correspondência

Não faz tanto tempo assim — ao menos não para mim —, eu cultivava um hábito que, mencionado hoje, parece remontar a eras longínquas: escrever (e receber) cartas.
Apesar desta “prática” ter começado quando eu ainda era adolescente, o tempo a que me refiro na primeira frase deste post data do início dos anos 90 — 1992 para ser mais preciso.
Eu havia terminado meu curso na Alliance Française, e uma amiga que morava em Madri, ciente disso, perguntou se eu não gostaria de me corresponder com uma francesa, a fim de praticar a língua escrita — ela conhecera a moça num curso de espanhol. Achei a idéia duplamente interessante: não só por poder continuar praticando o francês escrito, bem como por ter, talvez, a oportunidade de conhecer alguém de um lugar e cultura diferentes da minha — algo que sempre me atraiu.

Assim, comecei a me corresponder com Guylaine, uma francesa de Tours, interessada em idiomas, que vivia viajando pela Europa — encontrava-se temporariamente na Espanha, aprendendo espanhol. Na casa dos 20 anos, pretendia trabalhar em turismo.
Guylaine, talvez por causa de suas constantes viagens, não era muito assídua na troca de cartas, e algumas vezes fiquei em dúvida se ela realmente havia recebido minha resposta à sua carta precedente — na época, os correios brasileiros ainda tinham má fama. Não demorou muito para que Guylaine me enviasse o endereço de uma amiga, dizendo que ela adorava se corresponder com estrangeiros. Não sei ao certo se tal idéia foi uma forma sutil de “me despachar” ou de encontrar alguém mais interessado em manter uma correspondência freqüente (entenda-se por “freqüente” uma carta por mês, ou duas, quando muito). O que sei é que logo eu já estava trocando cartas com Nathalie, de fato, bem mais entusiasmada que a amiga em termos de escrita.

Nathalie, amiga de infância de Guylaine, havia nascido em Pocé sur Cisse, um adorável vilarejo próximo da não menos adorável Amboise. Com 22 anos, estudava História na Universidade de Tours. Nathalie se mostrou muito mais interessante (e interessada!) que a amiga, e nossa correspondência foi crescendo na medida em que rareavam as respostas de Guylaine às minhas cartas. Depois, antes de as duas amigas romperem, soube que minha primeira correspondente havia tido problemas de saúde, e não insisti em mandar cartas que nunca eram respondidas.

Eu gostava cada vez mais da minha “correspondência internacional”. Era muito estimulante e diferente conhecer novidades narradas por alguém de outro país, com outra vida e cultura!… E eu ainda tinha a chance de praticar outra língua!
Achando que deveria ampliar aquele “prazer”, comecei a procurar novos correspondentes, desta vez do sexo masculino. Não me recordo exatamente onde encontrei os endereços aos quais enviei algumas cartas — creio que em uma publicação da Alliance. Obtive apenas uma resposta. Stéphane, um professor belga de 46 anos, nascido em Anvers, mas que vivia em Strasbourg. Culto, inteligente, poliglota, relativamente humorado e parecendo tão interessado em correspondência quanto eu, Stéphane se mostrou desde o início um excelente substituto para preencher a lacuna deixada por Guylaine.

Minha troca de cartas com Nathalie durou 3 anos — até nos conhecermos pessoalmente, quando visitei a França em 95 (mas isso é assunto, talvez, para outro post). Por mim, nossa correspondência teria durado muito tempo ainda, mas ela preferiu encerrar o assunto e eu respeitei sua decisão.
Ainda em 1995 tive oportunidade de encontrar com Stéphane em Strasbourg (talvez também assunto para outro post), mas nossa correspondência não terminou por causa disso. Ela se prolongou até 98, quando ele deixou de responder minhas cartas.

Evidente que nada dura para sempre, e que o mundo se transforma constantemente. Olhando para as dezenas de cartas, que conservo até hoje, do belga e das francesas é como se eu voltasse no tempo. Um tempo com um ritmo bem diferente do atual, um tempo em que tudo parecia menos excessivo, vertiginoso, exaustivo. Releio as cartas e é como se estas pessoas surgissem na minha frente, com suas qualidades e defeitos, esquisitices e manias, alegrias e tristezas… Cartas são uma espécie de documento: não só podem simbolizar ou representar pessoas e seus pensamentos, bem como a época em que viveram. São testemunhos pessoais, registros de próprio punho de uma existência singular, única, exclusiva. É conhecido o poder das cartas: nelas a vida se petrifica, mais presente que em nenhum de seus instantes. E isso, para mim, tem um valor inestimável.

É fato que a modernidade tem suas vantagens. É fato também que não há como voltarmos atrás, remando contra a maré alucinada do presente (ou futuro). Os e-mails, além de rápidos, são bastante práticos. Mas são também um tanto descartáveis, anódinos, profusos — são mais “recados” que outra coisa. Salvo raríssimas exceções, ainda que impressos os e-mails não têm o mesmo caráter que uma carta escrita a mão — não sei explicar direito esta impressão, mas tudo me soa um tanto impessoal, mecânico. Não, não estou lamentando o fato de não escrever (ou receber) mais cartas, mas não deixa de ser lamentável que esta importante atividade ou hábito (ou ainda prazer) tenha se transformado em algo tão imaterial, efêmero, banal… algo de que, com o tempo, não restará o menor vestígio. Como será o futuro no qual não existirá registro de uma significativa parcela do passado? Terão, até lá, inventado um modo de resgatar essa parte fugaz do nosso presente hoje? Espero que sim.

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