Fim de tarde. O conjugado na Lapa é quase uma cela. Um resto de luz do sol atravessa a persiana empoeirada, o vento morno sopra mais poeira para dentro do cômodo. Eles ainda dormem. A noite dos dois foi longa. O dia acaba de findar. Os corpos sobre a cama desfeita são como cadáveres. Mas logo vão acordar. Menos um dia de vida, mais uma noite de trabalho.

Ele se vira para o lado, abre os olhos, torna a fechá-los. Ela chegou mais tarde que ele, mais serviço, com certeza. Ela sempre trabalha mais. Ele sempre acorda primeiro. Gostaria de pensar no que o incomoda faz alguns dias, mas não sabe pensar, ou não quer saber. Amor, paixão, sexo… não consegue teorizar sobre essas coisas, não acha necessário. Apenas as vive, ou acha que vive. Amizade, afeto, gratidão… mais palavras para a lista de coisas indefiníveis. Se conseguisse pensar talvez mudasse de vida. Ela não pode mais mudar. Vivem juntos por conveniência. Deveria ser mero acordo. Acabou sendo mais que isso, simbiose. Pior ainda para ele, que não queria estar sentindo o que sequer compreende. Admiração, agradecimento, carinho… misto de sensações que deturpam, encobrem a realidade que ele não enxerga. Porque não quer enxergar. Teme descobrir que a verdade é o que ele não quer saber. Se ela nunca tivesse insistido… Ele devia ter evitado, seria melhor, mas não houve jeito. Impossível controlar certos sentimentos. A solidão os uniu, o vazio os precipita no mesmo abismo. Presos um ao outro desabam na sordidez. Ele a protege, defende. Ela o mantém. Mas isso é provisório, arremedo de salvação. Foi assim desde o começo. Desde que decidiram dividir suas misérias. Trabalham para sobreviver, não têm alternativa. Dinheiro é o que importa. Contas pagas, barriga cheia, roupas novas… Mas isso parece pouco, parece nada. Sobreviver é morrer um pouco ao fim de cada dia. Trabalham à noite. Morrem de dia, na cama de casal, túmulo duplo.

Condenados um ao outro. Trabalho, sobrevida, morte… ciclo do qual não conseguem se livrar, nem ao menos tentam. Têm certeza de que não pode ser de outra forma. Sobrevida a dois não dá futuro, nem presente. A dois… nem mesmo isso. São parecidos demais, e também tão diferentes… Não sabem o que querem, apenas o que não gostam. Ele não está satisfeito com o que é, mas não sabe ser outro. Ela nunca vai ser o que gostaria, mas parece convencida da fraude, orgulhosa com a tentativa. São jovens. Acham que têm muito tempo ainda. Pensar no amanhã, coisa para outro tipo de gente.

A noite cai. Ele se levanta. Olha para ela, em sono profundo. Vai deixá-la sonhar mais um pouco, enquanto toma banho, passa roupa. Com o que ela sonha? Tudo, menos com ele, claro. Não passa de um objeto para ela — até nisso se assemelham. Mas para ele o objeto é desejo, confusão que não quer entender. Quando ela estiver no banho, ele vai preparar algo para comerem. De pé, fazendo a pia da cozinha de mesa, vão conversar pouco, não vão dizer nada importante. Monólogos paralelos. Ela, sempre distante, não vai perceber o que ele sente. Ele, mais uma vez, não vai revelar o que não faz sentido. Depois disso, tudo mudaria. Melhor deixar como está. Vai olhar para ela como se realmente a visse longe, inacessível. Louça dentro da pia. Depois vão sair juntos para o trabalho, como de costume, como baratas deixando bueiros em noite quente. Ele vai para a Cinelândia, fazer michê. Ela vai para a rua Augusto Severo, ponto de travestis.

_________________

CONDENADOS foi selecionado pelo concurso Contos do Rio e foi publicado no caderno Prosa & Verso (O GLOBO) em dezembro de 2003. E editado em livro pela Bom Texto em maio de 2005.

2 Respostas to “CONDENADOS”

  1. Sonia Says:

    Como mencionei em meu comentário este seu conto premiado, senti curiosidade em reler. E gostei como da primeira vez que o li, antes mesmo de ser enviado a O Globo.

    . . . . . . . . . . . . . .

    A “premiação” a que você se refere é estar entre os 40 selecionados ou ter tido o conto publicado em livro? Oficialmente, os premiados foram apenas 3 (e eu não estava entre eles…). Mas fico contente que você tenha gostado do meu texto e da repercussão que ele acabou tendo. Realmente, eu não esperava tanto.

  2. Marcos Fernandes Says:

    Legal, hein!

    . . . . . . . . . . .

    Que bom que gostou, Marcos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s