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Sempre achei estranho o fato de a maioria das mulheres esconder a idade. Mais estranho ainda as que mentem sobre isso. E não menos estranha a regra de etiqueta que considera deselegante, proibitivo até, indagar a idade de uma mulher — claro que perguntar tal coisa sem nenhum motivo não faz sentido, mas se há uma razão em sabê-lo deve ser porque a resposta é relevante. Fiquei pensando quando teria surgido essa “necessidade” de ocultar o tempo de vida, e também a finalidade disso. Idéia de um homem ou de uma mulher? Um hábito antigo que perdura até hoje?

Tenho impressão de que a estratégia da mulher em não revelar a idade deve estar associada ao receio de parecer velha. Vergonha por não ser (mais) jovem? Desprezo pela velhice? De fato, a sociedade ocidental parece valorizar cada vez mais a juventude, como se apenas ela importasse — o que me parece um equívoco —, e é verdade também que o preconceito contra os velhos existe. Vergonha e desprezo justificados? Evidente que os jovens contam, e muito, nos tempos atuais, mas os maduros, idosos e crianças também contam! Acredito no ser humano como uma espécie de plural — plural que se desdobra também cronologicamente. Por isso, não vejo demérito algum em não ser (mais) jovem; ao contrário: a maturidade, quase sempre, faz com que quem a experimente se sinta mais seguro de si, mais ciente de quem realmente é. Tudo bem, este é o ponto de vista de um homem maduro — eu —, mas por que para as mulheres (ou para a maioria delas) parece tão difícil se convencer disso? Ou estão convencidas mas se “submetem”, sem pensar muito, a uma regra(?) esquisita sob pena de não parecerem “normais”?

Nada contra as mulheres que escondam ou mintam a idade, que fique claro — afinal, acredito que as pessoas devem ter liberdade para fazer aquilo que querem (por mais estranho que pareça). Mas tenho uma admiração especial pelas mulheres que não se deixam encerrar nessas normas criadas sabe-se lá por quem e com que propósito.

Posso até estar enganado na minha ignorância sobre o tema — por isso, e por conta do meu “público” essencialmente feminino, o abordo aqui —, mas fico sempre com a sensação de que negar a idade é negar a si mesmo; mentir sobre ela é mentir para si próprio. E quem se beneficia com essa negação, com essa mentira? A própria mulher? Os homens? As outras mulheres? Não tenho a mais pálida idéia. O que me parece certo é que nem sempre essa tática surte o efeito desejado, já que ao ocultar a idade a mulher pode parecer mais velha do que realmente é aos olhos dos outros — já vi isso acontecer várias vezes.

O conceito de velhice, ao que me consta, vem se transformando ao longo dos anos. Atualmente, uma mulher de 40 anos não pode mais ser considerada necessariamente uma velha — o que era muito comum nos anos 50 ou 60 do século passado. Não apenas o arsenal cosmético evoluiu muito nos últimos tempos, bem como a própria idéia de idade se modificou. Não sei se essas mudanças visam deliberadamente aproximar a maturidade da juventude, o fato é que não é muito complicado hoje, para uma pessoa madura, sobretudo uma mulher, aparentar jovialidade, muito naturalmente — mesmo sem lançar mão do botox e de outros artificialismos pesados (ainda que, quando bem utilizados, eles tenham valor). Para quem já não é mais tão jovem não há mal algum em se cuidar, em desejar uma aparência agradável, desde que a mente funcione como a de alguém maduro (compatível com a idade cronológica), pois não há nada mais ridículo do que pessoas — mulheres e homens — que se comportam como jovens acreditando assim transformarem-se num deles. Isso nunca dá muito certo, e a caricatura grotesca na qual tal incauto se converte sempre é motivo de riso, pena ou constrangimento — também já vi isso acontecer diversas vezes.

Sábado passado, lendo um artigo no jornal sobre uma escritora estreante fiquei intrigado com este trecho: “A mais nova autora tem em torno de 30 anos (ela não diz a idade, não quer parecer nova hoje, nem velha daqui a alguns anos)…” O que será que a moça quer parecer afinal? Com alguém sem idade, suponho — alguém que não existe! Curiosamente, a jovem escritora parece desprezar a juventude tanto quanto a velhice. Quanta estranheza!…

Não compreendo ainda o que leva as mulheres (ou a maioria delas) a considerarem a idade como uma espécie de tabu, mas penso que este post, e os comentários sobre ele, talvez me ajudem a entender um pouco melhor a questão.

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