literatura


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Como admirador da obra e também da vida de Simone de Beauvoir, eu não poderia deixar passar em branco a data em que, se fosse viva, ela completaria 100 anos. Entretanto, sem tempo para escrever algo apropriado para a ocasião, deixo a cargo da própria Simone o texto deste post:

Sartre disse-me um dia que tinha a impressão de não ter escrito os livros que desejava escrever aos 12 anos. “Mas afinal, por que privilegiar uma criança de 12 anos?”, acrescentou ele. Meu caso é diferente. Certamente, é muito difícil confrontar um projeto vago e infinito com uma obra realizada e limitada. Não sinto, porém, um hiato entre as intenções que me levaram a escrever livros e os livros que escrevi. Não fui uma virtuose do escrever. Não ressuscitei os reflexos das sensações, nem captei em palavras o mundo, como Virginia Wolf, Proust, Joyce. Mas não era esse meu objetivo. Queria fazer-me existir para os outros, comunicando-lhes da maneira mais direta o sabor da minha própria vida: mais ou menos consegui fazê-lo. Tenho grandes inimigos, mas também fiz muitos amigos entre meus leitores. Não desejaria nada mais do que isso.

Balanço Final (1972)

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O corpo de Beauvoir não existe mais. Contudo, seu pensamento, suas idéias e palavras, seus livros perduram até hoje, e ainda são capazes de influenciar e interessar muita gente — eu que o diga. Não deve existir mesmo nada mais desejável para um ser humano do que sobreviver a si próprio através de algo que o simbolize dignamente: sua obra.

Madame Oráculo

Admito: nunca havia lido nada de Margaret Atwood, embora seu nome (ou pelo menos o sobrenome) não me fosse totalmente desconhecido — mas eu sequer sabia que ela era canadense, na verdade, uma das autoras contemporâneas mais importantes e respeitadas naquele país.
Foi através de uma amiga de blog, que sempre falava sobre a autora e seus livros de forma entusiasmada, que tive minha curiosidade despertada. Escrevi um e-mail para a amiga virtual manifestando meu interesse pela escritora canadense, e ela gentilmente me enviou uma lista dos livros de Atwood, bem como um resumo do que tratavam os romances.

Demorei um pouco a me decidir por qual livro iniciar o “descobrimento” da literatura de Atwood, pois eles me pareceram caros quando fiz uma pesquisa nas livrarias — comprar livros novos: um “luxo” de que posso lançar mão cada vez mais raramente. Assim, acabei recorrendo a um sebo, onde encontrei — a preços incrivelmente convidativos! — dois títulos da autora, dentre os quais Madame Oráculo (um de seus livros mais conhecidos).

O terceiro romance escrito por Margaret Atwood me conquistou desde a primeira página: não só pelo tom da narrativa, bem como pela história em si.
Joan Foster, escritora de fantasias góticas (romances cor-de-rosa de temática histórica), depois de ter simulado a própria morte, encontra-se numa cidadezinha italiana descobrindo a possibilidade de uma nova vida. Seu objetivo principal agora é reinventar a personagem que ela foi nos últimos 30 anos: a criança obesa menosprezada e perseguida pela mãe; a herdeira que precisou emagrecer forçosa e drasticamente a fim de receber o dinheiro que a tia lhe havia deixado; a jovem que perdeu a virgindade com um escritor polonês de quinta categoria; a esposa do radical e enfadonho Arthur, com tendências maníaco-depressivas; a amante de um “artista modernoso” e sem grana que se autodenomina Porco-Espinho Real.
Joan tem dupla identidade — recurso de que se valeu, ainda jovem, por não estar muito segura do que faria de sua vida — mas, na verdade, sua existência é múltipla e facetada.
Através da longa — e quase sempre divertida — jornada de Joan, Atwood traça o retrato de uma mulher dividida entre o que gostaria de ser e o que os outros permitem que ela seja. Apesar disso, ou justamente por isso, Joan segue em frente, sempre tentando recriar a si mesma e dar algum sentido a(s) sua(s) vida(s). Seu poder de auto-análise e sua lucidez diante do mundo e das situações que experimenta são admiráveis. Ao mesmo tempo, uma pergunta parece impor-se a todo instante: é realmente possível solucionar os problemas escondendo-se deles?

O que mais me agradou no livro, sem dúvida, foi a comicidade presente quase o tempo todo, mesmo quando o assunto não tinha, aparentemente, nada de divertido — uma característica (e também uma grata novidade para mim) que Margaret Atwood explora muitíssimo bem. A maioria das passagens com o tal Porco-Espinho Real são engraçadíssimas: cheguei mesmo a gargalhar! Também gostei muito do fato de Joan escrever os tais romances cor-de-rosa de inspiração histórica, pois ao longo do texto conhecemos trechos de algumas de suas fantasias e características de suas heroínas góticas — e tudo fica ainda mais interessante quando a protagonista traça (ou tenta traçar) um paralelo entre sua vida e as vidas das personagens que ela cria.

Apesar de ter apreciado bastante a leitura, dois pontos me pareceram “desfavoráveis” (pelo menos para o meu gosto). Um deles é o salto para o passado mais remoto da protagonista (quando ela era ainda bem criança) logo depois de um início que me deixou ansioso em saber o que aconteceria no presente de Joan. Evidente que conhecer o passado da personagem é fundamental para entender e apreciar toda a trama, mas fiquei tão interessado em prosseguir na descoberta dos “mistérios” que, a princípio, senti certo desânimo em ter que começar a desvendar a vida de Joan desde a infância. Mas essa sensação não durou praticamente nada, pois a narrativa é tão interessante, flui de tal forma que embarquei completamente na origem de tudo.
Achei também que o desfecho merecia ser mais bem trabalhado, mais “detalhado” (uma das características marcantes ao longo de toda a trama). Se bem que tenho essa mania esquisita de esperar sempre por finais surpreendentes ou que não fiquem em aberto. Não, o final de Madame Oráculo é conclusivo, pelo menos até onde pode sê-lo, e ele não me desagrada de todo, mas reconheço que a expectativa que criei ao longo da leitura foi cumprida apenas em parte — o que não atrapalhou em nada o meu prazer.
A despeito desses 2 “senões” — que podem existir apenas para mim mesmo, e que não anulam os méritos do romance —, creio que quem tiver curiosidade sobre o livro não se arrependerá de conhecer um pouco da literatura de Margaret Atwood.

— Há palavras que fazem mal se as guardamos dentro de nós. Não quero que você guarde as que tem contra mim.
[…]
— Compreenda — continuou por fim. — Já que a coisa aconteceu, que eu falei, você não pode fazer nada contra. Ela permanece entre nós dois. Se você fizer de conta que não falei nada, então ela crescerá de importância, mil vezes mais do que eu quis dizer.

Os Pequenos Cavalos de Tarquínia | Marguerite Duras (1953)

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Isso já aconteceu comigo, aliás, as duas coisas: já guardei palavras que me fizeram mal; e também já expus palavras que tinha “contra” outrem. Por experiência própria, penso que o mal é feito em qualquer dos casos: contra si mesmo (quando se guarda o que deveria ser dito) ou para o outro (dependendo de como irá encarar a “revelação”).
O que me intriga um pouco na “conclusão” da segunda parte do trecho acima é não saber exatamente a quem atribuir o aumento da importância do que foi dito quando se faz de conta que nada aconteceu: mil vezes mais importante para quem disse ou para quem o ignorou? Provavelmente para ambos.

As Brasas

Eu já havia lido outro livro de Sándor Márai, Divórcio em Buda, que admito não ter gostado muito: o texto criou em mim uma expectativa que não se cumpriu — o que me deixou com aquela estranha sensação de que faltou algo, de que alguma coisa se perdeu ao longo da narrativa.

Por conta disso, não me senti muito animado diante de As Brasas, do mesmo autor, que recebi de presente de uma amiga — ainda mais quando soube que o tema era, de certo modo, semelhante ao de Divórcio em Buda. Mas esse preconceito caiu por terra desde que li as primeiras páginas. Aliás, da metade do livro até o fim não consegui parar de ler, tão fascinado fiquei com a história, com a narrativa. O texto é de uma elegância e fluidez digna de estudo (pelo menos na minha opinião). O protagonista, um velho general do Império Austro-Húngaro, é tão bem construído que minha afeição por ele foi imediata. E não só a construção do personagem principal, mas também dos ambientes e de toda uma época — ainda que servindo apenas como pano de fundo — são de tal qualidade que, para mim, foi impossível não me sentir fazendo parte de tudo. Curiosamente, não há excesso algum de detalhes neste aspecto, apenas o essencial para que o leitor se situe no tempo e no espaço.

Em seu castelo na Hungria, o general Henrik, de 75 anos, recebe a notícia de que um antigo e inseparável amigo de infância e juventude, Konrad, está na cidade e deseja visitá-lo. Eles já não se vêem há 41 anos — 41 anos e 43 dias, para ser mais exato. O general contou cada um desses dias desde a abrupta e incompreensível separação. Na verdade, Henrik acredita mesmo que só continuou vivo por que sabia que esse “confronto” ainda aconteceria.
Na véspera do dia em que o general e Konrad se viram pela última vez, um episódio tão inesperado quanto surpreendente envolve os dois amigos durante uma caçada — pelo menos essa é a forte impressão de Henrik: teria mesmo seu amigo pensado num ato tão irreparável? E por que não o consumou? Tudo alucinação? Não, o general sabe que algo muito grave aconteceu — ainda que não consiga precisar o quê. Algo que muda profunda e definitivamente a vida dos dois amigos.
Durante o tempo em que estiveram afastados, Henrik não conseguiu deixar de ruminar em nenhum momento o enigma daquele dia fatídico e tudo o que decorreu a partir dele. Tão sozinho quanto incansável, o general busca respostas, quer descobrir o que realmente aconteceu, e o porquê do ocorrido. Em vão, pois acredita precisar de um interlocutor que lhe diga a verdade, uma única pessoa: Konrad. E eis que agora, no fim da vida, chega o momento do confronto há tanto esperado e que vai desengrenar de uma vez por todas a existência estacionada de ambos. Para tanto, o general pede que preparem um jantar de gala para seu único convidado, e — talvez para prosseguir do ponto em que haviam deixado suas vidas em suspenso — procura reconstituir com rigorosas minúcias todo o ambiente em que se encontraram pela última vez, no mesmo castelo, no mesmo salão, na mesma mesa de jantar. Apenas um detalhe desfalcará da perfeita reconstituição: Krisztina, a falecida esposa do general.

Não vou me alongar para não revelar demais a quem talvez tenha interesse no livro. Mas o “ajuste de contas” entre Henrik e Konrad é um dos textos mais belos que já tive oportunidade — e prazer! — de ler. A forma coerente com que o general disseca a amizade é impressionante — e, ironicamente, quanto mais ele procura esmiuçar esse sentimento, menos temos certeza do que ele pode significar. Em sua obsessão por respostas, Henrik atravessa a madrugada inquirindo quase impiedosamente seu convidado, tão insistentemente que mal dá chance a Konrad de dizer o que gostaria de ouvir — se é que pretendia mesmo ouvir o que já não soubesse…

Apesar de a história se passar no início do século XX, e de o romance ter sido publicado em 1942, o livro continua atualíssimo, pois aborda como temas a amizade, o amor e a honra — sentimentos que, sabemos bem, não se deixam aprisionar pelos caprichos do Tempo.

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Certas formas de lucidez são piores do que as piores cegueiras. No instante em que aceitamos nosso próprio reflexo como definitivo, importa pouco saber se o espelho, o olhar, são ou não deformantes; é necessário que esse reflexo seja belo, ou tente sê-lo; porque, se não o for e a isso nos resignarmos, iremos ao encontro do pior, não tentaremos senão acentuar sua crueldade como, nas festas dos povoados e nos circos ambulantes, esses paspalhões que reconhecem de súbito em um espelho deformante sua feiúra, sua imagem caricatural e se comprazem em acentuar o grotesco, em vez de fugirem. Porque os outros, então, se reúnem e riem abertamente dessa feiúra em maiúsculas e da qual não podiam senão sorrir às escondidas, quando era miniatura. Em suma, nota-se a insignificância! E que procura o mais insignificante ou o mais estúpido senão ser visto?
A Cama Desfeita | Françoise Sagan (1977)

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Tenho uma relação estranha com espelhos: eles (ou o que neles percebo) me fascinam tanto quanto desagradam.

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Embora algumas vezes certos espelhos, determinados amigos e umas poucas fotografias pareçam me desmentir, considero-me — ao menos cronologicamente falando — maduro. Um “senhor de idade”, como eu costumo dizer (brincando?). Se a maturidade ainda me causa algum estranhamento, encaro com naturalidade o fato de, com o passar dos anos, ter me tornado mais seletivo e exigente. Afinal, se a contagem regressiva se torna cada vez mais evidente não faz sentido desperdiçar um tempo que sempre nos parece insuficiente.

Após duas décadas de dedicação quase exclusiva aos escritores franceses, só depois dos 40 anos comecei a me interessar verdadeiramente por autores de outras nacionalidades. Creio que esse desejo por “novidade” surgiu quando, a fim de tentar descobrir se meu livro prestava, fiz uma oficina literária com Sérgio Sant’Anna. Preciso confessar minha total ignorância, nesta época, sobre a obra do escritor que seria meu professor na oficina. Não demorei muito a descobrir que seu trabalho era bastante respeitado pela crítica e pelo público, o que o tornava alguém renomado no panorama da literatura nacional. Isso me incomodou, e de duas formas: eu não só desconhecia os livros de Sérgio Sant’Anna bem como de TODOS os meus compatriotas contemporâneos! Impossível não me sentir, por antecipação, defasado no meio da turma que iria freqüentar. Apressei-me em procurar algo do meu futuro professor antes do início das aulas. Como queria ganhar tempo, acabei comprando o livro mais fino que encontrei: Um Crime Delicado. Fiquei imediatamente fascinado com o texto, e também muito satisfeito em saber que seria aluno de um autor que me agradava muito — o que não deixou de ser uma sorte dupla.

Considero esta oficina importantíssima não só para o meu, digamos, “lado autor”, bem como para meu lado leitor. Não sei se devido ao trauma dos tempos da escola ou por preconceito (ou mesmo por ambos), o fato é que, a exceção dos livros que li obrigado quando aluno, eu não tinha costume de ler coisa alguma de Literatura Brasileira. O que não deixava de ser uma grande incoerência, ironia até. Não que fosse “condição essencial” conhecer obras de autores nacionais para poder escrever em língua portuguesa, mas não faria mal algum saber o que esses escritores haviam produzido. No fundo, talvez o trauma de infância tenha me marcado de algum modo, já que tendo minha curiosidade sobre autores brasileiros despertada, comecei a ler apenas os livros dos meus contemporâneos, gente que está viva hoje. Ainda não me dediquei com o devido afinco à descoberta dos escritores nacionais ou então estou sendo seletivo e exigente, como mencionei no início, e não vou abrir demasiadamente esse leque. Melhor dizendo: li os livros de vários brasileiros, inclusive da minha geração (e mais novos até), mas a maioria não me agradou. E depois, eu tenho a esquisita mania de querer ler tudo, ou quase tudo, dos escritores que me agradam. Deste modo, neste âmbito, por enquanto, somente dois nomes parecem dignos de registro na minha trajetória como leitor: Sérgio Sant’Anna, de quem admiro imensamente o trabalho (e o fato de conhecê-lo pessoalmente não deve ser levado em conta neste caso); e também Edgard Telles Ribeiro, que não é muito “badalado”, mas que possui uma literatura que sempre me causa espanto, no bom sentido, claro — seu livro, O Manuscrito ainda hoje me atordoa quando nele penso.

Paralelamente, procurei descobrir também o que estava sendo (ou tinha sido) escrito em outros países — o que se prolonga até hoje. Assim, travei contato com a literatura inglesa (E.M. Forster, Stephen Splender, Ian McEwan), literatura holandesa (Margriet de Moor), literatura argentina (Ernesto Sabato, Roberto Arlt, Julio Cortázar), literatura canadense (Michel Tremblay), literatura alemã (Thomas Mann, Patrick Süskind), literatura italiana (Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino), literatura americana (Henry Miller, Ernest Hemingway, David Leavitt, Truman Capote)… E, mais recentemente, com a literatura húngara (Sándor Márai), literatura afegã (Khaled Hosseini), literatura indiana (Thrity Umrigar) e literatura japonesa (Yukio Mishima).
É muito pouco, bem sei, mas espero ter tempo para aumentar minha lista, e descobrir algo da literatura africana (todo um continente!), turca, chinesa, portuguesa, russa… Em todo caso, como é impossível tudo ler, conhecer algum livro que nos chame a atenção e nos agrade talvez seja suficiente — mesmo quando o que foi lido não pode ser considerado como um “legítimo” representante da literatura deste ou daquele país. Isso, para mim, pouco importa. O que conta — e tem contado cada vez mais — é o impacto que a história me causa, a viagem que o texto me proporciona, as sensações que minha imaginação percebe, o desvendar de mundos e vidas que ignoro e nos quais penetro… em suma, o prazer que o livro me dá. Pois sem prazer algum (ainda que esta palavra tenha conotações muito pessoais), quando se é maduro, e, por conseguinte exigente e seletivo, não faz sentido desperdiçar o tempo que nos resta com o que não vale a pena.

Se estivesse viva ela teria feito 100 anos em abril passado. Mas já faz 35 anos que Violette Leduc “viajou”, como ela mesma diria pouco antes de “embarcar”.
Violette Leduc, obscura escritora francesa (obscura mesmo para os franceses), tinha tudo para ser um absoluto fracasso em todos os sentidos que se possa imaginar. Quanto mais conheço sua história e as formas tortuosas — nem sempre muito ortodoxas — que ela empreendeu a fim de se livrar, em parte, de sua “maldição”, quanto mais constato que contra tudo e contra todos (inclusive contra si mesma) ela conseguiu sobreviver, e ainda triunfar, quanto mais “desvendo” sua literatura única tão emaranhada em sua própria vida, mais cresce minha admiração por esta figura singular, personalidade tão complexa quanto difícil, e por isso mesmo fascinante.

A primeira vez que tomei conhecimento de Violette Leduc foi na extensa autobiografia de Simone de Beauvoir: ela falava de uma mulher muito feia que tinha grande talento para escrever — o que fazia com uma “sinceridade intrépida”, num estilo e temperamento arrebatadores. Curioso, mas sem saber exatamente do que tratavam seus livros, Violette Leduc não passava para mim de um nome bonito apenas.

Muito tempo depois, garimpando alguns livros num sebo do centro do Rio, deparei com A Bastarda, livro mais conhecido de Violette Leduc, mencionado várias vezes por Beauvoir. Numa rápida folheada, fiquei impressionado com o texto, que me atraiu como um imã. Não consegui deixar o sebo sem levar o livro. Quando me dediquei a sua leitura com a merecida atenção fiquei fascinado com a ousadia, com a coragem, com a “sinceridade intrépida”. Nunca havia lido nada tão tocante.

Eu pretendia contar aqui um pouco mais sobre Violette Leduc; sobre sua complicada relação de amor e ódio com a mãe, que sempre a culpou por ser filha ilegítima; sobre como usando apenas o que tinha, a própria vida, ela criou uma literatura singular, tão elogiada pela crítica quanto desprezada pelo público; sobre como, apesar de 5 livros e diversos artigos publicados em jornais e revistas, ela continuou sendo “um deserto que monologa” por quase 20 anos; sobre como, por causa de um livro, ela conseguiu sair brutalmente da obscuridade e tornar-se uma mulher rica e famosa (ainda que por pouco tempo); sobre como, a despeito da fama e dos amigos, ela morreu solitária, praticamente abandonada, seu maior temor durante toda a vida… Na verdade, cheguei a escrever o post, mas ele acabou ficando demasiado extenso. Como acabei de colocar no ar a nova versão do site que fiz para “homenagear” Leduc (e por que não, a propósito, seu centenário de nascimento?), quem tiver curiosidade poderá descobrir mais detalhes sobre Violette aqui. Será que ainda preciso dizer o quanto a autora e sua escrita me impressionaram?

Lamentavelmente, no Brasil apenas 2 livros de Leduc foram traduzidos — um dos quais (A Bastarda) se encontra fora de catálogo, só podendo ser achado em sebos. Deste modo, ironicamente, minha tentativa de divulgar a obra de uma autora tão “desconhecida” não deixa de fazer de mim (também) uma espécie de “deserto que monologa”. Mas não me importo, e nisso a obra de Violette me serve de estímulo e consolo: quando se acredita naquilo que se faz não há motivos para perder a coragem.

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