Minha relação com os livros já foi bem mais intensa, admito. Leio bem menos livros hoje do que antes — ou pelo menos é esta a impressão que tenho.

Jamais sonhei com uma biblioteca repleta, estantes e mais estantes revestindo paredes sem conta — nem se eu tivesse uma casa grande o bastante desejaria tal coisa. Isso não significa que eu não tenha apego/apreço aos livros, pelo contrário. Na verdade, minha “biblioteca” se restringe a uma modesta estante baixa com 3 prateleiras apenas. Todos os meus livros queridos (até agora) cabem neste espaço — sejam perfilados na vertical ou acomodados na horizontal. É fato, não são muitos: basicamente romances, sobretudo estrangeiros (na maioria franceses). Há também alguns dicionários, e muitos guias de viagem, relíquias de um tempo em que eu ainda podia me dar ao luxo de fazer uso deles.

É claro que, sempre que possível, compro livros (ou recebo alguns de presente), mas nem todos permanecem por muito tempo na minha estante, a não ser que eu goste muito deles — o que tem acontecido raramente. Assim sendo, alguns exemplares vão ficando empilhados nas bordas livres das prateleiras até a época do ano em que costumo fazer doações para bibliotecas públicas. E minha estante volta à sua configuração original, ou quase. Mas também tenho uma mania curiosa: livros que li emprestado e que gostei, se eu encontrar um exemplar num sebo, não hesito: compro-o — pelo simples prazer de possuí-lo, e também “completar” minha coleção. Neste caso, não me importa tanto o estado do livro. Evidente que quanto mais novo melhor, mas se ele estiver desgastado não faz mal: eu também gosto de “restauração”. E limpo folha por folha, lustro a capa, conserto a lombada, encapo com papel marmorizado… Ou seja, os livros não são, para mim, apenas um punhado de textos ordenados em páginas presas em capas com a mera finalidade de leitura, eles são também “objetos estéticos”.

Livros antigos me seduzem de uma forma que não sei explicar muito bem. Parece-me que eles não contam apenas uma história, mas possuem, eles mesmos, sua própria história. Já comprei em sebos livros marcados do começo ao fim, sublinhados, com anotações… isso não me incomoda muito: às vezes acho até interessante ver o que o leitor anterior assinalou. Eu também faço isso nos meus: marco, sempre a lápis, as passagens que me tocaram de algum modo. Não considero isso uma espécie de mácula, mas uma forma de personalizar um objeto que me pertence e com o qual me relacionei intimamente. Vez por outra, gosto de folhear livros que já li há algum tempo e encontrar os trechos que marquei outrora: é interessante observar como a gente muda (ou não) com o passar dos anos.

Pode até parecer paradoxal, mas não sou fã de bibliotecas. Sem dúvida, elas têm um papel importantíssimo para os que não podem comprar livros (e fundamental para pesquisadores), mas não me sinto à vontade para me relacionar diretamente com um livro que não me pertence. Os que leio emprestado são tratados com um cuidado mil vezes superior ao que tenho com os meus, e quase sempre são lidos às pressas para que sejam logo devolvidos. Eu sei, sou meio paranóico neste quesito, mas prefiro que seja assim. Quanto a mim, só empresto alguns dos meus livros a pessoas altamente confiáveis, e sempre sei quem está com os que foram emprestados.

Eu gostaria de poder ler mais. No fundo, eu poderia me organizar para tanto, mas não tenho encontrado muitos livros dignos de leitura. Não que muitos deles não sejam bons (alguns não são mesmo), mas acredito que seja necessária certa empatia com o texto para atravessar a espessura das páginas com satisfação. Posso também estar numa fase de pouca sorte em achar boa literatura (para os meus critérios) ou talvez tenha me tornado demasiado exigente com o passar do tempo… O que sei é que, para mim, hoje em dia, a leitura precisa ser obrigatoriamente prazerosa de algum modo — no caso de literatura. Do contrário, prefiro dedicar meu tempo a outros prazeres.

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