agosto 2007


As Brasas

Eu já havia lido outro livro de Sándor Márai, Divórcio em Buda, que admito não ter gostado muito: o texto criou em mim uma expectativa que não se cumpriu — o que me deixou com aquela estranha sensação de que faltou algo, de que alguma coisa se perdeu ao longo da narrativa.

Por conta disso, não me senti muito animado diante de As Brasas, do mesmo autor, que recebi de presente de uma amiga — ainda mais quando soube que o tema era, de certo modo, semelhante ao de Divórcio em Buda. Mas esse preconceito caiu por terra desde que li as primeiras páginas. Aliás, da metade do livro até o fim não consegui parar de ler, tão fascinado fiquei com a história, com a narrativa. O texto é de uma elegância e fluidez digna de estudo (pelo menos na minha opinião). O protagonista, um velho general do Império Austro-Húngaro, é tão bem construído que minha afeição por ele foi imediata. E não só a construção do personagem principal, mas também dos ambientes e de toda uma época — ainda que servindo apenas como pano de fundo — são de tal qualidade que, para mim, foi impossível não me sentir fazendo parte de tudo. Curiosamente, não há excesso algum de detalhes neste aspecto, apenas o essencial para que o leitor se situe no tempo e no espaço.

Em seu castelo na Hungria, o general Henrik, de 75 anos, recebe a notícia de que um antigo e inseparável amigo de infância e juventude, Konrad, está na cidade e deseja visitá-lo. Eles já não se vêem há 41 anos — 41 anos e 43 dias, para ser mais exato. O general contou cada um desses dias desde a abrupta e incompreensível separação. Na verdade, Henrik acredita mesmo que só continuou vivo por que sabia que esse “confronto” ainda aconteceria.
Na véspera do dia em que o general e Konrad se viram pela última vez, um episódio tão inesperado quanto surpreendente envolve os dois amigos durante uma caçada — pelo menos essa é a forte impressão de Henrik: teria mesmo seu amigo pensado num ato tão irreparável? E por que não o consumou? Tudo alucinação? Não, o general sabe que algo muito grave aconteceu — ainda que não consiga precisar o quê. Algo que muda profunda e definitivamente a vida dos dois amigos.
Durante o tempo em que estiveram afastados, Henrik não conseguiu deixar de ruminar em nenhum momento o enigma daquele dia fatídico e tudo o que decorreu a partir dele. Tão sozinho quanto incansável, o general busca respostas, quer descobrir o que realmente aconteceu, e o porquê do ocorrido. Em vão, pois acredita precisar de um interlocutor que lhe diga a verdade, uma única pessoa: Konrad. E eis que agora, no fim da vida, chega o momento do confronto há tanto esperado e que vai desengrenar de uma vez por todas a existência estacionada de ambos. Para tanto, o general pede que preparem um jantar de gala para seu único convidado, e — talvez para prosseguir do ponto em que haviam deixado suas vidas em suspenso — procura reconstituir com rigorosas minúcias todo o ambiente em que se encontraram pela última vez, no mesmo castelo, no mesmo salão, na mesma mesa de jantar. Apenas um detalhe desfalcará da perfeita reconstituição: Krisztina, a falecida esposa do general.

Não vou me alongar para não revelar demais a quem talvez tenha interesse no livro. Mas o “ajuste de contas” entre Henrik e Konrad é um dos textos mais belos que já tive oportunidade — e prazer! — de ler. A forma coerente com que o general disseca a amizade é impressionante — e, ironicamente, quanto mais ele procura esmiuçar esse sentimento, menos temos certeza do que ele pode significar. Em sua obsessão por respostas, Henrik atravessa a madrugada inquirindo quase impiedosamente seu convidado, tão insistentemente que mal dá chance a Konrad de dizer o que gostaria de ouvir — se é que pretendia mesmo ouvir o que já não soubesse…

Apesar de a história se passar no início do século XX, e de o romance ter sido publicado em 1942, o livro continua atualíssimo, pois aborda como temas a amizade, o amor e a honra — sentimentos que, sabemos bem, não se deixam aprisionar pelos caprichos do Tempo.

Minha relação com os livros já foi bem mais intensa, admito. Leio bem menos livros hoje do que antes — ou pelo menos é esta a impressão que tenho.

Jamais sonhei com uma biblioteca repleta, estantes e mais estantes revestindo paredes sem conta — nem se eu tivesse uma casa grande o bastante desejaria tal coisa. Isso não significa que eu não tenha apego/apreço aos livros, pelo contrário. Na verdade, minha “biblioteca” se restringe a uma modesta estante baixa com 3 prateleiras apenas. Todos os meus livros queridos (até agora) cabem neste espaço — sejam perfilados na vertical ou acomodados na horizontal. É fato, não são muitos: basicamente romances, sobretudo estrangeiros (na maioria franceses). Há também alguns dicionários, e muitos guias de viagem, relíquias de um tempo em que eu ainda podia me dar ao luxo de fazer uso deles.

É claro que, sempre que possível, compro livros (ou recebo alguns de presente), mas nem todos permanecem por muito tempo na minha estante, a não ser que eu goste muito deles — o que tem acontecido raramente. Assim sendo, alguns exemplares vão ficando empilhados nas bordas livres das prateleiras até a época do ano em que costumo fazer doações para bibliotecas públicas. E minha estante volta à sua configuração original, ou quase. Mas também tenho uma mania curiosa: livros que li emprestado e que gostei, se eu encontrar um exemplar num sebo, não hesito: compro-o — pelo simples prazer de possuí-lo, e também “completar” minha coleção. Neste caso, não me importa tanto o estado do livro. Evidente que quanto mais novo melhor, mas se ele estiver desgastado não faz mal: eu também gosto de “restauração”. E limpo folha por folha, lustro a capa, conserto a lombada, encapo com papel marmorizado… Ou seja, os livros não são, para mim, apenas um punhado de textos ordenados em páginas presas em capas com a mera finalidade de leitura, eles são também “objetos estéticos”.

Livros antigos me seduzem de uma forma que não sei explicar muito bem. Parece-me que eles não contam apenas uma história, mas possuem, eles mesmos, sua própria história. Já comprei em sebos livros marcados do começo ao fim, sublinhados, com anotações… isso não me incomoda muito: às vezes acho até interessante ver o que o leitor anterior assinalou. Eu também faço isso nos meus: marco, sempre a lápis, as passagens que me tocaram de algum modo. Não considero isso uma espécie de mácula, mas uma forma de personalizar um objeto que me pertence e com o qual me relacionei intimamente. Vez por outra, gosto de folhear livros que já li há algum tempo e encontrar os trechos que marquei outrora: é interessante observar como a gente muda (ou não) com o passar dos anos.

Pode até parecer paradoxal, mas não sou fã de bibliotecas. Sem dúvida, elas têm um papel importantíssimo para os que não podem comprar livros (e fundamental para pesquisadores), mas não me sinto à vontade para me relacionar diretamente com um livro que não me pertence. Os que leio emprestado são tratados com um cuidado mil vezes superior ao que tenho com os meus, e quase sempre são lidos às pressas para que sejam logo devolvidos. Eu sei, sou meio paranóico neste quesito, mas prefiro que seja assim. Quanto a mim, só empresto alguns dos meus livros a pessoas altamente confiáveis, e sempre sei quem está com os que foram emprestados.

Eu gostaria de poder ler mais. No fundo, eu poderia me organizar para tanto, mas não tenho encontrado muitos livros dignos de leitura. Não que muitos deles não sejam bons (alguns não são mesmo), mas acredito que seja necessária certa empatia com o texto para atravessar a espessura das páginas com satisfação. Posso também estar numa fase de pouca sorte em achar boa literatura (para os meus critérios) ou talvez tenha me tornado demasiado exigente com o passar do tempo… O que sei é que, para mim, hoje em dia, a leitura precisa ser obrigatoriamente prazerosa de algum modo — no caso de literatura. Do contrário, prefiro dedicar meu tempo a outros prazeres.

no fim de cada dia

Faz alguns meses que consigo identificá-la apenas pela sombra. Mesmo agora, quando o sol do inverno a alonga ainda mais no fim de tarde. Preso aqui em cima, usando a sacada como mirante, tendo todo o tempo do mundo não foi muito complicado me especializar em tal técnica. Começou por brincadeira, e também com a pontualidade de Adélia. Da sacada, no fim de cada dia, ficava observando sua sombra entrar na rua, voltando do trabalho, caminhando devagar, a bolsa pendente. Depois, na esquina, ela surgia me acenando, sempre sorrindo daquele jeito triste. Culpa minha.

Nunca lhe disse que a reconhecia mesmo antes que dobrasse a esquina. Se ela soubesse disso talvez tivesse tido mais cuidado. Hoje vai ser o dia em que Adélia conhecerá minha morte. Morrerei com o veneno que ela mesma comprou, a meu pedido. Falei que havia visto um rato na cozinha, ela acreditou em mim. E não havia motivo para duvidar. Mas o rato não mora na cozinha, habita dentro de mim: posso vê-lo perfeitamente no espelho do nosso quarto, sentado numa cadeira de rodas. Hoje o rato inválido vai morrer, e nos livrar do sofrimento.

Se não fosse minha brincadeira de adivinhar sombras… talvez eu não tivesse coragem. Faz duas semanas que descobri tudo, ou quase. Adélia, sempre tão pontual, começou a se atrasar, a dar desculpas, a mentir. A princípio estranhei, depois, a certeza. A sombra de Adélia passou a entrar na rua acompanhada por outra sombra, mais larga, mais alta, mais forte. Às vezes lado a lado, ou então de mãos dadas, ou ainda juntos, o braço da sombra dele sobre os ombros da sombra dela. Paravam, conversavam um pouco. As sombras se abraçavam, se beijavam. Depois se separavam. A sombra de Adélia prosseguia, arrastando-se pesadamente como se subisse uma ladeira íngreme. Dobrava a esquina sozinha, me acenando e sorrindo mais tristemente que antes.

Ontem foi diferente: a sombra dela chorou, a dele tentou consolá-la. Ficaram abraçados por um longo tempo. O sol se pôs, e só consegui ver sua sombra sob a luz do poste, pisoteada na vertical, quando já não era mais necessário. Eu havia fraquejado, desistido até, mas não posso continuar lhe impondo o fardo no qual me transformei, sombra do que já fui. Ela não merece isso, eu não mereço isso. Amo-a tanto e sou tão grato por tudo o que fez por mim desde o acidente que exijo em troca sua felicidade. Adélia não precisa de mim, precisa de um homem, um homem que a deseje e que ela possa desejar, de verdade. Agora não passo de um roedor que inspira cuidados quase humilhantes para continuar vivo, mediocremente. A piedade de Adélia me constrange. Minha condição me aniquila. Inútil dizer-lhe que me deixe: não tenho ninguém além dela. A única solução para o meu caso está na caixinha em minhas mãos.

Sinto-me responsável por um bom desfecho. Ela já encontrou um novo par. Preciso fazer minha parte. Tenho que matar o horror que vive em mim. Hoje, quando Adélia dobrar a esquina não estarei na sacada. Talvez ela se assuste e corra, achando que algo me aconteceu; talvez continue andando como sempre, adivinhando o que fiz… não tenho como saber. O que sei é que hoje Adélia estará definitivamente liberta. Eu também.

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Conto escrito (e publicado) originalmente em junho de 2005, composto tendo como inspiração a imagem que o ilustra.

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Sempre achei estranho o fato de a maioria das mulheres esconder a idade. Mais estranho ainda as que mentem sobre isso. E não menos estranha a regra de etiqueta que considera deselegante, proibitivo até, indagar a idade de uma mulher — claro que perguntar tal coisa sem nenhum motivo não faz sentido, mas se há uma razão em sabê-lo deve ser porque a resposta é relevante. Fiquei pensando quando teria surgido essa “necessidade” de ocultar o tempo de vida, e também a finalidade disso. Idéia de um homem ou de uma mulher? Um hábito antigo que perdura até hoje?

Tenho impressão de que a estratégia da mulher em não revelar a idade deve estar associada ao receio de parecer velha. Vergonha por não ser (mais) jovem? Desprezo pela velhice? De fato, a sociedade ocidental parece valorizar cada vez mais a juventude, como se apenas ela importasse — o que me parece um equívoco —, e é verdade também que o preconceito contra os velhos existe. Vergonha e desprezo justificados? Evidente que os jovens contam, e muito, nos tempos atuais, mas os maduros, idosos e crianças também contam! Acredito no ser humano como uma espécie de plural — plural que se desdobra também cronologicamente. Por isso, não vejo demérito algum em não ser (mais) jovem; ao contrário: a maturidade, quase sempre, faz com que quem a experimente se sinta mais seguro de si, mais ciente de quem realmente é. Tudo bem, este é o ponto de vista de um homem maduro — eu —, mas por que para as mulheres (ou para a maioria delas) parece tão difícil se convencer disso? Ou estão convencidas mas se “submetem”, sem pensar muito, a uma regra(?) esquisita sob pena de não parecerem “normais”?

Nada contra as mulheres que escondam ou mintam a idade, que fique claro — afinal, acredito que as pessoas devem ter liberdade para fazer aquilo que querem (por mais estranho que pareça). Mas tenho uma admiração especial pelas mulheres que não se deixam encerrar nessas normas criadas sabe-se lá por quem e com que propósito.

Posso até estar enganado na minha ignorância sobre o tema — por isso, e por conta do meu “público” essencialmente feminino, o abordo aqui —, mas fico sempre com a sensação de que negar a idade é negar a si mesmo; mentir sobre ela é mentir para si próprio. E quem se beneficia com essa negação, com essa mentira? A própria mulher? Os homens? As outras mulheres? Não tenho a mais pálida idéia. O que me parece certo é que nem sempre essa tática surte o efeito desejado, já que ao ocultar a idade a mulher pode parecer mais velha do que realmente é aos olhos dos outros — já vi isso acontecer várias vezes.

O conceito de velhice, ao que me consta, vem se transformando ao longo dos anos. Atualmente, uma mulher de 40 anos não pode mais ser considerada necessariamente uma velha — o que era muito comum nos anos 50 ou 60 do século passado. Não apenas o arsenal cosmético evoluiu muito nos últimos tempos, bem como a própria idéia de idade se modificou. Não sei se essas mudanças visam deliberadamente aproximar a maturidade da juventude, o fato é que não é muito complicado hoje, para uma pessoa madura, sobretudo uma mulher, aparentar jovialidade, muito naturalmente — mesmo sem lançar mão do botox e de outros artificialismos pesados (ainda que, quando bem utilizados, eles tenham valor). Para quem já não é mais tão jovem não há mal algum em se cuidar, em desejar uma aparência agradável, desde que a mente funcione como a de alguém maduro (compatível com a idade cronológica), pois não há nada mais ridículo do que pessoas — mulheres e homens — que se comportam como jovens acreditando assim transformarem-se num deles. Isso nunca dá muito certo, e a caricatura grotesca na qual tal incauto se converte sempre é motivo de riso, pena ou constrangimento — também já vi isso acontecer diversas vezes.

Sábado passado, lendo um artigo no jornal sobre uma escritora estreante fiquei intrigado com este trecho: “A mais nova autora tem em torno de 30 anos (ela não diz a idade, não quer parecer nova hoje, nem velha daqui a alguns anos)…” O que será que a moça quer parecer afinal? Com alguém sem idade, suponho — alguém que não existe! Curiosamente, a jovem escritora parece desprezar a juventude tanto quanto a velhice. Quanta estranheza!…

Não compreendo ainda o que leva as mulheres (ou a maioria delas) a considerarem a idade como uma espécie de tabu, mas penso que este post, e os comentários sobre ele, talvez me ajudem a entender um pouco melhor a questão.