Impressão minha ou ele me notou dessa vez? Tantos elogios… se fosse só por educação, poderia ter sido mais econômico. Ele me pareceu bem espontâneo, surpreso também, quase espantado… como se visse uma pessoa dada como morta, ou desaparecida. Impressão ou já começo novamente a ver coisas que não existem? Mas pra mim sempre existiram… até o dia em que tive que enterrar tudo, e por culpa dela! Reflexo da terapia esse resquício de revolta? Espero que sim, e que eu também consiga resolver essa coisa que já dava como encerrada, ou enterrada. Estranhíssimo, agora que começo a tentar me consertar, a ver se fico uma pessoa melhor, esse encontro com ele… A coisa mais maluca do mundo: somos praticamente vizinhos há três anos e nunca nos encontramos! Por que só agora? E logo ele? Algo deve estar conspirando a meu favor… Talvez a surpresa de Antônio seja por ter encontrado uma Irene que já começa a se transformar em outra… É claro, como não pensei nisso? Ele se espantou em ver como mudei, não tanto fisicamente, ou será que isso também? Em todo caso, reflexo da análise, sem dúvida. Se eu mesma noto a mudança, por que não ele?, depois de tanto tempo? Será que dessa vez… será um sinal? A vida é tão estranha… por que não? Por que não ele de novo?, mas com outra Irene, a que eu sempre quis ser, e só agora consigo? Por isso ele reparou em mim, só pode ser… Mas preciso não me deixar levar por coisas que talvez só estejam na minha cabeça. Um encontro inesperado, nada mais. Encontro não, reencontro. Ou será que Antônio vai me fazer pôr tudo da perder? Não estou bem agora, sozinha? Estou? Não completamente, ainda. E não posso ficar melhor com ele? Quem sabe? Talvez essa coincidência me dê a oportunidade de resolver tudo de uma vez por todas. Estou me reconstruindo, aos poucos, em segredo… não por medo ou vergonha do que Denise pense – já que a idéia partiu dela mesma –, talvez para não dar o braço a torcer, não reconhecer que mais uma vez, como sempre, ela estava com a razão. Na hora certa conto tudo. Até lá, se ela me perguntar alguma coisa invento uma mentira. Mas Denise não vai perguntar nada. Há muito que eu pareço ter deixado de existir pra ela. Além do mais não sou obrigada a dar satisfações do que faço – mesmo que eu goste dela, mesmo que ela diga gostar de mim… Tanta coisa ainda a consertar!… E agora Antônio outra vez. E eu aqui, fritando os miolos com suposições.

Ele está ótimo. Os cabelos grisalhos e os óculos lhe deram um ar de intelectual. Ele parece outro, mas ainda me lembra o Antônio de que eu gostava, e que não devia gostar, ou melhor, não adiantava gostar. Sempre fui tão boba nesses assuntos… o oposto de Denise. Mas ele não gostava de mim, nem me notava, só tinha olhos pra ela, que não o amava… Quantas confidências Denise me fez!… e eu sem coragem de dizer a ela o quanto gostava dele… mas de que isso adiantaria? Denise não poderia dizer a Antônio pra se apaixonar por mim já que ela não se sentia atraída por ele. Se eu não fosse irmã dela seria fácil me afastar, ou ignorar suas confidências… Se eu conseguisse ser tão franca quanto ela talvez tivesse sofrido menos… mas já faz tanto tempo!… tudo acabou, essa bobagem que estou sentindo deve ser algum reflexo desse passado. Nem sei se ele está comprometido… talvez esteja até casado, se bem que não vi nenhuma aliança na mão dele… 

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Como na semana passada alguns leitores — ou melhor, algumas leitoras — demonstraram curiosidade em “ouvir” a voz de Irene, ei-la aqui. Será que, a exemplo do que ocorreu no post anterior, agora quem vai despertar interesse é Denise? Ou ainda Antônio? E Irene, terá correspondido à provável expectativa que haviam criado em torno dela?
Admito que fiquei curioso em saber, por isso não resisti a publicar mais este fragmento.

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