes da maneira mais direta o sabor da minha própria vida: mais ou menos consegui fazê-lo. Tenho grandes inimigos, mas também fiz muitos amigos entre meus leitores. Não desejaria nada mais do que isso.

Balanço Final (1972)

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O corpo de Beauvoir não existe mais. Contudo, seu pensamento, suas idéias e palavras, seus livros perduram até hoje, e ainda são capazes de influenciar e interessar muita gente — eu que o diga. Não deve existir mesmo nada mais desejável para um ser humano do que sobreviver a si próprio através de algo que o simbolize dignamente: sua obra.

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Meu pai morreu.
Quando soubemos disso, cerca de três anos haviam se passado. Não chorei, nem fiquei triste. Mas tive pena: o corpo foi encontrado junto ao meio-fio, parte na rua, parte na calçada. Como não sabiam de quem se tratava, e como ninguém apareceu procurando por ele, levaram o cadáver para o IML. Por um triz não foi enterrado como indigente. Um amigo lembrou à família de meu pai — a esta altura mais do que preocupada com seu desaparecimento — a procurar, além dos hospitais, nos lugares em que não ousavam arriscar. Assim, o morto teve um sepultamento simples, mas decente.

Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequeno. Lembro vagamente de uma briga feia: gritos, choro, minha mãe ferida, minha avó assustada. Na época, eu não entendia direito porque aquilo acontecia — e ninguém parecia disposto a falar no problema. Com o tempo descobri o óbvio: meu pai bebia, perdia o emprego, se descontrolava, batia na mulher dele.
Com o desquite, eu e meu irmão mais novo ficamos sob a guarda de nossa mãe — que trabalhava e tinha condições de nos criar. Depois disso, lembro de ter visto meu pai aparecer umas poucas vezes em nossa casa nova. Eu ainda gostava dele. Sem compreender direito o motivo da separação, da ausência repentina do meu pai, depois que ele entrava para nos visitar eu trancava a porta e escondia a chave: esperança infantil de que ele não fosse embora. Mas meu pai sempre conseguia escapar. Até que um dia nunca mais apareceu.

A gente se acostuma a tudo na vida. Comigo não foi diferente. Apesar de ser apontado na escola e na rua como “filho da desquitada” (coisa ainda suspeita no fim dos anos 60), eu não me sentia triste, apenas um pouco constrangido: não conseguia entender como podia ser “feio” aos olhos dos outros minha mãe ter escolhido o melhor para ela e seus filhos. Esse constrangimento fazia com que me sentisse inferior aos meus amiguinhos: todos pareciam ter “algo maravilhoso” que eu desconhecia. Esse “desfalque” ficava mais evidente quando, na escola, chegava a época de fazermos um presente para o dia dos pais. Eu era o único a fazer um presente para minha mãe — o segundo do ano. Isso me mortificava tanto quanto os olhares de piedade dos outros coleguinhas.

Cresci e procurei esquecer os incômodos. Mudar constantemente de casa ajudava a não precisarmos dar satisfações a quem não interessava.
Cerca de 10 anos depois de seu desaparecimento, meu pai ressurgiu, como um fantasma vivo vindo do fundo do passado. Desconfortável estar na presença daquele completo estranho que dizia ter um amor imenso por mim e meu irmão. Apesar de ele parecer sincero, eu não conseguia corresponder ao sentimento que um filho normalmente teria. Meu pai começou a fazer promessas, um monte delas — parecia querer compensar a mim e meu irmão de uma só vez por todo o tempo em que nos faltara. Eu não acreditava, e não queria nada do que ele prometia: apenas coisas materiais, como se o amor tivesse necessariamente que ser representado por algo palpável, visível, mensurável. Além das promessas, fazia cobranças; exigia de mim um comportamento incompatível com minha educação, com minhas vontades. Nem tive tempo de sentir o peso do incômodo: assim como surgiu, meu pai tornou a desaparecer. Não me surpreendi; no fundo, senti até certo alívio. Não me importaria nem um pouco se nunca mais o visse. Assim aconteceu. Quando soubemos de sua morte, tive apenas a confirmação de uma realidade há muito presente em mim.
No entanto, não deixou de ser um pouco chocante conhecer as circunstâncias dessa morte estúpida. Morreu sozinho (como todos morreremos), mas também abandonado, talvez por si mesmo. Bebeu até cair, morreu na sarjeta, como um Zé-ninguém — quantos clichês…

Soube que ele havia conseguido refazer sua vida: uma nova mulher, filhos, família. Mas, infelizmente, não se curou da doença. Uma vida desperdiçada, inútil, vazia… Às vezes penso até que ponto minha adolescência indiferente não teria contribuído para a derrocada final desse estranho do qual descendo. Teria eu podido ajudá-lo de algum modo? Teria conseguido “salvá-lo”, ainda que o desejasse? Não sei. Jamais saberei.
Uma lágrima para o homem que me ajudou a vir ao mundo — apenas isso. Uma lágrima, nada mais.

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Eu pretendia publicar meus contos e relatos antigos (postados originalmente no meu blog anterior) na seção PÁGINAS deste blog. Mas como tenho a (falsa?) sensação de que os visitantes só lêem mesmo os posts — e quero que leiam meus outros textos, ainda que antigos — resolvi publicá-los aqui mesmo. Além de estarem mais “visíveis” — mesmo que somente por determinado período —, estes textos servirão para ocupar o espaço quando eu não tiver tempo, paciência, ou não souber o que publicar aqui. Eu e minhas justificativas…

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Embora algumas vezes certos espelhos, determinados amigos e umas poucas fotografias pareçam me desmentir, considero-me — ao menos cronologicamente falando — maduro. Um “senhor de idade”, como eu costumo dizer (brincando?). Se a maturidade ainda me causa algum estranhamento, encaro com naturalidade o fato de, com o passar dos anos, ter me tornado mais seletivo e exigente. Afinal, se a contagem regressiva se torna cada vez mais evidente não faz sentido desperdiçar um tempo que sempre nos parece insuficiente.

Após duas décadas de dedicação quase exclusiva aos escritores franceses, só depois dos 40 anos comecei a me interessar verdadeiramente por autores de outras nacionalidades. Creio que esse desejo por “novidade” surgiu quando, a fim de tentar descobrir se meu livro prestava, fiz uma oficina literária com Sérgio Sant’Anna. Preciso confessar minha total ignorância, nesta época, sobre a obra do escritor que seria meu professor na oficina. Não demorei muito a descobrir que seu trabalho era bastante respeitado pela crítica e pelo público, o que o tornava alguém renomado no panorama da literatura nacional. Isso me incomodou, e de duas formas: eu não só desconhecia os livros de Sérgio Sant’Anna bem como de TODOS os meus compatriotas contemporâneos! Impossível não me sentir, por antecipação, defasado no meio da turma que iria freqüentar. Apressei-me em procurar algo do meu futuro professor antes do início das aulas. Como queria ganhar tempo, acabei comprando o livro mais fino que encontrei: Um Crime Delicado. Fiquei imediatamente fascinado com o texto, e também muito satisfeito em saber que seria aluno de um autor que me agradava muito — o que não deixou de ser uma sorte dupla.

Considero esta oficina importantíssima não só para o meu, digamos, “lado autor”, bem como para meu lado leitor. Não sei se devido ao trauma dos tempos da escola ou por preconceito (ou mesmo por ambos), o fato é que, a exceção dos livros que li obrigado quando aluno, eu não tinha costume de ler coisa alguma de Literatura Brasileira. O que não deixava de ser uma grande incoerência, ironia até. Não que fosse “condição essencial” conhecer obras de autores nacionais para poder escrever em língua portuguesa, mas não faria mal algum saber o que esses escritores haviam produzido. No fundo, talvez o trauma de infância tenha me marcado de algum modo, já que tendo minha curiosidade sobre autores brasileiros despertada, comecei a ler apenas os livros dos meus contemporâneos, gente que está viva hoje. Ainda não me dediquei com o devido afinco à descoberta dos escritores nacionais ou então estou sendo seletivo e exigente, como mencionei no início, e não vou abrir demasiadamente esse leque. Melhor dizendo: li os livros de vários brasileiros, inclusive da minha geração (e mais novos até), mas a maioria não me agradou. E depois, eu tenho a esquisita mania de querer ler tudo, ou quase tudo, dos escritores que me agradam. Deste modo, neste âmbito, por enquanto, somente dois nomes parecem dignos de registro na minha trajetória como leitor: Sérgio Sant’Anna, de quem admiro imensamente o trabalho (e o fato de conhecê-lo pessoalmente não deve ser levado em conta neste caso); e também Edgard Telles Ribeiro, que não é muito “badalado”, mas que possui uma literatura que sempre me causa espanto, no bom sentido, claro — seu livro, O Manuscrito ainda hoje me atordoa quando nele penso.

Paralelamente, procurei descobrir também o que estava sendo (ou tinha sido) escrito em outros países — o que se prolonga até hoje. Assim, travei contato com a literatura inglesa (E.M. Forster, Stephen Splender, Ian McEwan), literatura holandesa (Margriet de Moor), literatura argentina (Ernesto Sabato, Roberto Arlt, Julio Cortázar), literatura canadense (Michel Tremblay), literatura alemã (Thomas Mann, Patrick Süskind), literatura italiana (Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino), literatura americana (Henry Miller, Ernest Hemingway, David Leavitt, Truman Capote)… E, mais recentemente, com a literatura húngara (Sándor Márai), literatura afegã (Khaled Hosseini), literatura indiana (Thrity Umrigar) e literatura japonesa (Yukio Mishima).
É muito pouco, bem sei, mas espero ter tempo para aumentar minha lista, e descobrir algo da literatura africana (todo um continente!), turca, chinesa, portuguesa, russa… Em todo caso, como é impossível tudo ler, conhecer algum livro que nos chame a atenção e nos agrade talvez seja suficiente — mesmo quando o que foi lido não pode ser considerado como um “legítimo” representante da literatura deste ou daquele país. Isso, para mim, pouco importa. O que conta — e tem contado cada vez mais — é o impacto que a história me causa, a viagem que o texto me proporciona, as sensações que minha imaginação percebe, o desvendar de mundos e vidas que ignoro e nos quais penetro… em suma, o prazer que o livro me dá. Pois sem prazer algum (ainda que esta palavra tenha conotações muito pessoais), quando se é maduro, e, por conseguinte exigente e seletivo, não faz sentido desperdiçar o tempo que nos resta com o que não vale a pena.

Como eu disse aqui, não fui uma criança leitora, lia somente os livros que o colégio obrigava — aliás, fiquei até traumatizado por conta do sistema de (des)estímulo empregado nas escolas que freqüentei nos anos 70. Entretanto, minha infância quase sem livros e o trauma escolar não foram entraves para que, mais tarde, eu viesse a me interessar espontaneamente pela leitura. Tudo acabou sendo desencadeado quando eu já estava na universidade.

No início dos anos 80, na Escola de Belas Artes (UFRJ) a maioria dos livros que precisávamos usar nos trabalhos estava escrita em francês. Isso não chegava a ser uma “dificuldade” quando havia no grupo alguém que soubesse o idioma, mas nem sempre se podia contar com tal sorte. Provavelmente pensando nisso, a própria universidade oferecia um curso denominado “francês instrumental”: noções básicas que permitiriam aos alunos compreenderem os textos dos referidos livros de arte. Tendo que cursar matérias eletivas, acabei me decidindo pelo estudo da língua que supostamente me libertaria da necessidade de recorrer a outros alunos — e ainda poderia, quem sabe, me abrir novos horizontes. Não me arrependi. Na verdade, foi uma das melhores coisas que fiz na vida (se eu levar em conta tudo o que acabou decorrendo a partir dessa escolha).

Gostei tanto de aprender francês — para mim, infinitamente mais fácil do que o inglês — que depois dos dois períodos de seis meses na faculdade me matriculei num curso convencional, perto de casa. No ano seguinte, orientado e estimulado por meu professor, mudei para a Alliance Française — que ele assegurava ter mais recursos que o modesto curso que eu seguia. Meu professor não mentiu, e fiquei bastante satisfeito com a troca. Tudo isso para dizer que foi através das aulas na Alliance, e dos fragmentos de texto nelas apresentados, que comecei a me interessar novamente pela leitura. Minha identificação com certos textos e autores foi tão imediata que eu queria saber mais, não só sobre os escritos, mas também sobre as vidas deles.

Assim, já com mais de 20 anos, travei contato com Gide, Camus, Beauvoir, Sartre, Yourcenar, Duras, Sagan… Curioso em ler mais do que os trechos usados em sala de aula, comecei a procurar pelos livros desses autores — o que não foi difícil. André Gide foi o primeiro a quem me “dediquei”, já que, na época, seus livros (traduzidos) eram facilmente encontrados em qualquer livraria. Devorei, deliciado, praticamente toda a obra do autor, e posso dizer sem exagero algum que um mundo completamente novo se abriu diante de mim. É difícil explicar o prazer que descobri com uma leitura que parecia me dizer respeito, que parecia escrita para mim, e que tanto me agradava. Não sei dizer se pelos temas ou pela forma, mas o arrebatamento foi de tal ordem que me surpreendi por ter ficado tanto tempo longe dos livros. Quanto tempo perdido!, pensava estupefato. Mas eu estava disposto não a recuperá-lo (já que o tempo perdido é sempre irrecuperável), mas a aproveitar o que tinha pela frente com essa forma de prazer única. Aos poucos, fui destinando meu tempo livre a “descobrir” os outros autores que haviam me despertado interesse nas aulas de francês: por sorte, eles e seus livros eram tão numerosos que eu me sentia diante de uma fonte inesgotável de palavras e idéias. E matei minha sede. Li tudo o que encontrei com a avidez de quem tinha os dias contados e, pouco a pouco, meus horizontes foram se expandindo de uma forma surpreendente para mim. Talvez alguns imaginem que, por conta do estímulo do idioma, limitei-me apenas aos autores franceses. É verdade que eles tiveram a prerrogativa, pois quando me interesso por um autor quero ler tudo o que ele escreveu, e tudo sobre ele também — e isso pode levar algum tempo. O fato é que durante quase duas décadas fiquei tão satisfeito com a diversidade do que li que não senti vontade de buscar escritores de outras nacionalidades — isso só aconteceria mais tarde.

Agora, nesta tentativa de retrospectiva, pode parecer até meio ridícula a forma (deslumbrada) com que relato esses acontecimento, mas a sensação — ainda hoje! — é justamente essa: a leitura, apesar de “retomada” tardiamente, mudou a minha vida. E não apenas do ponto de vista cultural, mas também em relação à forma de pensar, e de agir. Há quem diga que os livros não têm o poder de mudar as pessoas. Eu discordo: tudo depende das obras lidas e dos leitores em questão. É verdade que cada um tem uma relação muito particular com livros e autores, e nem todos reagem do mesmo modo diante das mesmas obras — afinal, o gosto pessoal também conta. O que sei é que por causa da leitura (e da literatura) acabei conseguindo “me salvar” de mim mesmo — e num sentido bastante amplo, que eu só compreenderia realmente algum tempo depois.

De uma coisa tenho certeza: nunca é tarde para começar (ou recomeçar). Por conta das experiências na escola, eu tinha tudo para ser um adulto com total aversão a livros e leituras, mas quando se tem a oportunidade de encontrar autores adequados e textos sedutores — e quando se tem também um mínimo de interesse e disposição — tal quadro pode ser significativamente alterado, para melhor, para muito melhor.

Para quem ainda não sabe tenho um livro publicado. Não, não se trata do meu romance virtual, mas de um livro no formato convencional, impresso em papel. Fui um dos 40 selecionados no primeiro concurso Contos do Rio, em 2003, e isso fez com que meu conto fosse publicado pela Bom Texto Editora, em 2005. Assim, quem ainda não sabia disso, não deve também ter lido o post que escrevi (na época) sobre minha “noite de autógrafos” — e dos outros 39 selecionados também, claro. Então, mais uma reprise:

Contos do Rio

Fui pontual, como de costume. Tudo bastante organizado e muito parecido com o que eu tinha imaginado. Entretanto, naquele momento em que poucos haviam chegado, pensei que a noite seria longa e, de certo modo, um tanto “desconfortável” para quem, como eu, não é muito adepto de grandes aglomerações. Procurei o banner com o meu nome e sentei à mesa a mim destinada, que seria dividida com outro autor. A idéia original devia ser mesmo economia de espaço, mas não deixava de ser interessante a possibilidade de fazer com que os autores — quase que ainda totalmente estranhos uns aos outros — se conhecessem um pouco mais. Na minha mesa não deu certo, e eu nem tive chance de puxar conversa com meu parceiro, que preferiu ficar de pé, junto dos amigos e da família — o que não me pareceu nada censurável. Por outro lado, conversei um pouco com o autor da mesa vizinha: lembrava bem do conto nada ortodoxo dele, e o achei bastante simpático.
Não demorou muito para que alguns dos meus amigos me encontrassem no ambiente já bastante cheio e movimentado, e desfizessem por completo a imagem (de desconforto) que eu havia esboçado mentalmente na chegada. Outros amigos não demoraram a se juntar a nós. Foi uma noite bastante divertida e agradável.

Contudo, não deixei de sentir certo estranhamento ao dar autógrafos. É que imaginei que o faria apenas para amigos e conhecidos, mas não: gente que eu nunca havia visto aparecia com o livro querendo algumas palavras escritas por mim, minha “assinatura”. Mais surpreendente ainda os que chegavam com o livro aberto na página do conto, dizendo que tinham gostado muito do meu texto, me desejando sucesso nos próximos livros. Na verdade, não foram muitos, mas para mim foi curioso saber que pessoas que eu não conhecia também apreciam meus escritos. É provável que existam outros, e esse número poderá aumentar agora com o livro, que não ficará restrito ao Rio de Janeiro. Aliás, o que me parece interessante é justamente mostrar ao restante do país o que acontece aqui nesta cidade em termos de escrita e de histórias. Isso não significa que os relatos tenham de ser necessariamente verídicos para ter valor, mas há sempre muita verdade (ou realidade) nas entrelinhas ficcionais.

No livro, com um projeto gráfico muito bom e uma bela capa, meu texto ocupou 3 páginas — o penúltimo conto, devido à ordem alfabética dos autores. Olho o título que escolhi para o conto que enviei ao concurso quase no último dia, meu nome abaixo dele… uma sensação esquisita me domina: nada mudou para mim em essência, continuo sendo eu mesmo, mas minhas palavras agora estão registradas, impressas num objeto que existe fisicamente, que poderá ser lido por outras pessoas, que poderá, talvez, durar bem mais que eu. Isso faz com que meu “eu” ganhe uma nova dimensão para mim mesmo: não deixa de ser uma forma de perpetuação, um modo de — ainda que mui modestamente — fazer parte da eternidade. Sensação bastante esquisita, mas que me deixa muito contente. 

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Para quem ainda não leu o conto, segue o link: CONDENADOS.

infância & leitura

Diferente do que possam pensar alguns, não fui uma criança que leu muito. Na verdade, quando pequeno li muitíssimo pouco, praticamente nada. Não era por falta de livros. Eles sempre existiram em quantidade considerável nas casas da minha infância, mas eu gostava bem mais de aproveitar meu tempo brincando ou desenhando — e desenhar era quase uma obsessão, já que era raro o dia em que eu não me divertia com lápis de cor e papéis.
Para “dificultar” ainda mais meu interesse pela leitura, quando criança, existiam uns disquinhos (vinil, compacto) que acompanhavam livretos de histórias que minha mãe comprava para meu irmão e eu. Assim, com nossa vitrolinha, ouvíamos as histórias e olhávamos as figuras coloridas: para quê ler com tanta praticidade?, acho que eu pensava. Em nossa estante, entre livros de “literatura”, havia também várias coleções (tipo enciclopédia), fartamente ilustradas e que me seduziam bem mais pelas imagens que pelos escritos.

Quando crescemos um pouco mais, minha mãe teve a idéia de formar uma nova coleção: Clássicos da Literatura Juvenil. Lembro de ter ficado fascinado com a idéia e a sucessão dos livros, que surgiam a cada semana. Mas o que me atraía eram as capas (cada uma de uma cor) e as ilustrações nelas usadas. E eu arrumava os livros semanalmente, às vezes por ordem numérica; em outras, por ordem cromática. Ler mesmo, só os títulos. Não sei explicar exatamente meu desinteresse pelos textos destes livros, já que as imagens me se seduziam tanto. O que sei é que nunca tive a menor vontade, ou curiosidade, de ler as páginas dos mais de 30 volumes que formavam minha coleção de clássicos. Pensando bem, acho que eu considerava “chato” ler: uma atividade tão passiva, tão inerte. Não, não fui uma criança hiperativa, longe disso, mas me lembro de gostar de algo um pouco mais “dinâmico e criativo” como desenhar, por exemplo.

Na escola (pública), não saberia precisar com exatidão quando se iniciaram as leituras obrigatórias dos livros de “literatura”. Lembro vagamente de um bem fino, O Gigante de Botas, que continha grandes ilustrações e contava a história dos bandeirantes — o primeiro que li? Lembro também de Quatro num Fusca e de Memórias de um Cabo de Vassoura, mas não me recordo nada destas histórias. Pelo visto, esse “debut” forçado no mundo da literatura não me causou nenhum estranhamento, nenhum estímulo também.

Um pouco mais tarde — e eu me lembro muito bem dessa fase pré-adolescente —, fui obrigado a ler na escola (pública, ainda) um livro que me causaria verdadeira aversão às leituras e a tudo o que estivesse relacionado a elas — principalmente pelo “eco acidental”: uma dose maciça que eu não desejaria a nenhuma criança. Refiro-me a Ubirajara, um romance indianista de José de Alencar. Um livro inacreditavelmente chato, confuso, escrito num estilo “empolado”, com um mundo de nomes indígenas difíceis de memorizar e guerras e lutas e batalhas… uma história que parecia não ter fim. Pela primeira vez senti verdadeiro horror por um livro, uma história, um autor. Às vezes penso que os professores das escolas públicas dos anos 70 eram um tanto sádicos. Numa época em que os alunos deveriam ser estimulados a ler, forçá-los a interpretar tal obra — sim, pois havia uma prova sobre o texto — era, na minha opinião (e no meu caso particular), o caminho mais curto para apavorar e desesperar qualquer criança com um mínimo de bom senso. Nada contra os clássicos, mas tudo contra eles quando se trata de impô-los a jovens despreparados ou sem interesse para tanto. Sim, eu poderia dizer que este livro me traumatizou, e muito.

Para piorar meu “drama”, no ano seguinte, novo professor de língua portuguesa, e novo livro a ser obrigatoriamente lido: Iracema, outro romance indianista de José de Alencar!!! Não sei como suportei. Eu me lembro de ter chorado quando, ao começar a ler a volumosa edição, me dei conta de ser um “repeteco” do romance anterior, só que desta vez com uma quantidade de páginas bem maior. Quem não leu estes livros dificilmente poderá imaginar o impacto que essa dose cavalar de José de Alencar pode ter numa criança. Não resisto a publicar um pequeno trecho do livro a fim de “ilustrá-lo”:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Que criança sairia indene depois da leitura de semelhante texto? Enfim, consegui sobreviver e até — espantosamente! — tirar boas notas nas tais provas sobre os livros, mas jamais esqueci o horror que me eles causaram, sem contar meu profundo desprezo e total antipatia por seu autor.

Diante das “leituras escolares forçadas”, eu estremecia quando chegava a época dos professores determinarem o terror da vez a ser lido. Mas escolas diferentes possuem regras distintas. Por sorte, por causa de nossas constantes mudanças de endereço (e de bairro — sim morávamos em imóveis alugados), eu também mudava frequentemente de colégio. Após o “trauma indianista” achei a maior novidade, em outra escola (agora particular), o professor oferecer dois títulos para que nós, alunos, escolhêssemos o que mais nos agradasse. Deste modo, entre Senhora, de José de Alencar(!!!!!) e A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães não hesitei um segundo sequer. Para estimular meu interesse pela obra de Bernardo Guimarães, na época estava no ar a novela homônima (em sua primeira versão televisiva). E foi com duplo prazer que li o romance sobre a escrava branca: não só por poder escolher (e me livrar do Alencar!), bem como pelo caráter, digamos, “interativo” que as imagens da novela (que eu assistia) proporcionavam junto ao texto do livro. De certo modo, foi um pouco decepcionante descobrir que a adaptação do texto para a TV alterava alguns detalhes da obra original, mas gostei de ter lido o romance e de ter sabido do final da trama antes de a novela terminar.

A possibilidade de escolha, ainda que limitada, mudou ligeiramente minha forma de encarar as leituras obrigatórias. Mesmo que a responsabilidade de optar por um “livro ruim” tivesse sido desviada para os alunos, o simples fato de poder escolher me parecia uma evolução. Assim, menos traumatizado, li vários outros clássicos da Literatura Brasileira, dentre os quais me recordo vivamente de O Cortiço, de Aluízio Azevedo e de Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Porém, mesmo tendo, de certa forma, superado meu trauma, eu só lia os livros que a escola “obrigava”. Meu interesse espontâneo pela Literatura surgiria bem mais tarde (eu já estava com mais de 20 anos!), mas essa é, talvez, uma história para outro post, este já ficou demasiado longo.

Não sei como andam as escolas hoje em dia e a relação que estas instituições procuram estabelecer entre jovens e livros. Uma coisa me parece certa: a obrigatoriedade por títulos específicos (sobretudo dos clássicos nacionais, sempre) não me parece uma boa estratégia — aliás, no meu entender, ela não poderia ser pior. Sei que as escolas públicas mudaram muito (em vários sentidos) nas últimas décadas. Sei inclusive que a maioria piorou brutalmente em termos de qualidade de ensino. Mas espero que, de algum modo, as crianças e adolescentes de hoje tenham à disposição métodos de estímulo à leitura bem mais eficazes do que os por mim experimentados.

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