infância & leitura

Diferente do que possam pensar alguns, não fui uma criança que leu muito. Na verdade, quando pequeno li muitíssimo pouco, praticamente nada. Não era por falta de livros. Eles sempre existiram em quantidade considerável nas casas da minha infância, mas eu gostava bem mais de aproveitar meu tempo brincando ou desenhando — e desenhar era quase uma obsessão, já que era raro o dia em que eu não me divertia com lápis de cor e papéis.
Para “dificultar” ainda mais meu interesse pela leitura, quando criança, existiam uns disquinhos (vinil, compacto) que acompanhavam livretos de histórias que minha mãe comprava para meu irmão e eu. Assim, com nossa vitrolinha, ouvíamos as histórias e olhávamos as figuras coloridas: para quê ler com tanta praticidade?, acho que eu pensava. Em nossa estante, entre livros de “literatura”, havia também várias coleções (tipo enciclopédia), fartamente ilustradas e que me seduziam bem mais pelas imagens que pelos escritos.

Quando crescemos um pouco mais, minha mãe teve a idéia de formar uma nova coleção: Clássicos da Literatura Juvenil. Lembro de ter ficado fascinado com a idéia e a sucessão dos livros, que surgiam a cada semana. Mas o que me atraía eram as capas (cada uma de uma cor) e as ilustrações nelas usadas. E eu arrumava os livros semanalmente, às vezes por ordem numérica; em outras, por ordem cromática. Ler mesmo, só os títulos. Não sei explicar exatamente meu desinteresse pelos textos destes livros, já que as imagens me se seduziam tanto. O que sei é que nunca tive a menor vontade, ou curiosidade, de ler as páginas dos mais de 30 volumes que formavam minha coleção de clássicos. Pensando bem, acho que eu considerava “chato” ler: uma atividade tão passiva, tão inerte. Não, não fui uma criança hiperativa, longe disso, mas me lembro de gostar de algo um pouco mais “dinâmico e criativo” como desenhar, por exemplo.

Na escola (pública), não saberia precisar com exatidão quando se iniciaram as leituras obrigatórias dos livros de “literatura”. Lembro vagamente de um bem fino, O Gigante de Botas, que continha grandes ilustrações e contava a história dos bandeirantes — o primeiro que li? Lembro também de Quatro num Fusca e de Memórias de um Cabo de Vassoura, mas não me recordo nada destas histórias. Pelo visto, esse “debut” forçado no mundo da literatura não me causou nenhum estranhamento, nenhum estímulo também.

Um pouco mais tarde — e eu me lembro muito bem dessa fase pré-adolescente —, fui obrigado a ler na escola (pública, ainda) um livro que me causaria verdadeira aversão às leituras e a tudo o que estivesse relacionado a elas — principalmente pelo “eco acidental”: uma dose maciça que eu não desejaria a nenhuma criança. Refiro-me a Ubirajara, um romance indianista de José de Alencar. Um livro inacreditavelmente chato, confuso, escrito num estilo “empolado”, com um mundo de nomes indígenas difíceis de memorizar e guerras e lutas e batalhas… uma história que parecia não ter fim. Pela primeira vez senti verdadeiro horror por um livro, uma história, um autor. Às vezes penso que os professores das escolas públicas dos anos 70 eram um tanto sádicos. Numa época em que os alunos deveriam ser estimulados a ler, forçá-los a interpretar tal obra — sim, pois havia uma prova sobre o texto — era, na minha opinião (e no meu caso particular), o caminho mais curto para apavorar e desesperar qualquer criança com um mínimo de bom senso. Nada contra os clássicos, mas tudo contra eles quando se trata de impô-los a jovens despreparados ou sem interesse para tanto. Sim, eu poderia dizer que este livro me traumatizou, e muito.

Para piorar meu “drama”, no ano seguinte, novo professor de língua portuguesa, e novo livro a ser obrigatoriamente lido: Iracema, outro romance indianista de José de Alencar!!! Não sei como suportei. Eu me lembro de ter chorado quando, ao começar a ler a volumosa edição, me dei conta de ser um “repeteco” do romance anterior, só que desta vez com uma quantidade de páginas bem maior. Quem não leu estes livros dificilmente poderá imaginar o impacto que essa dose cavalar de José de Alencar pode ter numa criança. Não resisto a publicar um pequeno trecho do livro a fim de “ilustrá-lo”:

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Que criança sairia indene depois da leitura de semelhante texto? Enfim, consegui sobreviver e até — espantosamente! — tirar boas notas nas tais provas sobre os livros, mas jamais esqueci o horror que me eles causaram, sem contar meu profundo desprezo e total antipatia por seu autor.

Diante das “leituras escolares forçadas”, eu estremecia quando chegava a época dos professores determinarem o terror da vez a ser lido. Mas escolas diferentes possuem regras distintas. Por sorte, por causa de nossas constantes mudanças de endereço (e de bairro — sim morávamos em imóveis alugados), eu também mudava frequentemente de colégio. Após o “trauma indianista” achei a maior novidade, em outra escola (agora particular), o professor oferecer dois títulos para que nós, alunos, escolhêssemos o que mais nos agradasse. Deste modo, entre Senhora, de José de Alencar(!!!!!) e A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães não hesitei um segundo sequer. Para estimular meu interesse pela obra de Bernardo Guimarães, na época estava no ar a novela homônima (em sua primeira versão televisiva). E foi com duplo prazer que li o romance sobre a escrava branca: não só por poder escolher (e me livrar do Alencar!), bem como pelo caráter, digamos, “interativo” que as imagens da novela (que eu assistia) proporcionavam junto ao texto do livro. De certo modo, foi um pouco decepcionante descobrir que a adaptação do texto para a TV alterava alguns detalhes da obra original, mas gostei de ter lido o romance e de ter sabido do final da trama antes de a novela terminar.

A possibilidade de escolha, ainda que limitada, mudou ligeiramente minha forma de encarar as leituras obrigatórias. Mesmo que a responsabilidade de optar por um “livro ruim” tivesse sido desviada para os alunos, o simples fato de poder escolher me parecia uma evolução. Assim, menos traumatizado, li vários outros clássicos da Literatura Brasileira, dentre os quais me recordo vivamente de O Cortiço, de Aluízio Azevedo e de Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Porém, mesmo tendo, de certa forma, superado meu trauma, eu só lia os livros que a escola “obrigava”. Meu interesse espontâneo pela Literatura surgiria bem mais tarde (eu já estava com mais de 20 anos!), mas essa é, talvez, uma história para outro post, este já ficou demasiado longo.

Não sei como andam as escolas hoje em dia e a relação que estas instituições procuram estabelecer entre jovens e livros. Uma coisa me parece certa: a obrigatoriedade por títulos específicos (sobretudo dos clássicos nacionais, sempre) não me parece uma boa estratégia — aliás, no meu entender, ela não poderia ser pior. Sei que as escolas públicas mudaram muito (em vários sentidos) nas últimas décadas. Sei inclusive que a maioria piorou brutalmente em termos de qualidade de ensino. Mas espero que, de algum modo, as crianças e adolescentes de hoje tenham à disposição métodos de estímulo à leitura bem mais eficazes do que os por mim experimentados.

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