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Embora algumas vezes certos espelhos, determinados amigos e umas poucas fotografias pareçam me desmentir, considero-me — ao menos cronologicamente falando — maduro. Um “senhor de idade”, como eu costumo dizer (brincando?). Se a maturidade ainda me causa algum estranhamento, encaro com naturalidade o fato de, com o passar dos anos, ter me tornado mais seletivo e exigente. Afinal, se a contagem regressiva se torna cada vez mais evidente não faz sentido desperdiçar um tempo que sempre nos parece insuficiente.

Após duas décadas de dedicação quase exclusiva aos escritores franceses, só depois dos 40 anos comecei a me interessar verdadeiramente por autores de outras nacionalidades. Creio que esse desejo por “novidade” surgiu quando, a fim de tentar descobrir se meu livro prestava, fiz uma oficina literária com Sérgio Sant’Anna. Preciso confessar minha total ignorância, nesta época, sobre a obra do escritor que seria meu professor na oficina. Não demorei muito a descobrir que seu trabalho era bastante respeitado pela crítica e pelo público, o que o tornava alguém renomado no panorama da literatura nacional. Isso me incomodou, e de duas formas: eu não só desconhecia os livros de Sérgio Sant’Anna bem como de TODOS os meus compatriotas contemporâneos! Impossível não me sentir, por antecipação, defasado no meio da turma que iria freqüentar. Apressei-me em procurar algo do meu futuro professor antes do início das aulas. Como queria ganhar tempo, acabei comprando o livro mais fino que encontrei: Um Crime Delicado. Fiquei imediatamente fascinado com o texto, e também muito satisfeito em saber que seria aluno de um autor que me agradava muito — o que não deixou de ser uma sorte dupla.

Considero esta oficina importantíssima não só para o meu, digamos, “lado autor”, bem como para meu lado leitor. Não sei se devido ao trauma dos tempos da escola ou por preconceito (ou mesmo por ambos), o fato é que, a exceção dos livros que li obrigado quando aluno, eu não tinha costume de ler coisa alguma de Literatura Brasileira. O que não deixava de ser uma grande incoerência, ironia até. Não que fosse “condição essencial” conhecer obras de autores nacionais para poder escrever em língua portuguesa, mas não faria mal algum saber o que esses escritores haviam produzido. No fundo, talvez o trauma de infância tenha me marcado de algum modo, já que tendo minha curiosidade sobre autores brasileiros despertada, comecei a ler apenas os livros dos meus contemporâneos, gente que está viva hoje. Ainda não me dediquei com o devido afinco à descoberta dos escritores nacionais ou então estou sendo seletivo e exigente, como mencionei no início, e não vou abrir demasiadamente esse leque. Melhor dizendo: li os livros de vários brasileiros, inclusive da minha geração (e mais novos até), mas a maioria não me agradou. E depois, eu tenho a esquisita mania de querer ler tudo, ou quase tudo, dos escritores que me agradam. Deste modo, neste âmbito, por enquanto, somente dois nomes parecem dignos de registro na minha trajetória como leitor: Sérgio Sant’Anna, de quem admiro imensamente o trabalho (e o fato de conhecê-lo pessoalmente não deve ser levado em conta neste caso); e também Edgard Telles Ribeiro, que não é muito “badalado”, mas que possui uma literatura que sempre me causa espanto, no bom sentido, claro — seu livro, O Manuscrito ainda hoje me atordoa quando nele penso.

Paralelamente, procurei descobrir também o que estava sendo (ou tinha sido) escrito em outros países — o que se prolonga até hoje. Assim, travei contato com a literatura inglesa (E.M. Forster, Stephen Splender, Ian McEwan), literatura holandesa (Margriet de Moor), literatura argentina (Ernesto Sabato, Roberto Arlt, Julio Cortázar), literatura canadense (Michel Tremblay), literatura alemã (Thomas Mann, Patrick Süskind), literatura italiana (Pier Paolo Pasolini, Italo Calvino), literatura americana (Henry Miller, Ernest Hemingway, David Leavitt, Truman Capote)… E, mais recentemente, com a literatura húngara (Sándor Márai), literatura afegã (Khaled Hosseini), literatura indiana (Thrity Umrigar) e literatura japonesa (Yukio Mishima).
É muito pouco, bem sei, mas espero ter tempo para aumentar minha lista, e descobrir algo da literatura africana (todo um continente!), turca, chinesa, portuguesa, russa… Em todo caso, como é impossível tudo ler, conhecer algum livro que nos chame a atenção e nos agrade talvez seja suficiente — mesmo quando o que foi lido não pode ser considerado como um “legítimo” representante da literatura deste ou daquele país. Isso, para mim, pouco importa. O que conta — e tem contado cada vez mais — é o impacto que a história me causa, a viagem que o texto me proporciona, as sensações que minha imaginação percebe, o desvendar de mundos e vidas que ignoro e nos quais penetro… em suma, o prazer que o livro me dá. Pois sem prazer algum (ainda que esta palavra tenha conotações muito pessoais), quando se é maduro, e, por conseguinte exigente e seletivo, não faz sentido desperdiçar o tempo que nos resta com o que não vale a pena.

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