janeiro 2007


garoto de programa

Já entrevistei um garoto de programa.
A idéia surgiu depois que tive um conto selecionado (e posteriormente publicado em livro) num concurso nacional. No texto eu mencionava um “casal” atípico: um garoto de programa e um travesti. Metido que sou, achando que poderia escrever algo mais longo sobre o “tema”, ou melhor, julgando-me capaz de escrever um romance tendo um garoto de programa como protagonista (não, não haveria o travesti), pensei em empreender uma espécie de pesquisa de campo — já que dar vida e densidade a tal personagem, na minha opinião, não seria apenas questão de mera imaginação, como ocorreu no conto. Acredito que em literatura — na minha pelo menos — para captar e transmitir a verdade do personagem eu preciso SER este personagem. Claro que não literalmente, mas se eu souber como pensa e sente essa “criatura” posso muito bem me colocar na pele dele literariamente. Não confundam literalmente com literariamente. Eu sabia que entrevistar somente um garoto não me forneceria dados suficientes, pois eu teria apenas uma visão parcial. Pensei que cinco rapazes me dariam um material significativo para que eu absorvesse, fundisse e sintetizasse as impressões obtidas. Mas cada coisa em sua hora: eu precisava saber primeiro como me sairia neste intento.

Não foi complicado encontrar um ponto de partida. Surpreendente a quantidade de resultados obtidos quando digitei “garoto de programa” num desses buscadores de Internet. Difícil foi achar entre a infinidade de ofertas alguém que disponibilizasse um endereço de e-mail, já que todos utilizavam celulares — e eu não queria que meu telefone ficasse registrado no aparelho de ninguém. Enfim encontrei um, que anunciava: “Para o seu prazer! 25 anos, 1.70m, 70kg, totalmente másculo, discreto, segurança e sigilo total. Alto nível, falo idiomas. Venha relaxar e sentir prazer de verdade. [nº. do celular]. Fotos mais ousadas por e-mail.” A imagem que ilustrava o anúncio mostrava um rapaz meio sem-graça enrolado numa toalha branca numa pose sensual muito parecida com a de São Sebastião (sem as flechas, obviamente). Enviei um e-mail, criado somente para isso, dizendo que estava começando a escrever um livro e deixando clara a minha proposta: apenas uma entrevista, nada além disso. Eu marcava um encontro no centro da cidade e perguntava quanto ele me cobraria. Depois de enviar a mensagem, pensei: “O cara vai me achar um verdadeiro maluco. Será que vai me responder?” Ele não só não deve ter me acho tão louco, como não demorou nada para me mandar uma sucinta resposta: “Aceito! R$ 50,00”.

Nesta época eu trabalhava no centro do Rio, e quando contei aos amigos no escritório que entrevistaria o garoto eles mal puderam acreditar. Acharam que eu era maluco, que o cara podia me assaltar, bater em mim, etc. Eu mesmo já havia pensado nisso, mas tendo marcado o encontro num lugar público achei que não correria grandes riscos. Por via das dúvidas, resolvi levar apenas pouco mais do valor que ele havia me cobrado. Em casa, eu tinha elaborado um questionário que me parecia pertinente, mas diante da curiosidade dos amigos no trabalho sobre o que eu perguntaria ao rapaz, achei que eles também poderiam colaborar com novas questões. Foi ótimo, pois o questionário acabou se enriquecendo enormemente.

Admito que à noite, depois do trabalho, diante do Teatro Municipal (local do encontro), eu estava um tanto apreensivo. Deveria mesmo ir até o fim daquilo? Ainda tinha dúvidas. Mas elas se dissiparam quando avistei o garoto junto ao poste: tão baixo e franzino que relaxei. Como as fotos podem ser enganadoras!… Ele me recebeu amistosamente, mas me pareceu tão apreensivo quanto eu antes de vê-lo. “Achei que você não ia aparecer… e que eu ia perder a viagem. Você nem me deu o seu telefone!”, falou para mim. Pelo visto, devia ter vindo de longe. Fomos a um fast food decadente que eu já sabia estar sempre às moscas — seria necessário um mínimo de privacidade para tal entrevista. Nesta hora, me ocorreu que o garoto poderia facilmente me enganar dizendo um monte de mentiras em troca do dinheiro. Como saber a verdade? Tarde demais. Paguei um lanche que justificasse nossa presença no local e subimos ao piso superior, totalmente deserto, como imaginei.

Não perdi tempo. Enquanto ele sorvia o milk shake duplo e comia o sanduíche triplo, tirei a papelada da pasta e desandei a perguntar. Para minha surpresa, ele não só não hesitou em resposta alguma (e havia muitas perguntas constrangedoras — pelo menos para mim), como ainda forneceu detalhes que iam muito além do indagado. Não tive dúvida: o garoto foi sincero o tempo inteiro. Uma sinceridade revestida de desilusão, descontentamento, conformidade.

Eu até poderia contar resumidamente a história dele aqui, mas isso só faria este post ficar ainda mais longo. O curioso é que a história do garoto, em linhas gerais, era semelhante a que eu havia imaginado. Depois de tantas perguntas indiscretas e tantas respostas honestas, fiquei me sentindo estranho. Não era uma história alegre, como eu supunha, mas estar frente a frente com o protagonista daquela narrativa verídica, às vezes sórdida, às vezes bizarra, às vezes humilhante, me deixou triste. Como ignorar aquela realidade infeliz personificada em gente? Por outro lado, fiquei admirado com sua coragem em se aventurar num mundo que sempre me soou um tanto arriscado, em vários sentidos. No fundo, fiquei com pena do garoto, e se tivesse levado mais algum dinheiro o teria dado de bom grado — embora isso não resolvesse o “problema” dele. Paguei o que ele havia pedido e nos despedimos cordialmente.

Posso estar enganado, até porque só fiz uma entrevista (suportaria fazer mais quatro?), mas a sensação que conservei desse episódio foi um tanto negativa, apesar de certa admiração. Tentando me vestir de personagem, senti angústia, solidão, vergonha, nojo, medo… O garoto me confessou que, apesar do dinheiro que ganhava por mês (bem maior que o salário mínimo) e do prazer que às vezes sentia, se pudesse ele abandonaria aquela vida imediatamente. Mas havia agora tanta coisa em jogo… e ele esperava ganhar a partida.

O livro, ou o que deveria sê-lo, foi engavetado — não tanto pelas demais entrevistas não realizadas, mas talvez pelo outro protagonista que dividiria a cena com o garoto (alguém muito mais complicado e “perigoso” de entrevistar, sobretudo se eu dissesse a finalidade da entrevista). O que me parece certo é que, embora se tenha a impressão de que oferecer o corpo em troca de dinheiro seja algo relativamente “fácil”, uma atividade que exige pouca prática (ou muita cara-de-pau), o saldo dessa transação, por maior que seja o “lucro”, nem sempre é positivo. Não deve ser nada agradável se sentir uma mercadoria apta a atender desejos de estranhos.
Certa vez, num programa de TV, vi um especialista sobre prostituição masculina finalizar a matéria com uma frase que me pareceu perfeita para sintetizar o “drama” desse ofício ou situação. Não sei se vale para todos os garotos de programa, mas certamente deve servir para muitos: “A venda do corpo cobra o preço da alma”.

Não há um motivo específico para o assunto deste post. Apenas me lembrei dessa história (antiga) e achei interessante contá-la.

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  • Certos atributos físicos só podem ser percebidos em plenitude e em sua devida beleza quando isolados do todo ao qual pertencem. Por outro lado, esse “destaque” pode enganar incrivelmente quem só o conhece isolado do restante e tenta imaginar o conjunto.

  • Muitos desentendimentos acontecem por erros de comunicação. E tais equívocos podem fazer com que pessoas interessantes deixem de se conhecer. Às vezes é aconselhável insistir quando não se acredita num erro tão grotesco. Uma mera provocação pode surtir efeitos significativos, e o que antes parecia desprezo se mostra algo bem diferente disso.

  • Palavras, sobretudo escritas, têm um poder impressionante quando bem escolhidas e habilidosamente dispostas em frases. Dependendo do destinatário, e de sua resposta, elas podem surpreender tanto quem as leu como quem as escreveu.

  • A mentira pode até ser prática quando precisamos fazer uso dela, mas quando é usada contra nós, e temos consciência disso, ela sempre soa um tanto cruel, sobretudo dependendo de quem nos está mentindo.

  • Tentar adivinhar algo que nos parece óbvio nem sempre significa descobrir a verdade. Nem tudo é o que aparenta ser, principalmente quando se ignora uma série de fatores e quando não se pode deixar de fantasiar.

  • É inútil sentir raiva de alguém quando tudo o que se deseja é justamente o oposto. O máximo que se pode fazer neste caso é sentir raiva de si mesmo por querer algo fora de alcance, ou quase. Mas isso também nada resolve.

  • De que adianta saber a diferença entre miragem e oásis quando se continua monologando no deserto?

  • Muitas vezes a paciência pode ser a melhor estratégia para se conseguir rapidamente o que se busca. Entretanto, mesmo a paciência tem seus limites.

  • Cartas de baralho e pérolas, além de excitantes e perturbadoras, podem ser muito instrutivas.

Como não consegui pensar em nada razoável para publicar esta semana, recorro a um “repeteco”: um post já publicado nos primórdios do meu blog anterior (mas que está valendo até hoje). Acho que foi a coisa mais divertida que já escrevi — até eu achei graça quando o reli!

futilidade masculina

Se existe uma coisa que detesto é ter que fazer a barba. Digo “ter” porque de nada adiantaria deixá-la crescer: além de rala e falhada, agora a profusão de pêlos brancos que insistem em surgir me deixam com um aspecto deplorável. Desde que esses pêlos começaram a nascer no meu rosto adolescente experimentei várias formas na tentativa de remoção; na verdade cinco. Vamos a elas:

1. Barbeador Elétrico

Algo que só funciona perfeitamente se for usado a cada 30 minutos (quem tem barba cerrada deve aumentar o intervalo para 5 minutos). Foi meu primeiro contato com a prática (nada prática) na remoção de pêlos faciais. Pensando que o problema estava nos produtos usados na pele (talco ou óleo) para fazer o barbeador deslizar, alternei os dois durante muitos anos, até abandonar a técnica pouco eficaz de vez.

2. Lâmina de Barbear

Pareceu-me a alternativa óbvia ante o fracasso do barbeador elétrico. Comparativamente mais eficiente que o primeiro método, o mais desagradável é que, junto com os pêlos, uma considerável camada de pele é removida pelas lâminas (inútil aquela borrachinha que alegam conter Aloe vera). Para quem, como eu, tem pele fina nada mais “confortável”. No entanto, a parte mais dramática vem na seqüência: a aplicação da loção após barba. É como deslizar nu sobre um tobogã de gilette caindo imediatamente numa piscina de álcool. Ui! Achei que fosse questão de tempo esperar minha pele “engrossar” com tal processo, mas isso nunca aconteceu.

3. Depilatório (sim, eu fiz isso!)

Sempre buscando alternativas inovadoras, observei que minha mãe usava um método que parecia interessante na remoção dos pêlos de suas pernas: eles eram dissolvidos!, e demoravam um tempão a renascer. Por que não adaptar tal coisa ao meu caso?, pensei. A embalagem alertava para o uso do produto exclusivamente nas pernas ou axilas, mas desconsiderei a advertência, achando que apenas não tinham tido a mesma idéia brilhante que eu. Passei a gosma com cheiro de esgoto no rosto, prendendo o nariz com a ponta dos dedos e olhando no espelho o resultado milagroso. Mas o que vi foi meu rosto instantaneamente vermelho e ardente como brasa, chegava a sair fumaça! Água, água, água! A cara ficou um desastre por vários dias, mas consegui sobreviver.

4. Cera quente (desespero de causa?)

Uma conhecida — que se considerava esteticista — garantiu-me que com a cera quente eu me livraria da barba por aproximadamente 2 semanas. Se eu tornasse aquela prática num hábito, em pouco tempo não teria mais que me preocupar com o barbear, continuou ela assegurando. Acreditei. No cubículo escuro que ela denominava consultório, deitei numa espécie de maca e deixei que a “esteticista” arrancasse meu couro. Quando a sessão de tortura terminou — cerca de duas horas mais tarde — ela me deu um espelho de mão. Naquela escuridão o resultado me pareceu satisfatório, e eu nem fiquei chateado em pagar a fortuna cobrada pelo serviço. Só quando cheguei em casa, e corri ao espelho iluminado do meu banheiro, pude comprovar a realidade: um monte de pêlos indesejáveis vicejava em plena vermelhidão facial! Quatro dias mais tarde TODOS os pêlos me acenavam debochados da saída de seus folículos.

5. Pinça (técnica chinesa – de paciência)

Requer habilidade, dedicação e muito, muito tempo. E, claro, precisa ser feita em etapas. Inconvenientes: alguns pêlos renitentes são dolorosíssimos de se arrancar, sobretudo os mais grossos; a probabilidade dos novos pêlos encravarem é surpreendente (eles ficam revoltados). Desvantagem: sendo feita em etapas, a cara fica parecendo uma lavoura abandonada no meio da colheita. Acabei me rendendo aos inconvenientes e desvantagens.

Hoje, mais de 20 anos depois do início de tudo, acabei adotando as lâminas de barbear como a técnica menos complexa. Ainda me corto todo e minha pele parece afinar cada vez mais. Entretanto, alguém teve a excelente idéia (deve mesmo ter sido um homem) de mudar a fórmula de algumas loções após barba tornando-as compatíveis com a pele humana retalhada. A descida sem roupa no tobogã de gilette continua a mesma, só que o mergulho agora é feito num tanque de bálsamo hidratante de fácil absorção, que amacia e relaxa a pele, deixando-a com aparência saudável. Estranhamente, apesar de soar como pura frescura, a promessa das novas loções se cumpre. Enfim, um pouco de suavidade nesta tarefa ingrata.

Uma experiência. Uma experiência que, por pior que fosse, me forneceria elementos bastante úteis para meu intento — que ainda não posso revelar, embora não seja muito difícil adivinhar (sim, eu gosto de enigmas). Foi assim que pensei quando decidi me aventurar por mundos não totalmente desconhecidos, mas há muito deixados para trás. E a retomada se deu de um modo relativamente novo, o que não deixou de ser motivo de estímulo. Fui preconceituoso, admito. Pior, pretensioso, achando que já sabia exatamente o que iria encontrar (será que nunca vou aprender?). Mas foi bom ter entrado no experimento com essa idéia equivocada, pois a surpresa diante do que pude constatar fez com que eu mudasse significativamente o curso da jornada que eu acreditava banal.

Espantoso como num espaço teoricamente desprezível é possível encontrar pérolas de qualidade — que os porcos obviamente nem reparam, tão preocupados em chafurdar. Como não sou porco, consegui perceber vários pontos cintilantes em meio à lama. Li em algum lugar que as pérolas só se mantêm bonitas (depois de removidas das respectivas conchas) quando em contato com a pele humana. Sem isso, perdem o viço, ficam opacas, se deterioram. Procurando fazer uma analogia, o contato humano não precisa ser necessariamente cutâneo (embora nada impossibilite tal coisa), mas se as pérolas falam é preciso que alguém as ouça — e os porcos, além de cegos, são surdos. 

A “coleta” (que outro nome?) dessas preciosidades perdidas requer um trabalho delicado, dedicado. É preciso ter passos cautelosos para não atolar no lamaçal. Uma experiência que de transmutou em outra, bem mais interessante, porque inesperada. Posso até continuar sendo pretensioso em me julgar capaz de tarefa tão exigente, mas eu consegui ouvir alguns apelos luminosos — não seria este um sinal, um indício de que talvez posso ajudar? Penso que sim. Eu ouço e quero continuar a ouvir o que as pérolas têm a me dizer, quero oferecer meu contato humano (cutâneo também, quem sabe?) para que elas continuem a brilhar, para que não se apaguem perdidas no abandono de um lugar indevido… É, talvez eu seja mesmo muito pretensioso… ou então patético (o que é quase certo). O que sei é que os enigmas me intrigam, instigam, seduzem… sobretudo quando necessito exercitar áreas pouco utilizadas em mim mesmo para decifrá-los. Nada me soa mais estimulante nesse momento.

É muito provável que os visitantes assíduos deste blog não estejam entendendo nada. Lamento, mas talvez eu esteja escrevendo apenas para mim mesmo — o que não deveria merecer publicação, e também comentários, reconheço. Encarem como uma espécie de “fase inicial”, e que por isso requer maior atenção de minha parte. Não devo demorar muito para voltar ao normal. Se bem que o normal é sempre tão previsível!…

cartas na mesa

Pode ser até que eu esteja enganado, ou melhor, iludido, mas creio que o ano de 2007, pelo menos em determinado aspecto, será bastante promissor para mim. Ainda que eu esteja me antecipando (ou sendo muito otimista) em pensar de tal modo, o resto do ano que se extinguiu me forneceu alguns indícios de que devo acreditar no que estou intuindo — até porque eu quero isso.

O curioso é que tudo se desenrola num campo que eu já considerava estéril — não canso de me equivocar sobre certas coisas, felizmente! É verdade que o início desses “acontecimentos” não foi provocado por mim, mas, uma vez desperto achei interessante permanecer de olhos abertos. Bem abertos. Mesmo que  esta partida tenha sido adiada, ou jamais ocorra (como tudo indica), já que eu estava na mesa de jogo, por que não esperar — ou provocar! — uma nova rodada? O que eu teria a perder?

Espantosa a quantidade de cartas do baralho que acabou caindo na minha frente! Tantas que fiquei sem saber exatamente quais reunir na minha mão. Selecionei as que me pareceram mais valiosas, mas isso dependerá das minhas jogadas, evidentemente. Não sei ainda se ganharei a partida, mas já me dou por satisfeito em poder estar jogando: não é isso o que dizem sobre as competições? Confesso que estou surpreso por ainda me surpreender comigo mesmo: uma espécie de “novidade” que faz com que eu goste de ser exatamente quem sou, sem tirar nem pôr.

Não tenho como saber se as promessas que 2007 indicam em parte do meu horizonte vão se cumprir, mas pela primeira vez na vida tenho uma sensação extremamente positiva numa época em que tudo quase sempre me soa desagradável. Penso que esta pode ser uma ótima forma de iniciar o ano. Eu não poderia desejar mesmo nada mais estimulante.