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Certas formas de lucidez são piores do que as piores cegueiras. No instante em que aceitamos nosso próprio reflexo como definitivo, importa pouco saber se o espelho, o olhar, são ou não deformantes; é necessário que esse reflexo seja belo, ou tente sê-lo; porque, se não o for e a isso nos resignarmos, iremos ao encontro do pior, não tentaremos senão acentuar sua crueldade como, nas festas dos povoados e nos circos ambulantes, esses paspalhões que reconhecem de súbito em um espelho deformante sua feiúra, sua imagem caricatural e se comprazem em acentuar o grotesco, em vez de fugirem. Porque os outros, então, se reúnem e riem abertamente dessa feiúra em maiúsculas e da qual não podiam senão sorrir às escondidas, quando era miniatura. Em suma, nota-se a insignificância! E que procura o mais insignificante ou o mais estúpido senão ser visto?
A Cama Desfeita | Françoise Sagan (1977)

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Tenho uma relação estranha com espelhos: eles (ou o que neles percebo) me fascinam tanto quanto desagradam.