Se estivesse viva ela teria feito 100 anos em abril passado. Mas já faz 35 anos que Violette Leduc “viajou”, como ela mesma diria pouco antes de “embarcar”.
Violette Leduc, obscura escritora francesa (obscura mesmo para os franceses), tinha tudo para ser um absoluto fracasso em todos os sentidos que se possa imaginar. Quanto mais conheço sua história e as formas tortuosas — nem sempre muito ortodoxas — que ela empreendeu a fim de se livrar, em parte, de sua “maldição”, quanto mais constato que contra tudo e contra todos (inclusive contra si mesma) ela conseguiu sobreviver, e ainda triunfar, quanto mais “desvendo” sua literatura única tão emaranhada em sua própria vida, mais cresce minha admiração por esta figura singular, personalidade tão complexa quanto difícil, e por isso mesmo fascinante.

A primeira vez que tomei conhecimento de Violette Leduc foi na extensa autobiografia de Simone de Beauvoir: ela falava de uma mulher muito feia que tinha grande talento para escrever — o que fazia com uma “sinceridade intrépida”, num estilo e temperamento arrebatadores. Curioso, mas sem saber exatamente do que tratavam seus livros, Violette Leduc não passava para mim de um nome bonito apenas.

Muito tempo depois, garimpando alguns livros num sebo do centro do Rio, deparei com A Bastarda, livro mais conhecido de Violette Leduc, mencionado várias vezes por Beauvoir. Numa rápida folheada, fiquei impressionado com o texto, que me atraiu como um imã. Não consegui deixar o sebo sem levar o livro. Quando me dediquei a sua leitura com a merecida atenção fiquei fascinado com a ousadia, com a coragem, com a “sinceridade intrépida”. Nunca havia lido nada tão tocante.

Eu pretendia contar aqui um pouco mais sobre Violette Leduc; sobre sua complicada relação de amor e ódio com a mãe, que sempre a culpou por ser filha ilegítima; sobre como usando apenas o que tinha, a própria vida, ela criou uma literatura singular, tão elogiada pela crítica quanto desprezada pelo público; sobre como, apesar de 5 livros e diversos artigos publicados em jornais e revistas, ela continuou sendo “um deserto que monologa” por quase 20 anos; sobre como, por causa de um livro, ela conseguiu sair brutalmente da obscuridade e tornar-se uma mulher rica e famosa (ainda que por pouco tempo); sobre como, a despeito da fama e dos amigos, ela morreu solitária, praticamente abandonada, seu maior temor durante toda a vida… Na verdade, cheguei a escrever o post, mas ele acabou ficando demasiado extenso. Como acabei de colocar no ar a nova versão do site que fiz para “homenagear” Leduc (e por que não, a propósito, seu centenário de nascimento?), quem tiver curiosidade poderá descobrir mais detalhes sobre Violette aqui. Será que ainda preciso dizer o quanto a autora e sua escrita me impressionaram?

Lamentavelmente, no Brasil apenas 2 livros de Leduc foram traduzidos — um dos quais (A Bastarda) se encontra fora de catálogo, só podendo ser achado em sebos. Deste modo, ironicamente, minha tentativa de divulgar a obra de uma autora tão “desconhecida” não deixa de fazer de mim (também) uma espécie de “deserto que monologa”. Mas não me importo, e nisso a obra de Violette me serve de estímulo e consolo: quando se acredita naquilo que se faz não há motivos para perder a coragem.