Como eu disse aqui, não fui uma criança leitora, lia somente os livros que o colégio obrigava — aliás, fiquei até traumatizado por conta do sistema de (des)estímulo empregado nas escolas que freqüentei nos anos 70. Entretanto, minha infância quase sem livros e o trauma escolar não foram entraves para que, mais tarde, eu viesse a me interessar espontaneamente pela leitura. Tudo acabou sendo desencadeado quando eu já estava na universidade.

No início dos anos 80, na Escola de Belas Artes (UFRJ) a maioria dos livros que precisávamos usar nos trabalhos estava escrita em francês. Isso não chegava a ser uma “dificuldade” quando havia no grupo alguém que soubesse o idioma, mas nem sempre se podia contar com tal sorte. Provavelmente pensando nisso, a própria universidade oferecia um curso denominado “francês instrumental”: noções básicas que permitiriam aos alunos compreenderem os textos dos referidos livros de arte. Tendo que cursar matérias eletivas, acabei me decidindo pelo estudo da língua que supostamente me libertaria da necessidade de recorrer a outros alunos — e ainda poderia, quem sabe, me abrir novos horizontes. Não me arrependi. Na verdade, foi uma das melhores coisas que fiz na vida (se eu levar em conta tudo o que acabou decorrendo a partir dessa escolha).

Gostei tanto de aprender francês — para mim, infinitamente mais fácil do que o inglês — que depois dos dois períodos de seis meses na faculdade me matriculei num curso convencional, perto de casa. No ano seguinte, orientado e estimulado por meu professor, mudei para a Alliance Française — que ele assegurava ter mais recursos que o modesto curso que eu seguia. Meu professor não mentiu, e fiquei bastante satisfeito com a troca. Tudo isso para dizer que foi através das aulas na Alliance, e dos fragmentos de texto nelas apresentados, que comecei a me interessar novamente pela leitura. Minha identificação com certos textos e autores foi tão imediata que eu queria saber mais, não só sobre os escritos, mas também sobre as vidas deles.

Assim, já com mais de 20 anos, travei contato com Gide, Camus, Beauvoir, Sartre, Yourcenar, Duras, Sagan… Curioso em ler mais do que os trechos usados em sala de aula, comecei a procurar pelos livros desses autores — o que não foi difícil. André Gide foi o primeiro a quem me “dediquei”, já que, na época, seus livros (traduzidos) eram facilmente encontrados em qualquer livraria. Devorei, deliciado, praticamente toda a obra do autor, e posso dizer sem exagero algum que um mundo completamente novo se abriu diante de mim. É difícil explicar o prazer que descobri com uma leitura que parecia me dizer respeito, que parecia escrita para mim, e que tanto me agradava. Não sei dizer se pelos temas ou pela forma, mas o arrebatamento foi de tal ordem que me surpreendi por ter ficado tanto tempo longe dos livros. Quanto tempo perdido!, pensava estupefato. Mas eu estava disposto não a recuperá-lo (já que o tempo perdido é sempre irrecuperável), mas a aproveitar o que tinha pela frente com essa forma de prazer única. Aos poucos, fui destinando meu tempo livre a “descobrir” os outros autores que haviam me despertado interesse nas aulas de francês: por sorte, eles e seus livros eram tão numerosos que eu me sentia diante de uma fonte inesgotável de palavras e idéias. E matei minha sede. Li tudo o que encontrei com a avidez de quem tinha os dias contados e, pouco a pouco, meus horizontes foram se expandindo de uma forma surpreendente para mim. Talvez alguns imaginem que, por conta do estímulo do idioma, limitei-me apenas aos autores franceses. É verdade que eles tiveram a prerrogativa, pois quando me interesso por um autor quero ler tudo o que ele escreveu, e tudo sobre ele também — e isso pode levar algum tempo. O fato é que durante quase duas décadas fiquei tão satisfeito com a diversidade do que li que não senti vontade de buscar escritores de outras nacionalidades — isso só aconteceria mais tarde.

Agora, nesta tentativa de retrospectiva, pode parecer até meio ridícula a forma (deslumbrada) com que relato esses acontecimento, mas a sensação — ainda hoje! — é justamente essa: a leitura, apesar de “retomada” tardiamente, mudou a minha vida. E não apenas do ponto de vista cultural, mas também em relação à forma de pensar, e de agir. Há quem diga que os livros não têm o poder de mudar as pessoas. Eu discordo: tudo depende das obras lidas e dos leitores em questão. É verdade que cada um tem uma relação muito particular com livros e autores, e nem todos reagem do mesmo modo diante das mesmas obras — afinal, o gosto pessoal também conta. O que sei é que por causa da leitura (e da literatura) acabei conseguindo “me salvar” de mim mesmo — e num sentido bastante amplo, que eu só compreenderia realmente algum tempo depois.

De uma coisa tenho certeza: nunca é tarde para começar (ou recomeçar). Por conta das experiências na escola, eu tinha tudo para ser um adulto com total aversão a livros e leituras, mas quando se tem a oportunidade de encontrar autores adequados e textos sedutores — e quando se tem também um mínimo de interesse e disposição — tal quadro pode ser significativamente alterado, para melhor, para muito melhor.

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