dezembro 2006


Com a recente publicação do meu livro-virtual um familiar e um amigo próximo, depois de lerem determinados capítulos, começaram a fazer uma espécie de confusão para a qual eu já estava preparado. Supostamente, conhecendo a mim melhor que outros, eles me perguntaram, em tom desconfiado, se meu texto era mesmo ficção. Respondi que sim, mas sem ter certeza de havê-los convencido disso. É verdade que me inspirei em ALGUMAS experiências que vivi, em ALGUMAS cenas que presenciei e em ALGUNS fatos que conheci por meio de terceiros, entre outras coisas, mas isso não faz do meu romance algo de cunho “documental”. Há muita coisa imaginada, exacerbada e suavizada também — é como está na citação que abre o primeiro capítulo: “No papel, a gente vai até o fim daquilo que sente […] e é por isso que o que se escreve é falso.” Entretanto, admito: minha intenção foi escrever algo bastante convincente — o que, pelo visto, pelo menos para estas duas pessoas, creio ter conseguido. Ainda assim, para que não restem dúvidas, acho conveniente dizer que meu romance não se trata de uma autobiografia, e nem de uma biografia não-autorizada (já que são dois os protagonistas).
Em literatura, acredito que pouco importa em que medida e de que maneira a ficção se inspira no dado real: ela só se edifica pulverizando-o, a fim de fazê-lo renascer para uma outra existência.

A propósito, segundo o “tema” acima, cheguei até a compor um quase-poema, quando terminei de escrever meu livro, em 2001: 

ESCRITA

Conto a verdade escrevendo mentiras.
Minto sobre a verdade escrita.
Lembranças e idéias,
Vontades e pensamentos…
Criação.
Atenuo e diminuo,
Exagero e aumento,
Distorço e deturpo…
Invento.
No fim, tudo não passa de ilusão…
Ficção.

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carta

Recentemente, arrumando gavetas — procedimento que sempre acabo adotando no fim do ano — encontrei uma mini-análise grafológica que, se não me engano, fiz no começo dos anos 80, num shopping do Rio. Bastava escrever uma das frases indicadas (sim, pois era necessário que determinadas letras fossem obrigatoriamente escritas) para que uma espécie de computador apontasse alguns traços significativos da personalidade do interessado. O resultado da minha curiosidade foi o seguinte:

  • a insociabilidade pode ser o seu ponto mais fraco

  • você se caracteriza por auto domínio e disciplina, apesar de seu entusiasmo

  • você tem espírito ativo, independente e muito sensível

  • você é uma pessoa sonhadora e imaginativa, porém extremamente equilibrada

  • sua capacidade de articulação é notável

  • você é uma pessoa madura, mas demasiado voltada para si mesma

Lembro que na época (eu devia ter uns 20 anos) achei interessante o perfil que minha letra revelava, ainda que não concordasse inteiramente com ele. Hoje, para minha surpresa, ainda que minha letra não seja mais a mesma, e que eu nem acredite tanto na grafologia (ou pelo menos nessa versão tão resumida), o resultado me parece bem mais fiel ao que acabei me tornando. Excetuando-se a “notável capacidade de articulação”, que não tenho mesmo, o restante é o meu retrato: sem tirar nem pôr. Análise futurológica? Talvez. 

Eu já tive uma letra que considerava (e consideravam) muito bonita — provavelmente por causa da minha habilidade com desenho. Entretanto, com o passar do tempo, e com a cada vez mais rara possibilidade de escrever a mão — ah, computadores! —, minha caligrafia se degenerou em algo que hoje me espanta, me aborrece. E se eu fizesse o mesmo teste nos dias atuais?, o que será que minhas garatujas revelariam? Provavelmente algo diferente do perfil de 20 anos atrás… ou não?

A verdade é que, atualmente, não tenho mais tanta necessidade de saber quem sou: talvez eu já o saiba, ou talvez isso não importe tanto. O que me parece certo — e lamentável! — é que acabei perdendo uma “habilidade” que, independente de análises, me caracterizava de forma personalíssima, exclusiva, singular. Que saudades da minha letra de outrora!…

Simone de Beauvoir

Não me lembro exatamente da primeira vez em que ouvi falar de Simone de Beauvoir, mas lembro muito bem do meu primeiro contato com sua escrita, em Os Mandarins, no início dos anos 90. O romance me causou tanto impacto, me deixou tão impressionado com estilo, forma e conteúdo que senti uma vontade imediata de conhecer toda sua obra, e tudo o que pudesse saber sobre sua vida.

“Devorei” Os Mandarins — um calhamaço de 900 páginas — em quadro dias, e só não o terminei em menos tempo por não querer que aquele “prazer” acabasse depressa. Nenhum livro antes havia conseguido me cativar — e mexer comigo — a tal ponto. Naquela época, eu não ignorava o que era o Existencialismo, pois já tinha lido alguma coisa de Sartre, mas Simone apresentava esta filosofia de modo tão natural, compreensível e sedutor que foi impossível para mim não me interessar também por esta “modalidade” de encarar a vida.

Não foi difícil dar vazão ao meu desejo de tudo ler e tudo saber sobre Beauvoir: além de uma significativa obra literária havia uma extensa autobiografia, sem contar os ensaios. Um prato cheio que tive grande prazer em degustar. O interessante de seus romances é que eles quase sempre são “transposições” (da vida real para a ficção), o que lhes confere um realismo digno de estudo. Em suas memórias, Simone se transforma em “personagem” a fim de, usando a própria vida, comunicar suas experiências pessoais, seus fracassos, suas conquistas, e também as mudanças ocorridas no mundo em que vivia. Seus ensaios, dentre os quais O Segundo Sexo, a “bíblia” do feminismo (obra que mudou definitivamente o papel da mulher na sociedade ocidental), são trabalhos fundamentados em pesquisas tão extensas quanto minuciosas. Quanto mais eu “descobria”, mais fascinado ficava. Desse modo, não levei muito tempo para ter um conhecimento razoável sobre a autora e sua vida, bem como para me dar conta de que Beauvoir havia mudado radicalmente meu jeito de pensar — o que acabou se refletindo no meu modo de viver.

Na verdade, eu poderia dizer que meu desejo de escrever seriamente teve origem com a leitura dos livros de Simone — ainda que eu só tenha conseguido escrever algo a sério bem mais tarde. Eu gostava tanto do que lia que alimentava a vontade de poder, um dia, fazer algo semelhante: um texto capaz de agradar a outros (ainda que o conteúdo não fosse necessariamente agradável). Não sei ainda se obterei êxito nessa empreitada, mas — correndo o risco de parecer pretensioso — creio que minha escrita foi fortemente influenciada, sobretudo, pela literatura existencialista de Beauvoir.

Com a publicação póstuma de alguns diários e de boa parte de sua correspondência, Simone começou a ser “desmistificada” — para decepção de muitos de seus admiradores. Para mim, ao contrário, cada nova informação só faz com que Beauvoir me pareça mais e mais humana, o que, de certo modo, a torna mais próxima, mais admirável. Há quem se choque com a verdade, ou com o fato de Simone não ter dito TODA a verdade, como às vezes afirmava. A mim tudo parece bastante claro: algumas verdades simplesmente não podiam ser ditas em determinadas épocas, ou por envolverem terceiros ou por serem extremamente pessoais. O que me parece certo é que Simone desejava que o que ela não pôde dizer de viva voz ou escrever de próprio punho viesse à tona um dia, talvez quando já não pudesse “prejudicar” ninguém. Por isso instruiu sua filha adotiva (e herdeira de sua obra literária) a publicar postumamente anotações em diários e cartas — que permitiram a seus biógrafos preencher algumas lacunas e corrigir certos episódios. Entretanto, nada do que possa ainda ser revelado afetará, na minha opinião, a importância do legado de Beauvoir.

Em meados deste ano, recebi a incumbência de administrar uma comunidade sobre Simone num desses sites de relacionamento. Confesso que eu nem participava tanto como membro, mas achei interessante a oportunidade de, talvez, modificar o perfil do grupo oferecendo um pouco mais de informação e proporcionando troca de idéias. Apesar de minhas tentativas, fiquei com a impressão de que a maioria dos participantes continuava sem saber quem havia sido Beauvoir e qual sua importância, principalmente para as mulheres.

Eu já havia feito um site bastante simples, que contava, muito resumidamente, alguns fatos sobre a vida e obra da autora francesa. Levando em consideração o que havia percebido na comunidade, achei que estava na hora de atualizá-lo não só em relação ao formato, mas também em termos de conteúdo. E o fiz. Foram praticamente quatro meses em que me dediquei a pesquisar, ler, reler, traduzir, escrever, conceber e realizar o novo site. O resultado final me agradou bastante, e posso dizer, sem modéstia, que não existe em língua portuguesa (e nem em estrangeira) um espaço online mais completo sobre Simone de Beauvoir. Não sei se a intenção de “divulgar” e fazer com que minha autora favorita não “caia no esquecimento” aqui no Brasil surtirá efeito, mas acredito que por tudo o que ela me proporcionou — e ainda proporciona! — era o mínimo que eu poderia fazer. Uma pequena homenagem, mas muito sincera.

Para conhecer o site, clique no link abaixo:

www.simonebeauvoir.kit.net