Como de hábito, na falta de algo relevante para publicar, seguem algumas das curiosas frases-chave (algumas estranhíssimas!) por meio das quais certos visitantes chegam ao hebdomadário.

  • nem tudo precisa ser ditto

  • amo-a mas ela não quer se divorciar

  • pequenas mensagens excitantes

  • que barba me fica bem?

  • por que o cromossomo Y é tão estranho?

  • coisas interessantes para se fazer num restaurante

  • como dizer o que o outro quer ouvir?

  • quais as utilidades da pedra ume?

  • tomo leite com chocolate devo parar?

  • tendências maníaco depressivas

  • doenças esporádicas, inexistentes

  • acontecimentos que aconteceram em outubro

  • manual das técnicas de tortura

  • como conquistar uma garota de 10 anos?

  • perguntas tolas de mulheres sobre coisas

  • porque homens omitem certos assuntos?

  • quem criou o cartão de telefone?

Uma dica bastante útil para que não se perca tempo entrando em lugares indevidos: ao digitar a frase nos buscadores coloque-a ENTRE ASPAS. Assim, a frase inteira será procurada e não todas as palavras soltas, aleatoriamente.
O mais curioso, entretanto — ao menos para mim —, é que mesmo vendo que o meu blog não contém o que procuram (sim, porque os buscadores dão uma pequena mostra dos textos nos quais as palavras isoladas aparecem) as pessoas entram.
Enfim, espero que os visitantes que chegaram inadvertidamente ao meu blog tenham gostado de algo.

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Ganhei minha primeira câmera fotográfica em 1970. Ainda que não me lembre, acredito que devo ter manifestado algum interesse pelo hobby desde cedo, pois minha mãe não compraria a máquina desnecessariamente. Na verdade, a câmera — um trambolho de plástico preto da marca Tuka — pertencia a mim e ao meu irmão, mas como ele nunca teve muito interesse pela máquina e pelas fotos feitas com ela, eu a considerava como somente minha. Evidente que aos 7 anos minhas fotografias se resumiam a um monte de imagens tremidas e cheias de dedos esquecidos na frente da lente, mas eu me lembro de achar a experiência bastante divertida — algumas dessas fotos existem até hoje, e me fazem rir um bocado quando as revejo.

Algum tempo depois, “evoluímos” para uma câmera Xereta, bem mais compacta e fácil de operar — a máquina anterior tinha um enorme botão vermelho tão duro de apertar que era praticamente impossível não fazer a câmera tremer na hora do clique. É claro que as imagens produzidas Xereta não tinham boa qualidade, mas as fotos, quando comparadas com as da outra máquina, pareciam muito superiores. As imagens tremidas e com dedos aparecendo inadvertidamente foram diminuindo à medida que eu praticava, mas, na época, eu não tinha nenhuma pretensão além de me divertir registrando momentos que considerava interessantes (mesmo que não o fossem de fato).

Durante toda a minha adolescência a tal câmera Xereta satisfez plenamente meus “desejos fotográficos”. Aliás, eu sequer imaginava que existissem câmeras com mais recursos e que produzissem fotos melhores. Quer dizer, eu sabia que existia equipamento profissional, mas sabia também que aquilo não era para mim, pois devia ser tudo caríssimo.

Só na faculdade, observando as fotos de alguns amigos de turma, “descobri” que minhas fotos não tinham qualidade alguma. Fiquei sabendo também que havia câmeras razoáveis que não custavam uma fortuna. Em todo caso, na época, não pensei em comprar uma câmera nova. Inclusive, tive a audácia de ilustrar um trabalho sobre botânica feito com minha Xereta, com a qual, aliás, fiz fotos bem mais bonitas do que alguns alunos que tinham “equipamento”. Com essa episódio aprendi uma coisa que considero muito importante: é inútil ter uma boa câmera se o “fotógrafo” não tiver um bom olhar. Minhas fotos tiradas no jardim botânico agradaram tanto que houve até quem me pedisse emprestado os negativos.

Depois disso ainda fiz muitas fotos com a Xereta, mas, pouco a pouco, fui me rendendo aos encantos da Canon de uma amiga, que vivia me emprestando a câmera. E eu me deliciava com as fotos “incríveis” que a máquina proporcionava — de uma nitidez espantosa! Eu não podia mais ignorar que tudo sempre fica obsoleto em certo momento. Não dava mais para continuar com uma “camerazinha” sabendo da existência de algo incomparavelmente melhor. Eu precisava ter um daqueles objetos maravilhosos com os quais era possível registrar belezas.

Mas demorou até que houvesse um motivo forte o bastaste para justificar a compra de uma câmera mais, digamos, “profissional”. Só pouco antes da minha primeira viagem a Europa, em 1995, decidi que valia a pena ter uma máquina com mais recursos. Assim comprei uma Zenit 12XP, que não era tão boa quanto outras marcas, mas era infinitamente melhor que a Xereta — e tinha um preço que eu podia pagar. Foi bom eu ter podido usar a máquina da minha amiga emprestada, pois isso tornou menos complicado o manejo da minha nova câmera analógica. Bom também ter me formado na Escola de Belas Artes, pois isso me dava um “conhecimento estético” que eu podia aplicar facilmente às minhas experiências fotográficas. Nos dois meses que passei na Europa não houve um só dia em que eu não tivesse tirado uma foto — resultado: mais de 1500 imagens (numa época em que isso significava uma grande quantidade). Foi uma experiência duplamente interessante: poder visitar lugares que eu só conhecia através de fotos, e fazer eu mesmo o registro das cenas que considerava significativas. Evidente que muitas imagens não ficaram boas, já que, nesse tempo, a gente só sabia ao certo o resultado do clique depois de revelado o filme, mas considerei cerca de 1000 fotos dignas de preencherem os álbuns que acabei montando quando voltei.

Minha Zenit me satisfez plenamente durante 10 anos, mas como tudo fica obsoleto, em 2005 comprei minha primeira câmera digital, uma Sony Cybershot DSC-P200 (que, dadas as devidas proporções, não deixava de ser uma espécie de “Xereta” dos tempos modernos — já que é compacta e bastante simples de manusear — só que com imagens de boa qualidade). Eu deveria ter comprado uma câmera digital com mais recursos (como a minha antiga analógica), mas pensei que me familiarizar com uma “câmera simples” talvez fosse interessante antes disso — e depois, as máquinas profissionais são, evidentemente, muito mais caras que as “Xeretas modernas”.

Não me decepcionei. Ao contrário, fiquei surpreso com os resultados que obtive desde os primeiros cliques. Tudo tão prático! — o modo automático faz todos os ajustes necessários. A praticidade (e economia!) em poder observar o que se fotografou imediatamente após o clique me estimulou a tentar novos experimentos, inserindo fundos de cor e usando fontes de luz complementares a fim de que meus “modelos” (flores, frutas, objetos…) tivessem seus melhores ângulos ressaltados. Tudo isso muito “improvisado”, feito com papel colorido e luminárias baratas utilizando o assento e o encosto sofá como suportes. Achei tão interessante o resultado das minhas experiências que me animei a publicá-las no Flickr. Minhas fotos não demoraram a ter boa aceitação, ainda que todos ali, de certo modo, estejam no mesmo barco. Mas quando a gente começa a receber gratuitamente elogios de pessoas experientes — e com trabalhos belíssimos — creio que algum valor deve ter sido percebido. Alguns amigos pessoais também gostaram do que andei fotografando, e perguntaram por que eu não tentava fazer contato com bancos de imagem. Sinceramente, eu nunca havia pensado nas minhas fotos em termos comerciais — eram apenas meus experimentos, nada mais —, e estava certo de que não sendo profissional e não tendo equipamento meus “estudos” não tinham a menor chance de interessar a um banco de imagem. Mas o que custava tentar? O máximo que poderia acontecer era me dizerem “não”. Enviei e-mails a 3 bancos de imagem nacionais dizendo que se algumas de minhas fotos lhes interessassem eu gostaria de comercializá-las. Apenas um me respondeu, informando que apesar de ter gostado muito do meu trabalho eles não viam como encaixar minhas fotos no acervo da empresa (mais voltado para temas como: turismo, tecnologia, pessoas…). Acrescentaram que se eu fizesse fotos explorando os temas do acervo talvez até eles aceitassem algumas. Nada contra temas específicos, mas eu queria continuar fotografando os temas que me agradam e com os quais me sinto familiarizado, coisas simples e que não exigem grandes produções ou equipamento. É claro que eu gostaria de viajar fazendo fotos que pudessem se enquadrar na categoria “turismo”, mas isso exigiria um investimento fora de questão para mim. Desse modo, não pensei mais no assunto e continuei fazendo fotos por prazer.

Curiosamente, pouco tempo depois do episódio dos bancos de imagem nacionais, recebi o e-mail de um banco de imagens espanhol. Eles haviam visto minhas fotos no Flickr, e queriam saber se eu não estaria interessado em ser um dos fotógrafos colaboradores deles, pois tinham achado meu trabajo fotográfico muy interesante. Surpreso com o convite, com o elogio e também por ser o primeiro brasileiro a integrar a equipe de espanhóis aceitei, lisonjeado, a proposta. Assim, desde setembro de 2007 estou dispondo minhas fotos (ou experiências) no acervo do Banco de Imágenes de Andalucia, que, pelo visto, pretende ampliar os horizontes muito além da bela região espanhola. Esta é a minha mais nova vertente de “carreira internacional”. Não sei ainda no que isso vai dar, mas não deixa de ser muy interesante (pelo menos para mim) ter meu trabalho, de certo modo, “reconhecido” internacionalmente.

Para ver minhas fotos em Andalucia Imagen clique no banner abaixo:


Banco de imágenes

Às vezes eu gostaria de não ser tão observador.
Às vezes eu gostaria de não ter uma memória tão seletiva.
Às vezes eu gostaria de ser mais paciente (comigo e com os outros).
Às vezes eu gostaria de não ser tão exigente (com os outros e comigo).
Às vezes eu gostaria de não pensar tanto.

[Aqui entrava todo um discurso explicativo/justificativo, que censurei, pois parecia mais destinado a mim mesmo do que a qualquer outro.]

Talvez, se esses desejos não me assaltassem apenas às vezes eles já não me incomodariam: se fossem um peso esmagador eu já teria dado um jeito de me livrar da carga, ou teria sucumbido a ela.

Madame Oráculo

Admito: nunca havia lido nada de Margaret Atwood, embora seu nome (ou pelo menos o sobrenome) não me fosse totalmente desconhecido — mas eu sequer sabia que ela era canadense, na verdade, uma das autoras contemporâneas mais importantes e respeitadas naquele país.
Foi através de uma amiga de blog, que sempre falava sobre a autora e seus livros de forma entusiasmada, que tive minha curiosidade despertada. Escrevi um e-mail para a amiga virtual manifestando meu interesse pela escritora canadense, e ela gentilmente me enviou uma lista dos livros de Atwood, bem como um resumo do que tratavam os romances.

Demorei um pouco a me decidir por qual livro iniciar o “descobrimento” da literatura de Atwood, pois eles me pareceram caros quando fiz uma pesquisa nas livrarias — comprar livros novos: um “luxo” de que posso lançar mão cada vez mais raramente. Assim, acabei recorrendo a um sebo, onde encontrei — a preços incrivelmente convidativos! — dois títulos da autora, dentre os quais Madame Oráculo (um de seus livros mais conhecidos).

O terceiro romance escrito por Margaret Atwood me conquistou desde a primeira página: não só pelo tom da narrativa, bem como pela história em si.
Joan Foster, escritora de fantasias góticas (romances cor-de-rosa de temática histórica), depois de ter simulado a própria morte, encontra-se numa cidadezinha italiana descobrindo a possibilidade de uma nova vida. Seu objetivo principal agora é reinventar a personagem que ela foi nos últimos 30 anos: a criança obesa menosprezada e perseguida pela mãe; a herdeira que precisou emagrecer forçosa e drasticamente a fim de receber o dinheiro que a tia lhe havia deixado; a jovem que perdeu a virgindade com um escritor polonês de quinta categoria; a esposa do radical e enfadonho Arthur, com tendências maníaco-depressivas; a amante de um “artista modernoso” e sem grana que se autodenomina Porco-Espinho Real.
Joan tem dupla identidade — recurso de que se valeu, ainda jovem, por não estar muito segura do que faria de sua vida — mas, na verdade, sua existência é múltipla e facetada.
Através da longa — e quase sempre divertida — jornada de Joan, Atwood traça o retrato de uma mulher dividida entre o que gostaria de ser e o que os outros permitem que ela seja. Apesar disso, ou justamente por isso, Joan segue em frente, sempre tentando recriar a si mesma e dar algum sentido a(s) sua(s) vida(s). Seu poder de auto-análise e sua lucidez diante do mundo e das situações que experimenta são admiráveis. Ao mesmo tempo, uma pergunta parece impor-se a todo instante: é realmente possível solucionar os problemas escondendo-se deles?

O que mais me agradou no livro, sem dúvida, foi a comicidade presente quase o tempo todo, mesmo quando o assunto não tinha, aparentemente, nada de divertido — uma característica (e também uma grata novidade para mim) que Margaret Atwood explora muitíssimo bem. A maioria das passagens com o tal Porco-Espinho Real são engraçadíssimas: cheguei mesmo a gargalhar! Também gostei muito do fato de Joan escrever os tais romances cor-de-rosa de inspiração histórica, pois ao longo do texto conhecemos trechos de algumas de suas fantasias e características de suas heroínas góticas — e tudo fica ainda mais interessante quando a protagonista traça (ou tenta traçar) um paralelo entre sua vida e as vidas das personagens que ela cria.

Apesar de ter apreciado bastante a leitura, dois pontos me pareceram “desfavoráveis” (pelo menos para o meu gosto). Um deles é o salto para o passado mais remoto da protagonista (quando ela era ainda bem criança) logo depois de um início que me deixou ansioso em saber o que aconteceria no presente de Joan. Evidente que conhecer o passado da personagem é fundamental para entender e apreciar toda a trama, mas fiquei tão interessado em prosseguir na descoberta dos “mistérios” que, a princípio, senti certo desânimo em ter que começar a desvendar a vida de Joan desde a infância. Mas essa sensação não durou praticamente nada, pois a narrativa é tão interessante, flui de tal forma que embarquei completamente na origem de tudo.
Achei também que o desfecho merecia ser mais bem trabalhado, mais “detalhado” (uma das características marcantes ao longo de toda a trama). Se bem que tenho essa mania esquisita de esperar sempre por finais surpreendentes ou que não fiquem em aberto. Não, o final de Madame Oráculo é conclusivo, pelo menos até onde pode sê-lo, e ele não me desagrada de todo, mas reconheço que a expectativa que criei ao longo da leitura foi cumprida apenas em parte — o que não atrapalhou em nada o meu prazer.
A despeito desses 2 “senões” — que podem existir apenas para mim mesmo, e que não anulam os méritos do romance —, creio que quem tiver curiosidade sobre o livro não se arrependerá de conhecer um pouco da literatura de Margaret Atwood.

— Há palavras que fazem mal se as guardamos dentro de nós. Não quero que você guarde as que tem contra mim.
[…]
— Compreenda — continuou por fim. — Já que a coisa aconteceu, que eu falei, você não pode fazer nada contra. Ela permanece entre nós dois. Se você fizer de conta que não falei nada, então ela crescerá de importância, mil vezes mais do que eu quis dizer.

Os Pequenos Cavalos de Tarquínia | Marguerite Duras (1953)

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Isso já aconteceu comigo, aliás, as duas coisas: já guardei palavras que me fizeram mal; e também já expus palavras que tinha “contra” outrem. Por experiência própria, penso que o mal é feito em qualquer dos casos: contra si mesmo (quando se guarda o que deveria ser dito) ou para o outro (dependendo de como irá encarar a “revelação”).
O que me intriga um pouco na “conclusão” da segunda parte do trecho acima é não saber exatamente a quem atribuir o aumento da importância do que foi dito quando se faz de conta que nada aconteceu: mil vezes mais importante para quem disse ou para quem o ignorou? Provavelmente para ambos.

Sou alguém desconfiado por natureza. Mas não considero minha desconfiança como uma espécie de defeito — ao contrário, creio que ela talvez funcione bem mais como “instinto de preservação”. Isso não significa que eu desconfie de tudo e de todos. Só costumo ter tal atitude diante de situações ou pessoas que, num primeiro momento, me pareçam suspeitas (ainda que não o sejam de fato). Toda esta introdução para comentar — na falta de algo mais relevante para publicar aqui — a estranheza que certas pessoas me causam (principalmente se forem desconhecidas, e “desconfiáveis”, por conseguinte). É claro que isso não chega a me afetar, mas sempre fico impressionado com os expedientes dos quais alguns se valem para um provável tête-à-tête em busca (ou em troca) sabe-se lá do quê. Não me considero, digamos, “vítima” deste tipo de situação/pessoas, mas admito que esses episódios acontecem com uma freqüência bem maior do que eu gostaria. A seguir, dois casos (ou exemplos) relativamente recentes:

Há alguns meses, por causa das minhas fotos no Flickr, recebi uma mensagem de um homem que dizia ter acabado de ver minhas imagens e tinha grande interesse em saber o que estava fazendo profissionalmente. Disse ter lido que eu era fluente em francês e queria saber se eu falava inglês também. Além disso, perguntou que países além do Brasil eu conhecia, e terminou o e-mail indagando se eu não aceitaria tomar um café para conversarmos. A princípio, já desconfiado, acreditei que o contato talvez fosse de ordem profissional, mas a abordagem me soou tão estranha (e nada profissional), que respondi a mensagem comentando algumas coisas vagamente e perguntando qual o real interesse do sujeito nas tais informações — afinal, ele devia ter sido mais claro e objetivo, já que eu teria que responder o que me perguntava sem a menor noção do assunto em questão. Eu não tinha vontade alguma de tomar café com um total desconhecido a fim de conversar sobre algo que eu ignorava inteiramente. Recebi uma resposta num tom que classifiquei como “ressentido”, na qual o fulano me perguntava se eu tinha disponibilidade para fazer uma viagem pelo sudeste asiático fotografando pessoas, tecidos, padronagens, cores… Disse ele que havia trabalhado mais de 20 anos na empresa X e vivera muitos anos nos EUA e na Tailândia, onde mantinha sua residência oficial. Terminava a mensagem perguntando se havia esclarecido minhas dúvidas. Se o tal sujeito estivesse mesmo dizendo a verdade, por que não foi direto desde o início? Isso evitaria minhas desconfianças (e dúvidas), bem como que perdêssemos tempo num encontro que teria sido em vão — já que, além de não falar inglês, não disponho de equipamento fotográfico para uma empreitada de tal dimensão. Respondi que, ainda que o tal projeto me soasse um tanto vago, lamentavelmente eu não me sentia capacitado para tanto — aleguei os motivos citados acima. Terminei agradecendo o interesse e a oferta. E o fulano não voltou a me escrever.

Mais recentemente, no fim do mês retrasado, recebi o e-mail de uma moça que havia visitado meu outro blog e se dizia apaixonada pelas estampas que desenho. Informou que estava criando uma linha de produtos e gostaria muito de usar minhas padronagens no trabalho. Queria saber se poderíamos conversar a respeito. Desta vez não fiquei desconfiado, pois a moça fornecia o link para seu site/portfolio, bem como o telefone para contato — inclusive achei o trabalho dela bem interessante. Respondi agradecendo os elogios e dizendo que poderíamos, sim, conversar sobre o assunto. Mas antes eu gostaria de saber de que forma ela pretendia usar minhas estampas, já que isso não havia ficado claro. Ela me respondeu que ainda estava no começo do tal trabalho, e como eu também morava no Rio, perguntou se não podíamos nos encontrar pessoalmente para conversar. Então fiquei desconfiado. Por que, se ambos moramos na mesma cidade, a moça não optou por me telefonar antes a fim de explicar melhor do que se tratava o trabalho, até para saber se realmente minhas estampas serviriam ao projeto? Respondi que, na verdade, eu não via problema em marcar um encontro, mas achava melhor, antes disso nos falarmos por telefone. Expliquei que eu fazia apenas os desenhos (artes) e não tinha nenhum envolvimento com a produção/impressão de tecidos. Depois disso, a tal moça não me escreveu mais. Das duas, uma: ou ela estava com segundas intenções (o que acho muito pouco provável), ou viu que meus desenhos não serviriam para seu trabalho por não estarem impressos em tecidos. O mais estranho é que como não me respondeu até hoje — ainda o fará? — fiquei sem saber o que ela realmente pretendia. O que me parece certo é que, se os objetivos fossem mesmo profissionais, nosso encontro teria sido uma total perda de tempo, para ambos.

Não posso assegurar que — apesar da abordagem duvidosa — as intenções destas duas pessoas não fossem estritamente profissionais, mas essa “ânsia” por um encontro sem explicar o que pretendem e sem saber se poderei atendê-los me parece um legítimo despropósito — sem contar o caráter dúbio que fica no ar (pelo menos para mim, “o” desconfiado). Estranho também a ausência de um simples agradecimento depois de minhas explicações — seria uma atitude tão educada quanto profissional. Não sei como os outros resolvem suas questões de trabalho, mas eu levo meu ofício extremamente a sério e procuro, antes de tudo, fornecer e obter todas as informações possíveis a fim de não perder meu tempo e não desperdiçar o do provável cliente também. Serei exigente — ou desconfiado — demais?

inconfundvel

Gostei dos seus músculos… tá cobrando quanto? | Quarenta. | Pago vinte, vai? | O quê!? | Tá bom, tá bom, trinta, mas a gente racha o motel. | Fechado.

No quarto quente cheirando a orgasmos, agarrou o garoto parrudo, arrancou-lhe a camiseta surrada num puxão. Deteve-se admirando a musculatura do outro brilhando nos reflexos do néon vindos da rua. A boca salivando. Lambeu o bíceps direito, escorregou a língua pelo antebraço, deliciou-se com a mão inteira, enorme, vigorosa, dedos grossos, rombudos. Pediu um tapa, bem forte, bem dado, mas só com a direita, sempre. O michê riu, adivinhando a tara do tipinho, inconfundível. Bateu com força, o outro cambaleou. Mais forte, sem pena! Outro tapa, Isso!, e outro, Bate!, e outro, Vai!, um soco, Assim!, um murro, Me arrebenta!… Empolgou-se, e bateu tanto no cliente insaciável que pensou tê-lo apagado. Aproximou-se do corpo inerte. Na cama, gemendo baixinho, o rosto meio desfigurado, a boca sorria, extasiada, um fio vermelho escorria tingindo a fronha encardida. Mil vezes melhor que sexo, orgasmo explosivo sob os golpes, com roupa e tudo, como nunca, a melhor vez de todas. Abriu os olhos, inchados. Pegou o punho direito do musculoso e começou a beijá-lo, grato por tanto prazer. Vontade de ter para si, e para sempre, aquele braço potente, aquela mão pesada, dedos de soco-inglês…

E aí, gostou?, chega ou quer mais? | Eu quero mais: agora com as duas mãos!

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Escrevi o miniconto atendendo à solicitação de um amigo virtual, que desafiou a mim e a outras pessoas “metidas a escritor” a criarem textos curtos, de no máximo três parágrafos (e em três dias), sobre o tema SPANK ME. Na ocasião (maio de 2005), os textos selecionados — o meu, inclusive —foram publicados numa revista literária virtual, agora extinta, chamada PATIFE