Com a recente publicação do meu livro-virtual um familiar e um amigo próximo, depois de lerem determinados capítulos, começaram a fazer uma espécie de confusão para a qual eu já estava preparado. Supostamente, conhecendo a mim melhor que outros, eles me perguntaram, em tom desconfiado, se meu texto era mesmo ficção. Respondi que sim, mas sem ter certeza de havê-los convencido disso. É verdade que me inspirei em ALGUMAS experiências que vivi, em ALGUMAS cenas que presenciei e em ALGUNS fatos que conheci por meio de terceiros, entre outras coisas, mas isso não faz do meu romance algo de cunho “documental”. Há muita coisa imaginada, exacerbada e suavizada também — é como está na citação que abre o primeiro capítulo: “No papel, a gente vai até o fim daquilo que sente […] e é por isso que o que se escreve é falso.” Entretanto, admito: minha intenção foi escrever algo bastante convincente — o que, pelo visto, pelo menos para estas duas pessoas, creio ter conseguido. Ainda assim, para que não restem dúvidas, acho conveniente dizer que meu romance não se trata de uma autobiografia, e nem de uma biografia não-autorizada (já que são dois os protagonistas).
Em literatura, acredito que pouco importa em que medida e de que maneira a ficção se inspira no dado real: ela só se edifica pulverizando-o, a fim de fazê-lo renascer para uma outra existência.

A propósito, segundo o “tema” acima, cheguei até a compor um quase-poema, quando terminei de escrever meu livro, em 2001: 

ESCRITA

Conto a verdade escrevendo mentiras.
Minto sobre a verdade escrita.
Lembranças e idéias,
Vontades e pensamentos…
Criação.
Atenuo e diminuo,
Exagero e aumento,
Distorço e deturpo…
Invento.
No fim, tudo não passa de ilusão…
Ficção.