umbiguismo


Às vezes eu gostaria de não ser tão observador.
Às vezes eu gostaria de não ter uma memória tão seletiva.
Às vezes eu gostaria de ser mais paciente (comigo e com os outros).
Às vezes eu gostaria de não ser tão exigente (com os outros e comigo).
Às vezes eu gostaria de não pensar tanto.

[Aqui entrava todo um discurso explicativo/justificativo, que censurei, pois parecia mais destinado a mim mesmo do que a qualquer outro.]

Talvez, se esses desejos não me assaltassem apenas às vezes eles já não me incomodariam: se fossem um peso esmagador eu já teria dado um jeito de me livrar da carga, ou teria sucumbido a ela.

cartas na mesa

Pode ser até que eu esteja enganado, ou melhor, iludido, mas creio que o ano de 2007, pelo menos em determinado aspecto, será bastante promissor para mim. Ainda que eu esteja me antecipando (ou sendo muito otimista) em pensar de tal modo, o resto do ano que se extinguiu me forneceu alguns indícios de que devo acreditar no que estou intuindo — até porque eu quero isso.

O curioso é que tudo se desenrola num campo que eu já considerava estéril — não canso de me equivocar sobre certas coisas, felizmente! É verdade que o início desses “acontecimentos” não foi provocado por mim, mas, uma vez desperto achei interessante permanecer de olhos abertos. Bem abertos. Mesmo que  esta partida tenha sido adiada, ou jamais ocorra (como tudo indica), já que eu estava na mesa de jogo, por que não esperar — ou provocar! — uma nova rodada? O que eu teria a perder?

Espantosa a quantidade de cartas do baralho que acabou caindo na minha frente! Tantas que fiquei sem saber exatamente quais reunir na minha mão. Selecionei as que me pareceram mais valiosas, mas isso dependerá das minhas jogadas, evidentemente. Não sei ainda se ganharei a partida, mas já me dou por satisfeito em poder estar jogando: não é isso o que dizem sobre as competições? Confesso que estou surpreso por ainda me surpreender comigo mesmo: uma espécie de “novidade” que faz com que eu goste de ser exatamente quem sou, sem tirar nem pôr.

Não tenho como saber se as promessas que 2007 indicam em parte do meu horizonte vão se cumprir, mas pela primeira vez na vida tenho uma sensação extremamente positiva numa época em que tudo quase sempre me soa desagradável. Penso que esta pode ser uma ótima forma de iniciar o ano. Eu não poderia desejar mesmo nada mais estimulante.

carta

Recentemente, arrumando gavetas — procedimento que sempre acabo adotando no fim do ano — encontrei uma mini-análise grafológica que, se não me engano, fiz no começo dos anos 80, num shopping do Rio. Bastava escrever uma das frases indicadas (sim, pois era necessário que determinadas letras fossem obrigatoriamente escritas) para que uma espécie de computador apontasse alguns traços significativos da personalidade do interessado. O resultado da minha curiosidade foi o seguinte:

  • a insociabilidade pode ser o seu ponto mais fraco

  • você se caracteriza por auto domínio e disciplina, apesar de seu entusiasmo

  • você tem espírito ativo, independente e muito sensível

  • você é uma pessoa sonhadora e imaginativa, porém extremamente equilibrada

  • sua capacidade de articulação é notável

  • você é uma pessoa madura, mas demasiado voltada para si mesma

Lembro que na época (eu devia ter uns 20 anos) achei interessante o perfil que minha letra revelava, ainda que não concordasse inteiramente com ele. Hoje, para minha surpresa, ainda que minha letra não seja mais a mesma, e que eu nem acredite tanto na grafologia (ou pelo menos nessa versão tão resumida), o resultado me parece bem mais fiel ao que acabei me tornando. Excetuando-se a “notável capacidade de articulação”, que não tenho mesmo, o restante é o meu retrato: sem tirar nem pôr. Análise futurológica? Talvez. 

Eu já tive uma letra que considerava (e consideravam) muito bonita — provavelmente por causa da minha habilidade com desenho. Entretanto, com o passar do tempo, e com a cada vez mais rara possibilidade de escrever a mão — ah, computadores! —, minha caligrafia se degenerou em algo que hoje me espanta, me aborrece. E se eu fizesse o mesmo teste nos dias atuais?, o que será que minhas garatujas revelariam? Provavelmente algo diferente do perfil de 20 anos atrás… ou não?

A verdade é que, atualmente, não tenho mais tanta necessidade de saber quem sou: talvez eu já o saiba, ou talvez isso não importe tanto. O que me parece certo — e lamentável! — é que acabei perdendo uma “habilidade” que, independente de análises, me caracterizava de forma personalíssima, exclusiva, singular. Que saudades da minha letra de outrora!…