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O stand, dadas as devidas proporções, era um dos mais bonitos da FENATEC em 1992. Não era pra menos: o marido da nossa “chefe” era dono de uma montadora e, com o projeto criado e supervisionado pela esposa, ele não poupou esforços, nem material, para que tudo ficasse de “nível internacional” — e o conseguiu: até tulipas naturais plantadas em vasos ajudavam a decorar o ambiente em que predominavam o branco e o vinho, as cores da empresa. Havíamos trabalhado duro, eu e minha amiga, durante algumas semanas na confecção dos desenhos que seriam vendidos na feira de tecelagem em São Paulo. É bem verdade que foi nossa “chefe” quem criou a maioria das padronagens, mas fomos nós que nos esfalfamos desenhando sem parar — tudo feito a mão! — para cumprir o prazo sempre escasso nesses casos. O resultado surpreendeu a todos, principalmente a mim e minha amiga: mais de mil desenhos: alguns, verdadeiras obras-de-arte (sem modéstia); outros, legítimas ilustrações botânicas de fazer inveja a Margareth Mee (sem modéstia também). Assim sendo, o belo stand ornado com tulipas bordeaux parecia mesmo o lugar ideal para expormos material de tamanha qualidade.

Já havíamos recebido o pagamento pelos desenhos, mas fomos convidados (praticamente intimados) a trabalhar na feira também: afinal, quem melhor para falar sobre o trabalho do que os próprios “artistas”? Aceitamos, pois além de ser algo novo, todas as despesas de viagem e hospedagem seriam pagas pela “chefe”, sem contar que ainda receberíamos pelo serviço no Anhembi.
As roupas formais (terno e gravata) me incomodavam um pouco, pois apesar de me pertencerem, eu me sentia como se estivesse numa armadura medieval emprestada. Diferente de mim, minha amiga parecia bem à vontade nos caros vestidos de noite (estes sim, emprestados a ela por nossa “chefe”). Enfim, devidamente paramentados para o evento, sentíamos como se fôssemos tão importantes para o sucesso de nossa “chefe” quanto os desenhos que havíamos feito. Sabíamos que diante das recentes mudanças na economia, o passo pretendido pela “chefe” era tão ousado quanto arriscado, e, de certo modo, nos sentíamos responsáveis também pelo êxito conjunto que parecia iminente.

Curiosamente, o que parecia uma receita de sucesso, não demorou muito a se mostrar uma espécie de bolo solado. O número de visitantes em nosso stand estava superando todas as expectativas, mas, estranhamente, nenhuma venda se concretizava. Curioso também observar que a maioria dos interessados era de origem oriental. Nossa “chefe”, talvez imaginando que eu e minha amiga deixássemos de atender às pessoas de fato importantes (quais?), declarou ao fim do primeiro dia da feira: “Não fiquem dando atenção a esses coreanos, pois eles só vem aqui pra copiar nossas idéias!” Achamos que ela não estivesse falando sério, e no segundo dia minha amiga e eu voltamos a tratar todos com a mesma cordialidade inicial — aliás, se não déssemos atenção aos “coreanos” não o faríamos com mais ninguém, já que eles realmente pululavam. Nossa “chefe” não ficava muito tempo no stand, pois circulava pela feira fazendo contato com clientes em potencial, distribuindo cartões e convites para o stand. Mas vez por outra ela aparecia a fim de descansar um pouco e pegar nova remessa de convites e cartões. Assim que nos viu novamente dando atenção aos orientais, fez uma cara tão feia que nos intimidou. Tão logo os visitantes se foram ela disparou: “Eu já não falei pra vocês não perderem tempo com essa gente?!?!” Tentamos argumentar que não fazia sentido não dar atenção aos “coreanos” uma vez que só eles estavam nos visitando. Mas a “chefe”, parecendo inconformada, quase gritou: “Não quero que vocês percam mais tempo com eles! Eu fiz contato com o pessoal da XXX Têxtil e eles ficaram de mandar uma representante aqui. Quero que vocês se concentrem nesse cliente. Amanhã é o último dia da feira, vai ser tudo ou nada!”

Eu e minha amiga não achávamos nada simpático e profissional atender mal aos visitantes e, aproveitando os momentos em que nossa “chefe” não estava presente, tratávamos cordialmente quem entrava no stand. Acreditando que a representante da XXX Têxtil se apresentaria assim que chegasse, estávamos atentos para lhe dar tratamento VIP, sem precisar deixar de ser atenciosos com os demais. O fato da “chefe” não estar no stand não impedia que, sem que o notássemos, ela nos vigiasse do lado de fora. Quando mostrávamos os desenhos a um casal oriental, ela entrou no stand vociferando: “O que foi que eu falei pra vocês?!? A moça da XXX Têxtil já apareceu?” Os dois coreanos bateram em retirada diante da cara de poucos amigos da “chefe”, e eu e minha amiga levamos mais uma bronca.

Cansados daquilo tudo, minha amiga e eu, assim que nossa “algoz” saiu, desabamos nas cadeiras junto à mesa no canto do stand. Achamos que ela deveria estar nervosa por ver seu projeto na iminência de ruir, mas isso não justificava o tratamento que estava nos dando, tampouco o que queria que dispensássemos aos visitantes. Enfim, fartos daquela feira, daquela quantidade inacreditável de orientais e das constantes repreensões absurdas ficamos imóveis quando mais um casal com feições “coreanas” entrou no stand. “Lindos estes desenhos! Vocês poderiam nos mostrar a coleção?”, disse a mulher. “Ah, pode olhar aí, fica à vontade…” miei, entre dentes. “Um trabalho excelente! Nunca vi nada tão criativo! Foram vocês que desenharam?”, indagou ela. “Foi…”, respondeu minha amiga. “E vocês têm algum cartão com telefone?”, tornou a perguntar. “Estão aí do lado, podem pegar…” falei, num suspiro. Antes de sair do stand, quando apenas seu rosto ainda estava visível na porta a mulher se apresentou: “Ah, eu sou da XXX Têxtil. Adeus!” Olhando um para a cara do outro, tão estupefatos quanto estáticos, e sabendo que seria inútil correr atrás da moça, eu e minha amiga fizemos a única coisa possível: caímos na gargalhada.

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