Tenho grande implicância com livros cujo desfecho não é direto o bastante para que se saiba exatamente o que aconteceu. Detesto livros que deixem a cargo do leitor imaginar o provável destino deste ou daquele personagem, ou de parte da história, ou mesmo dela como um todo. Para mim, este tipo de estratégia soa quase sempre como uma espécie de incompetência do autor: que não soube como terminar sua narrativa ou que não teve coragem de dizer o que pensava. Evidente que esta é uma visão extremamente pessoal (limitada?), e muitos poderão discordar, mas, como leitor e também autor (se posso me considerar como tal), acredito que um escritor precisa assumir sua história do princípio ao fim e levá-la às últimas conseqüências, sejam elas quais forem — afinal, Literatura também requer alguma coragem, já que não são apenas os personagens que estão em jogo, mas também o “criador” deles.

Recentemente, uma amiga que leu meu romance achou que um desfecho que permitisse ao leitor refletir sobre as (supostas) várias possibilidades dos personagens seria algo mais bem resolvido. Diferente de mim, ela prefere “viajar” nos finais e contribuir para a história com sua própria imaginação. Nada tenho contra isso, e acho até que talvez a maioria dos leitores prefira desfechos deste tipo. Porém, cartesiano que sou, me incomoda enormemente ter que “adivinhar” o que poderia ter acontecido, já que as possibilidades — dependendo da obra em questão — podem ser infinitas. E depois, se fosse para imaginar um final que me satisfizesse preferiria escrever eu mesmo a história! Não, quero uma história completa, sem que me caiba determinar o que aconteceu na trama idealizada por outrem. Como leitor, já me satisfaço imensamente usando minha imaginação para dar vida, cor, forma, textura, volume, etc. ao que meus olhos descobrem pouco a pouco.

Por isso, quando chegou a minha vez de narrar uma história — ainda que, a princípio, eu nem soubesse se conseguiria concluí-la — procurei ser bastante direto. Eu não queria que os “meus” leitores imaginassem várias possibilidades sobre o destino da protagonista, eu queria que eles soubessem o que aconteceu com Liz. Ainda assim, os mais “imaginativos” poderão (como ocorreu com 2 leitores) contestar ou duvidar do que, teoricamente, parece claro — o que não deixa de ser muito interessante, pois prova que nem mesmo o que soa conclusivo o é de fato.
Por outro lado, outra amiga e leitora, achou que deixei muito no ar o destino do protagonista, ela sentiu falta de saber o que poderia ter acontecido com Leon…
Como se sabe, é impossível agradar a todos — e jamais tive tal pretensão. O que ocorre é que todo livro termina em determinado ponto, o que se segue a partir daí, sim, cabe ao leitor imaginar se, evidentemente, ele achar necessário.

Este assunto (livros com finais indefinidos) ficou rondando meus pensamentos durante toda a semana por dois motivos: primeiro, pelo que disseram meus parcos leitores; e depois pelo livro que terminei de ler recentemente, mencionado no post anterior. Curiosa e coincidentemente A Distância Entre Nós desenvolve duas tramas paralelas e entrelaçadas, mas diferente de Os Malabaristas (meu romance), apenas uma das narrativas tem final definido (ou o que poderia sê-lo). Assim sendo, só se conhece, de fato, o desfecho de uma das protagonistas. E por que o “final parcial” desta vez não me incomodou?, pensei. Simplesmente por que não havia espaço para o outro fim, já que ele tiraria por completo a força do que foi apresentado. É verdade que eu tinha vontade de saber o que a autora teria imaginado para a personagem com a história em suspenso — sim, pois ela fica justamente em suspenso num ponto crucial. Mas, neste caso, é bem simples, como leitor, imaginar uma conclusão satisfatória (pelo menos para mim o foi). Certas estruturas narrativas, como esta de histórias paralelas, geralmente acabam limitando (ou amarrando) o autor, que nem sempre, por questões técnicas, pode concluir as duas histórias. Não foi o meu caso, e vejo que, de certo modo, apesar de atrelado à narrativa dupla, tive sorte. Na realidade, meu livro termina no penúltimo capítulo, mas o último, curtíssimo, não compromete o desfecho anterior, só o complementa — creio eu.

Pensando bem, talvez eu não seja implicante com livros de final indefinido. É provável que eu deteste tais livros apenas quando o desfecho “em aberto” não faça sentido.

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