pessoal


Nasci numa quarta-feira de cinzas — o que talvez seja emblemático.
As pessoas da minha família sempre gostaram muito do Carnaval: até pouco tempo, minha mãe jurava que eu havia nascido numa terça-feira gorda, em que ela pulou até a hora H. Mas deve ter se confundido, já que foi meu irmão (2 anos mais novo) que nasceu numa terça-feira de Carnaval — o que talvez seja emblemático também.
Olhando o álbum de fotos da família é fácil encontrar muitas imagens de bailes, minha mãe e minha avó fantasiadas… outros tempos, outro mundo. Não me recordo muito bem das minhas primeiras incursões na grande festa pagã (ainda se usa essa expressão?), no álbum de fotografias apenas uma imagem me serve de referência: eu e meu irmão, com (talvez) 5 e 3 anos respectivamente, empoleirados sobre cadeiras expressando total desânimo… Só mesmo olhando a foto e forçando o pensamento consigo lembrar daquele dia. Os dois fantasiados de índio. Não que tivéssemos escolhido a mesma fantasia, mas porque, apesar de não sermos gêmeos (aliás, eu e meu irmão não podíamos ser mais diferentes), minha mãe insistia em nos vestir de forma parecida — provavelmente para que um não se achasse melhor que o outro. “Boa intenção” que fazia com que perdêssemos completamente a individualidade. Eu, um indiozinho todo de azul; meu irmão, todo de amarelo. Mas, talvez insatisfeita com nossas fantasias monocromáticas, minha mãe resolveu trocar o meu saiote e tornozeleira com os do meu irmão, misturando tudo. Um desastre em termos de harmonia. Cocar, saiote, tornozeleira… como aquelas penas pinicavam! Pequenos ainda para brincarmos no meio do salão do clube, eu e meu irmão nos divertíamos recolhendo confetes e serpentinas do chão, enfiando todos num saco, para mais tarde jogar pela janela.

Depois desse ano (1969 talvez), preciso dar um salto no tempo a fim de lembrar da outra ocasião carnavalesca. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos e, provavelmente motivado pelos amiguinhos da rua (animados em brincar o Carnaval num clube próximo), eu e meu irmão resolvemos nos fantasiar de bate-bola (ou clóvis, como preferem os paulistas). Escondido atrás de uma máscara assustadora, desta vez nem me importei em fazer “par de jarros” com meu irmão. Sim, foi minha mãe quem comprou os tecidos que minha avó transformou em fantasias. Metade de corpo em cetim preto, a outra metade em vermelho, alternadamente. Apesar de não termos tirado fotografias, este dia está mais nítido na minha lembrança: cobertos da cabeça aos pés, segurando fedorentas bexigas, eu e meu irmão saímos à rua achando engraçado que ninguém nos reconhecesse. Mas no clube, tudo foi muito diferente (pelo menos para mim). Se a tarde já estava naturalmente quente, dentro do salão parecíamos no interior de uma fornalha, repleta de crianças desesperadas em se divertir. Eu, mesmo ainda imóvel, transpirava absurdamente. Assim que a música começou a tocar, a criançada se atirou no meio do salão formando uma roda que se movimentava freneticamente. Eu me lembro bem de ter visto aquela cena patética e não ter acreditado: “Mas o que significa isso?”, indaguei, perplexo, para minha mãe. “Ué, as crianças estão pulando Carnaval! Não foi pra isso que a gente veio aqui?”, disse ela a única resposta possível. Não sei ao certo o que eu esperava encontrar num baile de Carnaval, mas aquela correria em bando me parecia a coisa mais sem sentido e sem graça que eu já havia presenciado. “Vai lá, vai brincar também!”, incentivou minha mãe, vendo que meu irmão se divertia no meio da multidão infantil. Eu fui, nem sei por que, mas fui. Não dei mais que duas voltas. A fantasia comprida e quente grudava no corpo banhado de suor; a máscara plástica, com abertura apenas no lugar dos olhos, sufocava; as outras crianças empurravam, pisavam-me os pés… em suma, um verdadeiro inferno para o qual eu estava dignamente trajado. Tudo, menos diversão. Decidido a não compactuar com aquela pantomima ridícula, voltei para a mesa na qual estava minha mãe e armei uma tromba gigantesca, esperando ansiosamente a hora de voltarmos para casa. Diferente de mim, meu irmão se divertiu (ou seja lá que nome tenha) a tarde inteira. Depois disso, nunca mais eu quis saber do tal Carnaval.

Não posso dizer que minha completa aversão à folia se deva exatamente a um trauma de infância, mas reconheço que em criança não tive muito sucesso neste quesito. Eu até poderia ter tentado dissipar essa imagem algum tempo depois, mas nunca senti a necessidade que parece vitimar os foliões típicos — e depois, pra quê insistir naquilo? O Carnaval pode até ser a maior festa nacional, a festa do povo, mas para mim é cada vez mais sem graça e sem nexo, já que não vejo motivo algum para festejos, o que vejo quase sempre é alienação — mas as pessoas devem ter direito a isso (sei que sou exceção). Enfim, já terminou. E o ano de 2008 já pode finalmente começar aqui no Brasil.

férias

Isso mesmo: vou tirar férias do blog para poder me dedicar exclusivamente ao trabalho que estou fazendo — e que deve durar até fevereiro.
Não, eu não escrevo vários posts por semana, apenas um, mas isso (quando tenho algum assunto relevante) é algo que exige tempo não só para escrever, bem como para revisar o texto. Podem me chamar de exagerado, mas tudo o que costumo “assinar” tem de ficar da melhor forma possível. Afinal, com a idade estou cada vez mais exigente, sobretudo comigo mesmo — o que não quer dizer que eu sempre tenha êxito nos meus intentos. Além disso, manter um blog — pelo menos para mim — significa também responder os comentários e visitar os blogs dos “comentaristas”, o que também toma tempo — ainda que eu tenha poucos visitantes que comentam (a propósito, prefiro qualidade).
Para completar, estamos no tal fim de ano, em que Natal e Ano Novo sempre ocupam todos os espaços — mesmo quando não o desejamos (e eu nunca o desejo!).
Assim, tirarei férias virtuais, pois na vida real estarei bastante ocupado.
Se tudo correr como estou prevendo, devo voltar em fevereiro.
Até lá!

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Hoje faz um ano que comecei a escrever este blog. Por vezes me parece pouco tempo, por vezes, muito. Até hoje não descobri exatamente a finalidade desta escrita, mas talvez não seja necessariamente importante saber tudo o que fazemos, ou conferir um significado definido a alguns de nossos atos. O que sei é que, de algum modo, como já disse no primeiro post, manter um blog não deixa de ser uma forma de existir — ainda que essa existência não seja “genuinamente verdadeira” como gostariam alguns (eu, inclusive).
É verdade que muito freqüentemente experimento a sensação de que este blog é não apenas bastante inútil, como também um tanto patético, mas existem tantas inutilidades patéticas espalhadas pelo mundo!… uma a mais, uma a menos não fará a menor diferença.
Nestes 365 dias escrevi e publiquei 53 posts, recebi 523 comentários e tive 16.512 visitas. E o que isso significa? Muita coisa e nada ao mesmo tempo. Meros dados estatísticos, mas que também representam gente que leu meus textos, que se deu ao trabalho de elaborar um comentário, e que muitas vezes voltou para ler o que eu escrevi sobre os comentários deixados. Sinal de que alguma coisa aqui “funciona” a ponto de atrair leitores fiéis, ainda que muitos nada comentem. Acho tão estranho quanto fascinante essa idéia de “conquistar” a atenção do outro: para mim, de certa forma, não deixa de ser um tanto “assustador” (que outra palavra?) saber-me motivo de “interesse” de outrem, pois de algum modo estabelece-se uma espécie de compromisso que devo honrar, expectativas que não devo decepcionar. É claro que estou exagerando — nada precisa ser realmente tão “sério” quanto dou a entender —, mas tenho essa tendência quando me sinto alvo de atenções. Por outro lado, minha expectativa e interesse por outras pessoas (ou blogueiros) — e a maioria eu sequer conheço pessoalmente —, também acontece. Só que diferentemente do que costumo imaginar para mim (uma falsa impressão?), procuro ser totalmente condescendente com o outro: afinal, as pessoas precisam ter liberdade para fazer o que bem entendem com suas vidas — e seus blogs, por conseguinte.
De uns tempos pra cá não tenho me empenhado muito em “descobrir” novas pessoas e novos blogs, e sinto que o mesmo se dá em ordem inversa (alguma lei da blogosfera? — provavelmente). No fundo, isso não me incomoda: os poucos “comentaristas” que cativei não só me satisfazem, como despertam minha curiosidade — ainda que minhas visitas não sejam tão assíduas quanto eu gostaria. Acho interessante as pessoas que têm — como direi? — “compulsão” pela escrita, e publicam vários textos por semana. Tenho mesmo certa admiração por quem consegue se expressar com tal freqüência (desde que haja conteúdo, claro), mas não é o meu caso. Não querendo desmerecer os dotados de eloqüência, talvez eu possa dizer que já superei essa fase — e não vai nisso nenhuma pitada de pretensão de minha parte. Se uma das reais intenções do meu blog é fazer com que eu exista (ou me sinta existir), uma vez por semana é um intervalo de tempo bastante razoável para marcar minha presença neste espaço virtual repleto de palavras que podem não me traduzir fielmente, mas que me simbolizam de vários modos.

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Ganhei minha primeira câmera fotográfica em 1970. Ainda que não me lembre, acredito que devo ter manifestado algum interesse pelo hobby desde cedo, pois minha mãe não compraria a máquina desnecessariamente. Na verdade, a câmera — um trambolho de plástico preto da marca Tuka — pertencia a mim e ao meu irmão, mas como ele nunca teve muito interesse pela máquina e pelas fotos feitas com ela, eu a considerava como somente minha. Evidente que aos 7 anos minhas fotografias se resumiam a um monte de imagens tremidas e cheias de dedos esquecidos na frente da lente, mas eu me lembro de achar a experiência bastante divertida — algumas dessas fotos existem até hoje, e me fazem rir um bocado quando as revejo.

Algum tempo depois, “evoluímos” para uma câmera Xereta, bem mais compacta e fácil de operar — a máquina anterior tinha um enorme botão vermelho tão duro de apertar que era praticamente impossível não fazer a câmera tremer na hora do clique. É claro que as imagens produzidas Xereta não tinham boa qualidade, mas as fotos, quando comparadas com as da outra máquina, pareciam muito superiores. As imagens tremidas e com dedos aparecendo inadvertidamente foram diminuindo à medida que eu praticava, mas, na época, eu não tinha nenhuma pretensão além de me divertir registrando momentos que considerava interessantes (mesmo que não o fossem de fato).

Durante toda a minha adolescência a tal câmera Xereta satisfez plenamente meus “desejos fotográficos”. Aliás, eu sequer imaginava que existissem câmeras com mais recursos e que produzissem fotos melhores. Quer dizer, eu sabia que existia equipamento profissional, mas sabia também que aquilo não era para mim, pois devia ser tudo caríssimo.

Só na faculdade, observando as fotos de alguns amigos de turma, “descobri” que minhas fotos não tinham qualidade alguma. Fiquei sabendo também que havia câmeras razoáveis que não custavam uma fortuna. Em todo caso, na época, não pensei em comprar uma câmera nova. Inclusive, tive a audácia de ilustrar um trabalho sobre botânica feito com minha Xereta, com a qual, aliás, fiz fotos bem mais bonitas do que alguns alunos que tinham “equipamento”. Com essa episódio aprendi uma coisa que considero muito importante: é inútil ter uma boa câmera se o “fotógrafo” não tiver um bom olhar. Minhas fotos tiradas no jardim botânico agradaram tanto que houve até quem me pedisse emprestado os negativos.

Depois disso ainda fiz muitas fotos com a Xereta, mas, pouco a pouco, fui me rendendo aos encantos da Canon de uma amiga, que vivia me emprestando a câmera. E eu me deliciava com as fotos “incríveis” que a máquina proporcionava — de uma nitidez espantosa! Eu não podia mais ignorar que tudo sempre fica obsoleto em certo momento. Não dava mais para continuar com uma “camerazinha” sabendo da existência de algo incomparavelmente melhor. Eu precisava ter um daqueles objetos maravilhosos com os quais era possível registrar belezas.

Mas demorou até que houvesse um motivo forte o bastaste para justificar a compra de uma câmera mais, digamos, “profissional”. Só pouco antes da minha primeira viagem a Europa, em 1995, decidi que valia a pena ter uma máquina com mais recursos. Assim comprei uma Zenit 12XP, que não era tão boa quanto outras marcas, mas era infinitamente melhor que a Xereta — e tinha um preço que eu podia pagar. Foi bom eu ter podido usar a máquina da minha amiga emprestada, pois isso tornou menos complicado o manejo da minha nova câmera analógica. Bom também ter me formado na Escola de Belas Artes, pois isso me dava um “conhecimento estético” que eu podia aplicar facilmente às minhas experiências fotográficas. Nos dois meses que passei na Europa não houve um só dia em que eu não tivesse tirado uma foto — resultado: mais de 1500 imagens (numa época em que isso significava uma grande quantidade). Foi uma experiência duplamente interessante: poder visitar lugares que eu só conhecia através de fotos, e fazer eu mesmo o registro das cenas que considerava significativas. Evidente que muitas imagens não ficaram boas, já que, nesse tempo, a gente só sabia ao certo o resultado do clique depois de revelado o filme, mas considerei cerca de 1000 fotos dignas de preencherem os álbuns que acabei montando quando voltei.

Minha Zenit me satisfez plenamente durante 10 anos, mas como tudo fica obsoleto, em 2005 comprei minha primeira câmera digital, uma Sony Cybershot DSC-P200 (que, dadas as devidas proporções, não deixava de ser uma espécie de “Xereta” dos tempos modernos — já que é compacta e bastante simples de manusear — só que com imagens de boa qualidade). Eu deveria ter comprado uma câmera digital com mais recursos (como a minha antiga analógica), mas pensei que me familiarizar com uma “câmera simples” talvez fosse interessante antes disso — e depois, as máquinas profissionais são, evidentemente, muito mais caras que as “Xeretas modernas”.

Não me decepcionei. Ao contrário, fiquei surpreso com os resultados que obtive desde os primeiros cliques. Tudo tão prático! — o modo automático faz todos os ajustes necessários. A praticidade (e economia!) em poder observar o que se fotografou imediatamente após o clique me estimulou a tentar novos experimentos, inserindo fundos de cor e usando fontes de luz complementares a fim de que meus “modelos” (flores, frutas, objetos…) tivessem seus melhores ângulos ressaltados. Tudo isso muito “improvisado”, feito com papel colorido e luminárias baratas utilizando o assento e o encosto sofá como suportes. Achei tão interessante o resultado das minhas experiências que me animei a publicá-las no Flickr. Minhas fotos não demoraram a ter boa aceitação, ainda que todos ali, de certo modo, estejam no mesmo barco. Mas quando a gente começa a receber gratuitamente elogios de pessoas experientes — e com trabalhos belíssimos — creio que algum valor deve ter sido percebido. Alguns amigos pessoais também gostaram do que andei fotografando, e perguntaram por que eu não tentava fazer contato com bancos de imagem. Sinceramente, eu nunca havia pensado nas minhas fotos em termos comerciais — eram apenas meus experimentos, nada mais —, e estava certo de que não sendo profissional e não tendo equipamento meus “estudos” não tinham a menor chance de interessar a um banco de imagem. Mas o que custava tentar? O máximo que poderia acontecer era me dizerem “não”. Enviei e-mails a 3 bancos de imagem nacionais dizendo que se algumas de minhas fotos lhes interessassem eu gostaria de comercializá-las. Apenas um me respondeu, informando que apesar de ter gostado muito do meu trabalho eles não viam como encaixar minhas fotos no acervo da empresa (mais voltado para temas como: turismo, tecnologia, pessoas…). Acrescentaram que se eu fizesse fotos explorando os temas do acervo talvez até eles aceitassem algumas. Nada contra temas específicos, mas eu queria continuar fotografando os temas que me agradam e com os quais me sinto familiarizado, coisas simples e que não exigem grandes produções ou equipamento. É claro que eu gostaria de viajar fazendo fotos que pudessem se enquadrar na categoria “turismo”, mas isso exigiria um investimento fora de questão para mim. Desse modo, não pensei mais no assunto e continuei fazendo fotos por prazer.

Curiosamente, pouco tempo depois do episódio dos bancos de imagem nacionais, recebi o e-mail de um banco de imagens espanhol. Eles haviam visto minhas fotos no Flickr, e queriam saber se eu não estaria interessado em ser um dos fotógrafos colaboradores deles, pois tinham achado meu trabajo fotográfico muy interesante. Surpreso com o convite, com o elogio e também por ser o primeiro brasileiro a integrar a equipe de espanhóis aceitei, lisonjeado, a proposta. Assim, desde setembro de 2007 estou dispondo minhas fotos (ou experiências) no acervo do Banco de Imágenes de Andalucia, que, pelo visto, pretende ampliar os horizontes muito além da bela região espanhola. Esta é a minha mais nova vertente de “carreira internacional”. Não sei ainda no que isso vai dar, mas não deixa de ser muy interesante (pelo menos para mim) ter meu trabalho, de certo modo, “reconhecido” internacionalmente.

Para ver minhas fotos em Andalucia Imagen clique no banner abaixo:


Banco de imágenes

Às vezes eu gostaria de não ser tão observador.
Às vezes eu gostaria de não ter uma memória tão seletiva.
Às vezes eu gostaria de ser mais paciente (comigo e com os outros).
Às vezes eu gostaria de não ser tão exigente (com os outros e comigo).
Às vezes eu gostaria de não pensar tanto.

[Aqui entrava todo um discurso explicativo/justificativo, que censurei, pois parecia mais destinado a mim mesmo do que a qualquer outro.]

Talvez, se esses desejos não me assaltassem apenas às vezes eles já não me incomodariam: se fossem um peso esmagador eu já teria dado um jeito de me livrar da carga, ou teria sucumbido a ela.

Sou alguém desconfiado por natureza. Mas não considero minha desconfiança como uma espécie de defeito — ao contrário, creio que ela talvez funcione bem mais como “instinto de preservação”. Isso não significa que eu desconfie de tudo e de todos. Só costumo ter tal atitude diante de situações ou pessoas que, num primeiro momento, me pareçam suspeitas (ainda que não o sejam de fato). Toda esta introdução para comentar — na falta de algo mais relevante para publicar aqui — a estranheza que certas pessoas me causam (principalmente se forem desconhecidas, e “desconfiáveis”, por conseguinte). É claro que isso não chega a me afetar, mas sempre fico impressionado com os expedientes dos quais alguns se valem para um provável tête-à-tête em busca (ou em troca) sabe-se lá do quê. Não me considero, digamos, “vítima” deste tipo de situação/pessoas, mas admito que esses episódios acontecem com uma freqüência bem maior do que eu gostaria. A seguir, dois casos (ou exemplos) relativamente recentes:

Há alguns meses, por causa das minhas fotos no Flickr, recebi uma mensagem de um homem que dizia ter acabado de ver minhas imagens e tinha grande interesse em saber o que estava fazendo profissionalmente. Disse ter lido que eu era fluente em francês e queria saber se eu falava inglês também. Além disso, perguntou que países além do Brasil eu conhecia, e terminou o e-mail indagando se eu não aceitaria tomar um café para conversarmos. A princípio, já desconfiado, acreditei que o contato talvez fosse de ordem profissional, mas a abordagem me soou tão estranha (e nada profissional), que respondi a mensagem comentando algumas coisas vagamente e perguntando qual o real interesse do sujeito nas tais informações — afinal, ele devia ter sido mais claro e objetivo, já que eu teria que responder o que me perguntava sem a menor noção do assunto em questão. Eu não tinha vontade alguma de tomar café com um total desconhecido a fim de conversar sobre algo que eu ignorava inteiramente. Recebi uma resposta num tom que classifiquei como “ressentido”, na qual o fulano me perguntava se eu tinha disponibilidade para fazer uma viagem pelo sudeste asiático fotografando pessoas, tecidos, padronagens, cores… Disse ele que havia trabalhado mais de 20 anos na empresa X e vivera muitos anos nos EUA e na Tailândia, onde mantinha sua residência oficial. Terminava a mensagem perguntando se havia esclarecido minhas dúvidas. Se o tal sujeito estivesse mesmo dizendo a verdade, por que não foi direto desde o início? Isso evitaria minhas desconfianças (e dúvidas), bem como que perdêssemos tempo num encontro que teria sido em vão — já que, além de não falar inglês, não disponho de equipamento fotográfico para uma empreitada de tal dimensão. Respondi que, ainda que o tal projeto me soasse um tanto vago, lamentavelmente eu não me sentia capacitado para tanto — aleguei os motivos citados acima. Terminei agradecendo o interesse e a oferta. E o fulano não voltou a me escrever.

Mais recentemente, no fim do mês retrasado, recebi o e-mail de uma moça que havia visitado meu outro blog e se dizia apaixonada pelas estampas que desenho. Informou que estava criando uma linha de produtos e gostaria muito de usar minhas padronagens no trabalho. Queria saber se poderíamos conversar a respeito. Desta vez não fiquei desconfiado, pois a moça fornecia o link para seu site/portfolio, bem como o telefone para contato — inclusive achei o trabalho dela bem interessante. Respondi agradecendo os elogios e dizendo que poderíamos, sim, conversar sobre o assunto. Mas antes eu gostaria de saber de que forma ela pretendia usar minhas estampas, já que isso não havia ficado claro. Ela me respondeu que ainda estava no começo do tal trabalho, e como eu também morava no Rio, perguntou se não podíamos nos encontrar pessoalmente para conversar. Então fiquei desconfiado. Por que, se ambos moramos na mesma cidade, a moça não optou por me telefonar antes a fim de explicar melhor do que se tratava o trabalho, até para saber se realmente minhas estampas serviriam ao projeto? Respondi que, na verdade, eu não via problema em marcar um encontro, mas achava melhor, antes disso nos falarmos por telefone. Expliquei que eu fazia apenas os desenhos (artes) e não tinha nenhum envolvimento com a produção/impressão de tecidos. Depois disso, a tal moça não me escreveu mais. Das duas, uma: ou ela estava com segundas intenções (o que acho muito pouco provável), ou viu que meus desenhos não serviriam para seu trabalho por não estarem impressos em tecidos. O mais estranho é que como não me respondeu até hoje — ainda o fará? — fiquei sem saber o que ela realmente pretendia. O que me parece certo é que, se os objetivos fossem mesmo profissionais, nosso encontro teria sido uma total perda de tempo, para ambos.

Não posso assegurar que — apesar da abordagem duvidosa — as intenções destas duas pessoas não fossem estritamente profissionais, mas essa “ânsia” por um encontro sem explicar o que pretendem e sem saber se poderei atendê-los me parece um legítimo despropósito — sem contar o caráter dúbio que fica no ar (pelo menos para mim, “o” desconfiado). Estranho também a ausência de um simples agradecimento depois de minhas explicações — seria uma atitude tão educada quanto profissional. Não sei como os outros resolvem suas questões de trabalho, mas eu levo meu ofício extremamente a sério e procuro, antes de tudo, fornecer e obter todas as informações possíveis a fim de não perder meu tempo e não desperdiçar o do provável cliente também. Serei exigente — ou desconfiado — demais?

café

Desde muito pequeno sempre gostei de tomar café. Se não estou enganado, devo ter começado tal “hábito” por volta dos 6 ou 7 anos, quando enchia um copo até quase a boca de café preto sem um pingo de leite e sorvia-o com prazer enquanto mastigava pão com manteiga. Nunca fui muito apreciador de leite — ao contrário do meu irmão, que enchia o copo quase até a boca do líquido branco sem um pingo de café (que ele sempre detestou) e sorvia-o com semelhante satisfação. Por conta dessa particularidade — eu só gostar de café e meu irmão só gostar de leite — os adultos atribuíam (brincando, claro) a tal gosto o fato de eu ser moreno e meu irmão ser loiro. Ainda criança, durante algum tempo acreditei mesmo nessa possibilidade.

Mas nunca fui um apreciador compulsivo de café, e jamais, em momento algum desde que comecei a tomá-lo, senti qualquer espécie de necessidade urgente quando privado da bebida por certos períodos. Aliás, depois da “descoberta” do mate, quando adolescente, o café praticamente caiu no esquecimento — já que o mate gelado parecia combinar bem mais com o calor inclemente que faz no Rio. Além disso, após da “descoberta” do chá, um pouco mais tarde, o café foi relegado a ocasiões bastante esporádicas — eu poderia mesmo dizer quase inexistentes.

Mais de 30 anos se passaram, e, pouco a pouco, o café foi reconquistando seu lugar na minha vida. Com o tempo, acabei adotando uma prática que não só me satisfaz como agrada plenamente: no verão, mate ou chá gelado; no inverno (ou no que deveria sê-lo), café puro ou café com leite — incluindo cappuccino e cia — e também chá quente. Assim, alternando bebidas geladas e quentes e variando pães, queijos e geléias, a “hora do café” sempre me pareceu um dos momentos mais agradáveis do meu dia.

Recentemente, aproveitando a temperatura mais amena que deveria corresponder ao inverno, achei que já estava na hora de voltar a tomar café. Querendo ser prático — e também para obter um café com leite menos aguado —, me ocorreu misturar café solúvel ao leite. Aliás, eu já havia usado essa “técnica” anteriormente e tudo me pareceu bastante satisfatório. É certo que os puristas (e/ou baristas) não considerem café solúvel como CAFÉ propriamente dito, mas nunca fui muito exigente neste aspecto: basta ter aroma e gosto de café que já fico contente.

Só que desta vez algo inusitado aconteceu. Depois de um curto tempo fazendo uso do café solúvel — a mesma marca que sempre consumi — no leite, e também do chá quente, alternadamente, não demorei a constatar uma coisa muito estranha: os dias em que eu tomava chá eram sucedidos por manhãs de intensa dor de cabeça — dores sem explicação alguma, e que passavam imediatamente quando eu tomava café (e nem precisava ser café solúvel). Tão surpreso quanto intrigado, fiz e refiz o “teste”: nos dias em que tomei café, as manhãs seguintes foram normais, sem dor de cabeça alguma; nos dias em que tomei chá, dores fortíssimas pela manhã. Jamais pensei que tal coisa fosse possível, pior ainda: que eu seria vítima dessa estranheza. A menos que uma incrível coincidência esteja acontecendo juntamente com o “teste” (coincidência que me parece inconcebível), atribuo ao café solúvel este episódio desagradável. O mais estranho é que sempre consumi a mesma marca do tal café e isso nunca havia acontecido — uma marca supostamente bastante confiável, tradicional e respeitável. Terão mudado a fórmula do… café? Terão incluído algum novo componente ao produto? — o rótulo não informa nada além de “não contém glúten”. Alguém já ouviu falar em algo parecido com essa espécie de dependência?

Na verdade, não me sinto realmente “dependente” do café solúvel, mas como não gosto de acordar pela manhã com a cabeça latejando terrivelmente e parecendo pesar mil toneladas, admito que tenho procurado fazer uso dele na parte da tarde. Venho mudando gradativamente para o café não solúvel — já que ele parece surtir o mesmo efeito “preventivo” —, a fim de ver se me livro do inconveniente. Se alguém souber de um “antídoto” ficarei imensamente grato.

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