fevereiro 2008


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Nasci numa quarta-feira de cinzas — o que talvez seja emblemático.
As pessoas da minha família sempre gostaram muito do Carnaval: até pouco tempo, minha mãe jurava que eu havia nascido numa terça-feira gorda, em que ela pulou até a hora H. Mas deve ter se confundido, já que foi meu irmão (2 anos mais novo) que nasceu numa terça-feira de Carnaval — o que talvez seja emblemático também.
Olhando o álbum de fotos da família é fácil encontrar muitas imagens de bailes, minha mãe e minha avó fantasiadas… outros tempos, outro mundo. Não me recordo muito bem das minhas primeiras incursões na grande festa pagã (ainda se usa essa expressão?), no álbum de fotografias apenas uma imagem me serve de referência: eu e meu irmão, com (talvez) 5 e 3 anos respectivamente, empoleirados sobre cadeiras expressando total desânimo… Só mesmo olhando a foto e forçando o pensamento consigo lembrar daquele dia. Os dois fantasiados de índio. Não que tivéssemos escolhido a mesma fantasia, mas porque, apesar de não sermos gêmeos (aliás, eu e meu irmão não podíamos ser mais diferentes), minha mãe insistia em nos vestir de forma parecida — provavelmente para que um não se achasse melhor que o outro. “Boa intenção” que fazia com que perdêssemos completamente a individualidade. Eu, um indiozinho todo de azul; meu irmão, todo de amarelo. Mas, talvez insatisfeita com nossas fantasias monocromáticas, minha mãe resolveu trocar o meu saiote e tornozeleira com os do meu irmão, misturando tudo. Um desastre em termos de harmonia. Cocar, saiote, tornozeleira… como aquelas penas pinicavam! Pequenos ainda para brincarmos no meio do salão do clube, eu e meu irmão nos divertíamos recolhendo confetes e serpentinas do chão, enfiando todos num saco, para mais tarde jogar pela janela.

Depois desse ano (1969 talvez), preciso dar um salto no tempo a fim de lembrar da outra ocasião carnavalesca. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos e, provavelmente motivado pelos amiguinhos da rua (animados em brincar o Carnaval num clube próximo), eu e meu irmão resolvemos nos fantasiar de bate-bola (ou clóvis, como preferem os paulistas). Escondido atrás de uma máscara assustadora, desta vez nem me importei em fazer “par de jarros” com meu irmão. Sim, foi minha mãe quem comprou os tecidos que minha avó transformou em fantasias. Metade de corpo em cetim preto, a outra metade em vermelho, alternadamente. Apesar de não termos tirado fotografias, este dia está mais nítido na minha lembrança: cobertos da cabeça aos pés, segurando fedorentas bexigas, eu e meu irmão saímos à rua achando engraçado que ninguém nos reconhecesse. Mas no clube, tudo foi muito diferente (pelo menos para mim). Se a tarde já estava naturalmente quente, dentro do salão parecíamos no interior de uma fornalha, repleta de crianças desesperadas em se divertir. Eu, mesmo ainda imóvel, transpirava absurdamente. Assim que a música começou a tocar, a criançada se atirou no meio do salão formando uma roda que se movimentava freneticamente. Eu me lembro bem de ter visto aquela cena patética e não ter acreditado: “Mas o que significa isso?”, indaguei, perplexo, para minha mãe. “Ué, as crianças estão pulando Carnaval! Não foi pra isso que a gente veio aqui?”, disse ela a única resposta possível. Não sei ao certo o que eu esperava encontrar num baile de Carnaval, mas aquela correria em bando me parecia a coisa mais sem sentido e sem graça que eu já havia presenciado. “Vai lá, vai brincar também!”, incentivou minha mãe, vendo que meu irmão se divertia no meio da multidão infantil. Eu fui, nem sei por que, mas fui. Não dei mais que duas voltas. A fantasia comprida e quente grudava no corpo banhado de suor; a máscara plástica, com abertura apenas no lugar dos olhos, sufocava; as outras crianças empurravam, pisavam-me os pés… em suma, um verdadeiro inferno para o qual eu estava dignamente trajado. Tudo, menos diversão. Decidido a não compactuar com aquela pantomima ridícula, voltei para a mesa na qual estava minha mãe e armei uma tromba gigantesca, esperando ansiosamente a hora de voltarmos para casa. Diferente de mim, meu irmão se divertiu (ou seja lá que nome tenha) a tarde inteira. Depois disso, nunca mais eu quis saber do tal Carnaval.

Não posso dizer que minha completa aversão à folia se deva exatamente a um trauma de infância, mas reconheço que em criança não tive muito sucesso neste quesito. Eu até poderia ter tentado dissipar essa imagem algum tempo depois, mas nunca senti a necessidade que parece vitimar os foliões típicos — e depois, pra quê insistir naquilo? O Carnaval pode até ser a maior festa nacional, a festa do povo, mas para mim é cada vez mais sem graça e sem nexo, já que não vejo motivo algum para festejos, o que vejo quase sempre é alienação — mas as pessoas devem ter direito a isso (sei que sou exceção). Enfim, já terminou. E o ano de 2008 já pode finalmente começar aqui no Brasil.