artes & ofícios


entre cores e temas

Passei a semana anterior fazendo pesquisas sobre os novos temas propostos pela minha agente de Londres para a coleção Primavera-Verão 2008 (apesar de as cartelas de cores serem de 2009). Enfim, são tantos temas e derivações — que podem ser explorados de maneiras quase infinitas — e tantas cores — que também podem ser multiplamente combinadas — que não tive tempo de pensar em nada, ou melhor, de escrever nada, relevante para publicar aqui (aliás, o que é relevante?).
Eu já tinha começado a criar algumas padronagens que, por sorte, consegui encaixar num dos temas, mas foi dificílimo encontrar uma paleta de cores perfeitamente adequada à mini-coleção que eu já havia elaborado. É que nem sempre as cores da mesma cartela funcionam bem para padrões distintos que se pretende reunir num único grupo. E quem imagina que “pintar desenhos” é coisa simples e divertida não faz idéia da trabalheira que essa tarefa pode dar. Só para que se tenha uma idéia: levei o fim de semana inteiro (parte da sexta e da segunda-feira também — 3 dias, portanto) para definir as cores de quatro(!) padrões. Demorei, mas encontrei uma solução que me satisfez, muito.
Tenho até fevereiro do ano que vem para enviar minhas criações — o que, felizmente, me manterá bastante ocupado no tal final de ano, que eu abomino.
A título de curiosidade, segue o link para as cartelas de cores do verão 2009 (na Europa), e também alguns dos temas e seus desdobramentos:

Lenzing Colors | Trends Summer 2009

Nautical
70’s inspired | lots of nautical prints | stripes | dots | cute character prints over stripes

Camping
classic plaids | boyish checks | plaids with gradient

Sweet California
girly small flowers | hippie chic |two colour flowers | ditsies | vintage florals

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fotografia.jpg

Ganhei minha primeira câmera fotográfica em 1970. Ainda que não me lembre, acredito que devo ter manifestado algum interesse pelo hobby desde cedo, pois minha mãe não compraria a máquina desnecessariamente. Na verdade, a câmera — um trambolho de plástico preto da marca Tuka — pertencia a mim e ao meu irmão, mas como ele nunca teve muito interesse pela máquina e pelas fotos feitas com ela, eu a considerava como somente minha. Evidente que aos 7 anos minhas fotografias se resumiam a um monte de imagens tremidas e cheias de dedos esquecidos na frente da lente, mas eu me lembro de achar a experiência bastante divertida — algumas dessas fotos existem até hoje, e me fazem rir um bocado quando as revejo.

Algum tempo depois, “evoluímos” para uma câmera Xereta, bem mais compacta e fácil de operar — a máquina anterior tinha um enorme botão vermelho tão duro de apertar que era praticamente impossível não fazer a câmera tremer na hora do clique. É claro que as imagens produzidas Xereta não tinham boa qualidade, mas as fotos, quando comparadas com as da outra máquina, pareciam muito superiores. As imagens tremidas e com dedos aparecendo inadvertidamente foram diminuindo à medida que eu praticava, mas, na época, eu não tinha nenhuma pretensão além de me divertir registrando momentos que considerava interessantes (mesmo que não o fossem de fato).

Durante toda a minha adolescência a tal câmera Xereta satisfez plenamente meus “desejos fotográficos”. Aliás, eu sequer imaginava que existissem câmeras com mais recursos e que produzissem fotos melhores. Quer dizer, eu sabia que existia equipamento profissional, mas sabia também que aquilo não era para mim, pois devia ser tudo caríssimo.

Só na faculdade, observando as fotos de alguns amigos de turma, “descobri” que minhas fotos não tinham qualidade alguma. Fiquei sabendo também que havia câmeras razoáveis que não custavam uma fortuna. Em todo caso, na época, não pensei em comprar uma câmera nova. Inclusive, tive a audácia de ilustrar um trabalho sobre botânica feito com minha Xereta, com a qual, aliás, fiz fotos bem mais bonitas do que alguns alunos que tinham “equipamento”. Com essa episódio aprendi uma coisa que considero muito importante: é inútil ter uma boa câmera se o “fotógrafo” não tiver um bom olhar. Minhas fotos tiradas no jardim botânico agradaram tanto que houve até quem me pedisse emprestado os negativos.

Depois disso ainda fiz muitas fotos com a Xereta, mas, pouco a pouco, fui me rendendo aos encantos da Canon de uma amiga, que vivia me emprestando a câmera. E eu me deliciava com as fotos “incríveis” que a máquina proporcionava — de uma nitidez espantosa! Eu não podia mais ignorar que tudo sempre fica obsoleto em certo momento. Não dava mais para continuar com uma “camerazinha” sabendo da existência de algo incomparavelmente melhor. Eu precisava ter um daqueles objetos maravilhosos com os quais era possível registrar belezas.

Mas demorou até que houvesse um motivo forte o bastaste para justificar a compra de uma câmera mais, digamos, “profissional”. Só pouco antes da minha primeira viagem a Europa, em 1995, decidi que valia a pena ter uma máquina com mais recursos. Assim comprei uma Zenit 12XP, que não era tão boa quanto outras marcas, mas era infinitamente melhor que a Xereta — e tinha um preço que eu podia pagar. Foi bom eu ter podido usar a máquina da minha amiga emprestada, pois isso tornou menos complicado o manejo da minha nova câmera analógica. Bom também ter me formado na Escola de Belas Artes, pois isso me dava um “conhecimento estético” que eu podia aplicar facilmente às minhas experiências fotográficas. Nos dois meses que passei na Europa não houve um só dia em que eu não tivesse tirado uma foto — resultado: mais de 1500 imagens (numa época em que isso significava uma grande quantidade). Foi uma experiência duplamente interessante: poder visitar lugares que eu só conhecia através de fotos, e fazer eu mesmo o registro das cenas que considerava significativas. Evidente que muitas imagens não ficaram boas, já que, nesse tempo, a gente só sabia ao certo o resultado do clique depois de revelado o filme, mas considerei cerca de 1000 fotos dignas de preencherem os álbuns que acabei montando quando voltei.

Minha Zenit me satisfez plenamente durante 10 anos, mas como tudo fica obsoleto, em 2005 comprei minha primeira câmera digital, uma Sony Cybershot DSC-P200 (que, dadas as devidas proporções, não deixava de ser uma espécie de “Xereta” dos tempos modernos — já que é compacta e bastante simples de manusear — só que com imagens de boa qualidade). Eu deveria ter comprado uma câmera digital com mais recursos (como a minha antiga analógica), mas pensei que me familiarizar com uma “câmera simples” talvez fosse interessante antes disso — e depois, as máquinas profissionais são, evidentemente, muito mais caras que as “Xeretas modernas”.

Não me decepcionei. Ao contrário, fiquei surpreso com os resultados que obtive desde os primeiros cliques. Tudo tão prático! — o modo automático faz todos os ajustes necessários. A praticidade (e economia!) em poder observar o que se fotografou imediatamente após o clique me estimulou a tentar novos experimentos, inserindo fundos de cor e usando fontes de luz complementares a fim de que meus “modelos” (flores, frutas, objetos…) tivessem seus melhores ângulos ressaltados. Tudo isso muito “improvisado”, feito com papel colorido e luminárias baratas utilizando o assento e o encosto sofá como suportes. Achei tão interessante o resultado das minhas experiências que me animei a publicá-las no Flickr. Minhas fotos não demoraram a ter boa aceitação, ainda que todos ali, de certo modo, estejam no mesmo barco. Mas quando a gente começa a receber gratuitamente elogios de pessoas experientes — e com trabalhos belíssimos — creio que algum valor deve ter sido percebido. Alguns amigos pessoais também gostaram do que andei fotografando, e perguntaram por que eu não tentava fazer contato com bancos de imagem. Sinceramente, eu nunca havia pensado nas minhas fotos em termos comerciais — eram apenas meus experimentos, nada mais —, e estava certo de que não sendo profissional e não tendo equipamento meus “estudos” não tinham a menor chance de interessar a um banco de imagem. Mas o que custava tentar? O máximo que poderia acontecer era me dizerem “não”. Enviei e-mails a 3 bancos de imagem nacionais dizendo que se algumas de minhas fotos lhes interessassem eu gostaria de comercializá-las. Apenas um me respondeu, informando que apesar de ter gostado muito do meu trabalho eles não viam como encaixar minhas fotos no acervo da empresa (mais voltado para temas como: turismo, tecnologia, pessoas…). Acrescentaram que se eu fizesse fotos explorando os temas do acervo talvez até eles aceitassem algumas. Nada contra temas específicos, mas eu queria continuar fotografando os temas que me agradam e com os quais me sinto familiarizado, coisas simples e que não exigem grandes produções ou equipamento. É claro que eu gostaria de viajar fazendo fotos que pudessem se enquadrar na categoria “turismo”, mas isso exigiria um investimento fora de questão para mim. Desse modo, não pensei mais no assunto e continuei fazendo fotos por prazer.

Curiosamente, pouco tempo depois do episódio dos bancos de imagem nacionais, recebi o e-mail de um banco de imagens espanhol. Eles haviam visto minhas fotos no Flickr, e queriam saber se eu não estaria interessado em ser um dos fotógrafos colaboradores deles, pois tinham achado meu trabajo fotográfico muy interesante. Surpreso com o convite, com o elogio e também por ser o primeiro brasileiro a integrar a equipe de espanhóis aceitei, lisonjeado, a proposta. Assim, desde setembro de 2007 estou dispondo minhas fotos (ou experiências) no acervo do Banco de Imágenes de Andalucia, que, pelo visto, pretende ampliar os horizontes muito além da bela região espanhola. Esta é a minha mais nova vertente de “carreira internacional”. Não sei ainda no que isso vai dar, mas não deixa de ser muy interesante (pelo menos para mim) ter meu trabalho, de certo modo, “reconhecido” internacionalmente.

Para ver minhas fotos em Andalucia Imagen clique no banner abaixo:


Banco de imágenes

padronagens.wordpress.com

Já tive um blog no qual publiquei somente os desenhos das estampas que eu criava. Na época, creio que essa intenção acabou adquirindo — sem que eu o previsse, claro — o caráter de novidade, pois cheguei até a “ganhar” um post no DRAWN! (o mais importante blog de design do mundo) comentando minha idéia criativa. Para meu total espanto, cheguei a ter mais de 3.000 visitas num só dia.

Mas o tempo passou, minhas padronagens já não são novidade e o site antigo estava mais do que ultrapassado (em vários sentidos). Assim sendo, resolvi abrir um novo blog para republicar “minha arte”. Aproveitei para fotografar umas “bandeiras” (grandes retalhos de tecido impresso) a fim de mostrar o resultado concreto do trabalho. Procurei dispor as imagens num formato compacto e mais interessante para evidenciar as mini-coleções, quando for o caso.

Quem tiver curiosidade, poderá ver o que andei desenhando através do link abaixo:

http://padronagens.wordpress.com

Para quem ainda não sabe, entre outras atividades, também sou desenhista de padronagens. Aprendi este ofício na prática, quando trabalhei numa multinacional fabricante de material plástico. Na época (1989), como não existiam computadores, tudo tinha de ser feito a mão, com lápis, tintas e pincéis — não faz tanto tempo assim, mas ao lembrar isso me sinto meio jurássico.
Ainda que minha formação universitária tenha me conferido o diploma de Bacharel em Paisagismo, os 4 anos que passei desenhando na Escola de Belas Artes da UFRJ me deram uma base sólida o bastante para que eu me “aventurasse”, sem experiência alguma, no mundo das estampas e padrões.

Familiarizar-me com um universo até então desconhecido não foi tão complicado como imaginei a princípio, e não demorei muito a dominar as técnicas necessárias para ocupar eficazmente o cargo que consegui na fábrica — graças a ter me saído tão bem num teste “dificílimo” (pelo menos foi assim que a pessoa que me monitorou o classificou) que nem precisei concluí-lo. Na verdade, depois que vi os primeiros resultados do meu trabalho impresso fiquei tão entusiasmado que meu interesse pelo ofício e por descobrir e criar novas fórmulas de rapport (módulo de repetição) fez com que eu me dedicasse com afinco ao horizonte praticamente ilimitado que se estendia diante de mim. Assim, trabalhei satisfeito durante quase 4 anos nessa empresa — lamentavelmente, no fim deste período todo o setor de Marketing foi extinto, e com ele o Departamento de Criação no qual eu trabalhava.

Tive outros empregos (sempre relacionados, de algum modo, ao “desenho”) depois disso, e, como toda pessoa que quer continuar no mercado de trabalho, precisei adquirir conhecimentos de computação gráfica — imprescindível hoje em dia. Mais uma vez, não foi uma tarefa demasiado complicada, sobretudo levando-se em conta que nunca fiz curso algum — desagradável mesmo é ter que estar sempre atualizado: como é cansativo! Curiosamente, durante um bom tempo (nos meus outros trabalhos) esqueci quase por completo a existência de estampas e padrões.

Até que em 2003, lendo um anúncio no jornal que “recrutava” desenhistas de padronagem — e estando sem trabalho fixo —, acabei enviando meu currículo. Não se tratava de um emprego, mas de um projeto que me pareceu muito interessante: formar um grupo de desenhistas especializados em design de superfície a fim de desenvolver um trabalho tão diverso e rico quanto à cultura brasileira. Apesar da intenção ambiciosa e muito pouco garantida em termos financeiros, aceitei participar da empreitada. Aliando o que eu já sabia ao que aprendi sobre programas de computador (e também à experiência acumulada ao longo dos anos), o resultado, além de rápido e prático, me pareceu bastante agradável. A coordenadora do grupo de designers achou o mesmo. Assim, criamos uma grande coleção tendo o Brasil como tema — já que, na época, ele estava na moda. A intenção do projeto era oferecer as estampas a compradores aqui mesmo no Brasil. Entretanto, não demoramos a perceber que o Brasil não comprava o Brasil. Ou seja, o que “funcionava” aqui eram os padrões estrangeiros/importados simplesmente copiados ou, quando muito, adaptados à nossa realidade. Foi necessário mudar de estratégia e, já que o Brasil só era moda no exterior, buscar o mercado internacional — e assim, ironicamente, aderirmos ao “sistema nacional” só que às avessas. Uma missão nada simples e muito dispendiosa. Chegamos a participar de uma feira de tecelagem em Nova York (na qual vendi um padrão), mas os custos para continuarmos em tais eventos se mostraram muito além das possibilidades do grupo. Ainda conseguimos uma agente em NY, que durante algum tempo ficou com nosso acervo, mas aos poucos tudo foi se desfazendo, e cada designer se voltou para outros projetos.

Então, no começo deste mês, recebi um e-mail da agente de NY, que agora vive em Londres, perguntando se eu não estaria interessado em enviar algumas de minhas estampas para que ela mostrasse aos seus clientes (Victoria’s Secret, Dickies, Le Sportsac…). Aceitei o convite, e enviei cerca de 20 padronagens, que a própria agente escolheu no meu, digamos, catálogo. Para minha surpresa — e contentamento! —, em menos de 10 dias já tive uma estampa vendida! E pelo que disse minha agente existem alguns clientes interessados em outras. Estimulado, só me resta esperar que meu trabalho tenha boa aceitação, e que Londres me dê mais sorte que NY…

Abaixo, algumas de minhas padronagens:

padronagens