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Meu pai morreu.
Quando soubemos disso, cerca de três anos haviam se passado. Não chorei, nem fiquei triste. Mas tive pena: o corpo foi encontrado junto ao meio-fio, parte na rua, parte na calçada. Como não sabiam de quem se tratava, e como ninguém apareceu procurando por ele, levaram o cadáver para o IML. Por um triz não foi enterrado como indigente. Um amigo lembrou à família de meu pai — a esta altura mais do que preocupada com seu desaparecimento — a procurar, além dos hospitais, nos lugares em que não ousavam arriscar. Assim, o morto teve um sepultamento simples, mas decente.

Meus pais se separaram quando eu ainda era bem pequeno. Lembro vagamente de uma briga feia: gritos, choro, minha mãe ferida, minha avó assustada. Na época, eu não entendia direito porque aquilo acontecia — e ninguém parecia disposto a falar no problema. Com o tempo descobri o óbvio: meu pai bebia, perdia o emprego, se descontrolava, batia na mulher dele.
Com o desquite, eu e meu irmão mais novo ficamos sob a guarda de nossa mãe — que trabalhava e tinha condições de nos criar. Depois disso, lembro de ter visto meu pai aparecer umas poucas vezes em nossa casa nova. Eu ainda gostava dele. Sem compreender direito o motivo da separação, da ausência repentina do meu pai, depois que ele entrava para nos visitar eu trancava a porta e escondia a chave: esperança infantil de que ele não fosse embora. Mas meu pai sempre conseguia escapar. Até que um dia nunca mais apareceu.

A gente se acostuma a tudo na vida. Comigo não foi diferente. Apesar de ser apontado na escola e na rua como “filho da desquitada” (coisa ainda suspeita no fim dos anos 60), eu não me sentia triste, apenas um pouco constrangido: não conseguia entender como podia ser “feio” aos olhos dos outros minha mãe ter escolhido o melhor para ela e seus filhos. Esse constrangimento fazia com que me sentisse inferior aos meus amiguinhos: todos pareciam ter “algo maravilhoso” que eu desconhecia. Esse “desfalque” ficava mais evidente quando, na escola, chegava a época de fazermos um presente para o dia dos pais. Eu era o único a fazer um presente para minha mãe — o segundo do ano. Isso me mortificava tanto quanto os olhares de piedade dos outros coleguinhas.

Cresci e procurei esquecer os incômodos. Mudar constantemente de casa ajudava a não precisarmos dar satisfações a quem não interessava.
Cerca de 10 anos depois de seu desaparecimento, meu pai ressurgiu, como um fantasma vivo vindo do fundo do passado. Desconfortável estar na presença daquele completo estranho que dizia ter um amor imenso por mim e meu irmão. Apesar de ele parecer sincero, eu não conseguia corresponder ao sentimento que um filho normalmente teria. Meu pai começou a fazer promessas, um monte delas — parecia querer compensar a mim e meu irmão de uma só vez por todo o tempo em que nos faltara. Eu não acreditava, e não queria nada do que ele prometia: apenas coisas materiais, como se o amor tivesse necessariamente que ser representado por algo palpável, visível, mensurável. Além das promessas, fazia cobranças; exigia de mim um comportamento incompatível com minha educação, com minhas vontades. Nem tive tempo de sentir o peso do incômodo: assim como surgiu, meu pai tornou a desaparecer. Não me surpreendi; no fundo, senti até certo alívio. Não me importaria nem um pouco se nunca mais o visse. Assim aconteceu. Quando soubemos de sua morte, tive apenas a confirmação de uma realidade há muito presente em mim.
No entanto, não deixou de ser um pouco chocante conhecer as circunstâncias dessa morte estúpida. Morreu sozinho (como todos morreremos), mas também abandonado, talvez por si mesmo. Bebeu até cair, morreu na sarjeta, como um Zé-ninguém — quantos clichês…

Soube que ele havia conseguido refazer sua vida: uma nova mulher, filhos, família. Mas, infelizmente, não se curou da doença. Uma vida desperdiçada, inútil, vazia… Às vezes penso até que ponto minha adolescência indiferente não teria contribuído para a derrocada final desse estranho do qual descendo. Teria eu podido ajudá-lo de algum modo? Teria conseguido “salvá-lo”, ainda que o desejasse? Não sei. Jamais saberei.
Uma lágrima para o homem que me ajudou a vir ao mundo — apenas isso. Uma lágrima, nada mais.

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Eu pretendia publicar meus contos e relatos antigos (postados originalmente no meu blog anterior) na seção PÁGINAS deste blog. Mas como tenho a (falsa?) sensação de que os visitantes só lêem mesmo os posts — e quero que leiam meus outros textos, ainda que antigos — resolvi publicá-los aqui mesmo. Além de estarem mais “visíveis” — mesmo que somente por determinado período —, estes textos servirão para ocupar o espaço quando eu não tiver tempo, paciência, ou não souber o que publicar aqui. Eu e minhas justificativas…

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