Alguma coisa aconteceu. Coisa que ela não quer me contar. E que não vou insistir em saber. De repente, um ânimo, uma euforia. Indisfarçáveis. Propositais? Não, Irene nunca foi disso, nem mesmo agora. Se bem que venho notando uma certa mudança, como se ela estivesse num lento processo de evolução. Mas não acredito que tenha levado minha idéia da terapia a sério. “O que foi que aconteceu que te deixou assim tão alegre?”, perguntei por perguntar, vendo sua cara feliz. “Nada”, respondeu, sorrindo, como se quisesse me mostrar que guardava um segredo. Se não a conhecesse direito diria que sua animação é por causa de um homem. Mas não pode ser, Irene já desistiu dessas coisas. Eu não veria nada de mais se ela se interessasse por alguém, até gostaria, mas quem? E quem se interessaria por Irene? Poderia estar casada com o Luciano, que gostava muito dela, tanto que queria terminar o noivado com a outra pra ficarem juntos. Mas acho que Irene não gostava dele, ou viu que o preço seria alto demais. E depois, mãe foi tão contrária, encheu tanto a cabeça da pobre com histórias infelizes… Mas lembro que naquele tempo ela parecia ter remoçado um pouco; comprou vestidos, mudou o corte de cabelo… por que fez isso se não tinha interesse real em Luciano? Outro homem? Qual? Já faz tempo, devo estar confundindo as coisas… Coitada da minha irmã. 

Sempre tentei ajudar Irene a não ser submissa, mas ela era muito acomodada, e não fazia por onde. Desde criança sempre foi tão conformada!… o oposto de mim. Por isso mãe gostava mais dela, e a sobrecarregava com controles e adestramentos dos quais eu fugia. Dava pena, mas o que eu podia fazer? A iniciativa tinha que partir de Irene.

Agora já não temos mãe repressora, mas parece que é muito tarde para mudar, ou não? Não, deve ser só impressão. Talvez ainda um pouco da sensação de liberdade, com a qual ela parecia não saber muito bem o que fazer. Pelo menos foi bastante eficiente com seu dinheiro. Achei que eu ia conseguir resolver a vida com minha parte na herança, mas tudo deu errado. Se não fosse por Irene… Eu tinha que arriscar, era uma excelente oportunidade, tudo parecia tão promissor… Eu devia ter sido mais precavida, guardado algum… Agora, tudo de novo, recomeçar quase do zero. É a vida. Sorte Irene ter comprado um bom apartamento, e ter aceitado me abrigar aqui. Cheguei a pensar que ela talvez me negasse ajuda, que estivesse magoada comigo por causa das nossas desavenças… Até hoje não sei se ter me dado guarida não foi para ela uma espécie de vingança, como se fosse superior a mim e me desse uma lição no fim das contas. Eu, sempre tão segura e independente, tendo que pedir para morar com ela… Não deixou de ser um pouco humilhante.

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Você continuaria a ler um livro que tivesse como início o texto acima? Se quiser responder, use da maior sinceridade possível. Em caso negativo, por favor, especifique o motivo.

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