
“Para que serve um diário senão para que outros o leiam?”
Afirmação verdadeira, ainda que esses “outros” sejamos nós mesmos, algum tempo depois. Foi o que aconteceu comigo hoje. Remexendo gavetas, deparei não com um diário propriamente dito, mas com antigas anotações que eu fazia quando mais novo. Terei escrito o que reencontrei agora (mais de 20 anos depois) para mim mesmo? Por que guardei essa papelada? Escrita terapêutica. Frases rabiscadas com pressa, com raiva, com tristeza, com espanto… arsenal de sentimentos que pareciam à flor da pele. Quanto exagero, quantas lágrimas, quanto sofrimento, quanto desperdício de energia… e de tempo!
Mas tudo muito útil se eu levar em conta que posso emprestar essas sensações aos meus personagens.
Um alívio não ser mais quem já fui, não estar passando pelo que já passei, ter mudado. Nos meus escritos antigos, nada encontrei que fizesse alusão a momentos alegres e felizes — o que não significa que não tenham existido. Por isso atribuí ao amontoado de palavras propriedades curativas. Curei-me de diversas “enfermidades”, mas há sempre novas “moléstias” as quais ainda não somos imunes. Em todo caso, não tenho feito uso da escrita ultimamente como quando mais jovem — pelo menos não que eu saiba. Aliás, quando mais novo, eu não imaginava que o estivesse fazendo, não era algo premeditado. Ainda assim, minhas palavras passadas me intrigam. Não lembrava de um monte de coisas; de outras, ao contrário, lembrei com surpreendente nitidez. Memória seletiva. Não deve ser mesmo importante lembrar de TUDO, apenas do que interessa.
Impressionante observar que pessoas que eu considerava amigas sequer sei se ainda existem. O que terá acontecido com todos aqueles que, de certa forma, me ajudaram a ser o que sou hoje? Terão mesmo me ajudado? Alguns sim, por melhores (ou piores) que tenham sido. Talvez, para muitos deles eu também não passe de um “cadáver” em suas memórias…
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Admito: o post é antigo (pinçado do meu blog anterior), mas continua valendo até hoje.
abril 30, 2007 at 4:43 pm
Primeiro: essa tela é absolutamente fantástica.
Colocaria no meu quarto se achasse, mas…
Dali é sempre Dali.
Um Salvador, com o perdão do PÉSSIMO trocadilho.
Diários… há alguns anos joguei fora todos os meus diários de adolescência. Já haviam cumprido sua função e eu precisava de espaço.
Não me arrependo. Aliás, fiz isso com tanta tranqüilidade… Nem percebi que mandava para o exorcismo um passado bom. Sim, porque foi bom, apesar das dificuldades adolescentes (comuns e naturais).
Hoje, com o computador, ficou mais fácil guardar meus textos. Uns, inacreditavelmente ruins, outros admiravelmente bons. Eu quase nem acredito como alguns ficaram tão bons assim… e ficaram mesmo!
risos
Em compensação, os ruins são de amargar.
Penso, Wagner, que para algumas pessoas, as palavras dão o tom.
Mesmo apagadas, queimarão eternamente em nosso vento particular.
P.S. Acabei de ver um micro-sorriso abaixo do “enviar comentário”, no canto esquerdo.
Coisa mais meiga.
Colocou de propósito pra encantar as crianças como eu?
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Eu também acho essa pintura do Dali belíssima, e tão cheia de simbolismo!…
Como você, joguei fora alguns “cadernos adolescentes”, mas me arrependo disso atualmente: não que tivessem algum “valor”, mas penso que poderiam ter ainda alguma utilidade.
Realmente, hoje em dia arquivar e salvar (ou ainda gravar num CD) textos é bem mais fácil — principalmente pelo pouco espaço que ocupam… Enfim, agora é tarde.
O micro-sorriso já vem de fábrica, ou seja, faz parte do template do WordPress: e é mesmo muito simpático.
Beijo.
maio 1, 2007 at 2:24 am
Menino, sabe que esses dias eu peguei uma caixa cheia de agendas minhas e fiquei lendo e lendo e pensando no que eu era e o que eu ambicionava ser.
Muito doido nao?
Mas nao deixa de ser parte da caminhada.
Bjs
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Pois é, Sara. Geralmente é fácil perceber muitas diferenças nesse “confronto”, não? A gente muda com o tempo — o que é inevitável —, e muitas vezes o que antes desejávamos ardentemente nos faz rir nos dias atuais, pois não coincidem em nada com a pessoa na qual nos transformamos. Se bem que isso não pode ser considerado uma regra…
Beijo.
maio 1, 2007 at 3:23 am
Não sei se com todo mundo é assim, mas quando escrevia, não propriamente diários, mas desabafos, nunca deixei de pensar em pessoas que poderiam lê-los algum dia — o que, certamente lhes tirava um pouco da autenticidade. Nunca deixamos de posar um pouco, mesmo que diante de nós mesmos apenas.
Quanto aos textos “da gaveta”, a maioria joguei fora num assomo de autocrítica. Hoje lamento essa atitude. Seriam mesmo tão ruins? E se fossem, não poderiam ser melhorados? Ou, pelo menos, servir de idéia básica para textos melhores?
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Quando mais novo, nunca escrevi pensando em que alguém fosse ler meus textos — muito pelo contrário! Talvez por isso eu tenha me livrado de alguns cadernos.
Sobre os “textos de gaveta”, a maioria foi escrita no micro, e estes foram salvos em várias versões. Muitos são péssimos, mas não vejo motivo para me desfazer deles. Como você disse: quem sabe, um dia, não podem ainda ser melhorados ou servirem de inspiração para coisas mais interessantes?
maio 1, 2007 at 12:32 pm
Aquele que escreveu que a vida é um rio de águas caudalosas, que nunca deixam de rolar e que jamais estacionam estava certo. Vida é mudança constante. Relacionamentos vão e voltam.
Um abraço e boa semana prá ti.
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Não deixa de ser verdade, David. Mas acho que, às vezes, o tal rio pode não ser tão caudaloso assim: acredito que também faça parte do percurso algumas temporadas de seca…
Realmente, a vida é constante transformação: como dizia Beauvoir, “a lei da vida é mudar”.
Considero natural que relacionamentos comecem e terminem, como tudo na vida — como a própria vida! —, e muitas vezes não vale nem à pena lamentar as relações que se desfazem.
Abraço.
maio 1, 2007 at 6:18 pm
Bem, servem, também, como terapia! Sim!
Escrever nos faz entender muitas coisas e, outras, a gente descarta no próprio ato da escrita.
Vale para registrar momentos.
Vale, também, para clarear a mente…
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Eu acredito em “escrita terapêutica”, sim, Jaque — E como! Comigo ela funciona muito bem.
Escrever sempre faz bem de algum modo, mesmo que ninguém leia (nem nós mesmos). Mas ler ou reler poder ser tão “terapêutico” quanto escrever — ainda mais quando somos os autores…
maio 2, 2007 at 6:23 pm
Oi, Wagner!
E vc se lembra de mim?
Dei uma passada rápida no antigo blog e fiquei sabendo que vc publicou Os Malabaristas! Parabéns! Daí, vim parar aqui e deixar um abraço!
Eu tb tenho um certo alívio em saber que não sou mais quem fui e uma certa ansiedade no que serei…
um beijo pra vc!
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Claro que lembro de você, Zana (do Canada).
Pois é. Eu fechei o outro blog e fiquei um tempo longe da blogosfera. Depois, voltei com o Hebdomadário.
Sim, publiquei meu livro por conta própria e de uma forma bastante acessível para quem tem Internet, ou seja, gratuitamente.
Você comentou algo que acabei não mencionando no post: “a ansiedade em saber quem serei…” Isso também acontece comigo, inevitavelmente.
Abraço!
maio 3, 2007 at 2:56 am
Wagner, esqueceu que meus textos “da gaveta” são do tempo da máquina de escrever?
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Não esqueci não, Sonia. Mas alguns dos que “se perderam” foram escritos usando o micro, não?
maio 3, 2007 at 4:32 am
Oi Wagner, bom dia!!!
Já estive aqui duas vezes mas meu comentário nao entrou. Testando novamente (rs)
Será que todo mundo um dia teve diário ou um caderninho de anotacoes? Eu tive um, mas na maldade. Eu sabia que minha mae vasculhava as minhas gavetas. Entao decidi fazer de uma caderneta de arame o meu diário. Ali eu escrevia como eu via a minha mae: tao rigorosa em tantas coisas. Resultado: um dia ela explodiu, dizendo nao ser nada daquilo que eu escrevia e ai eu explodi também: dizendo pra ela que ela nao deveria mexer nas minhas coisas. Eu era má. Acho que às vezes ainda continuo sendo. Mas eu parto do princípio que se alguém escreveu alguma coisa que chama de “diário”, é porque quer que alguém leia. Texto muito bom.
Bom resto de semana.
Grande abraco
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Realmente, você foi uma “menina má”, mas talvez sua mãe tenha merecido. Se sua atitude funcionou para que ela “largasse do seu pé” (ou diário) tanto melhor. Às vezes é preciso recorrer a expedientes não muito ortodoxos para conseguirmos nos desvencilhar de certos inconvenientes…
Abraço!
maio 3, 2007 at 1:22 pm
Eu não tenho mais nada, joguei tudo fora. Até os blogs antigos apaguei e não guardei nada. Acho terapêutico escrever, mas pra mim só vale na hora que faço. É assim que funciona pra mim. Quanto aos “amigos” do passado, acho que todo mundo ensina alguma coisa pra gente, é uma troca sempre, mesmo que não seja sempre agradável. E do meu passado eu não trouxe ninguém pro meu presente. Beijinhos.
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No meu caso, acho que os textos guardados continuam servindo “terapeuticamente” quando relidos — nem que seja apenas como uma advertência para o que já aconteceu (às vezes nossa memória gosta de pregar peças — a minha pelo menos…).
Também penso que os “amigos” do passado sempre cumprem um espécie de função e, como tal, existe um prazo para tanto (ou não).
Tenho pouquíssimos “amigos” do passado no meu presente.
Beijo.
maio 4, 2007 at 3:41 am
Eu geralmente queimo ou rasgo meus diários e escritos… É um milagre que o meu blog tenha sobrevivido por quase um ano sem ser deletado. Talvez seja a tentativa de apagar algo em mim… Bjs!
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E eu aqui achando que você guardava todos os seus escritos…
E funciona essa coisa de queimar ou rasgar textos na tentativa de apagar algo em você?
Não deixa de ser uma teoria interessante, sobretudo se funcionar realmente.
Beijo.
maio 4, 2007 at 5:08 am
post antigo… q nada! talvez apenas mais uma página de um diário moderno.
sempre tentei fazer diários, agendas e coisas do gênero. nunca consegui, colocava para fora (o bom ou ruim) de outra forma. lamento por isso, vejo amigas, q como vc, quando decidem ler o q escreveram, se deliciam com história, lembranças…
tb, ao contrário da maioria, nunca fui de mts fotos (essa é mania minha é bem recente). e sinto um buraco, ñ em minha memória, mas de algo mais concreto. é como se faltasse um “museu” q pudesse falar de mim… quem sabe por mim…
bjs, fica bem!
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Eu ia dizer que “Nunca é tarde para começar”, mas se eu ouvisse isso hoje em dia dificilmente me sentiria tentado. Se bem que, de certo modo, o blog acaba sendo uma forma de diário (ainda que o caráter público-permanente mude um pouco, ou bastante, a “finalidade original”). Eu vejo diferença entre alguém descobrir acidentalmente (ou intencionalmente) algo privado, secreto e a possibilidade de expor pensamentos e idéias a todo mundo. Enfim, ainda que não totalmente espontâneo (em alguns casos), um blog, muitas vezes, não passa de um mero diário — diário moderno, como você bem classificou (eu acrescentaria um “pseudo” antes da palavra diário).
Em relação às fotos, imagino que deva surgir mesmo uma grande lacuna quando elas não registram momentos do nosso passado, mesmo que quase nunca as olhemos. Acho que todo mundo deveria ter direito a um “museu particular”, ainda que ele não fosse necessariamente completo.
Beijo.
maio 5, 2007 at 4:15 pm
Realmente me dizer que nunca é tarde para começar me deixa pouco tentada. Mas foi sábio ao dizer que o blog, de certa forma, é um pseudo-diário. Apesar de, muitas das vezes, não se tratarem de relatos exatos do que nos aconteceu e etc… Com certeza, através da escrita, passamos um pouco do que estamos sendo e vivendo. O ruim de concordar com isso, que disse, é que me contradigo em relação ao meu post anterior, em que dizia acreditar que, quando escrevemos, somos “possuídos” por uma entidade qualquer. Talvez seja um pouco dos dois. Uma entidade que quer viver, e assim sendo, se aproveita de nossas própria vivencias… Complexo né?!?!
E taí! Uma missão! Vou fazer um museu todo meu, nem que ele se limite a um endereço virtual e uma caixa com algumas fotos… Nem que seja apenas para minha visitação, mas ele existirá…
Bjs, fica bem.
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Pois é, Irene. A questão das “entidades” é mesmo um tanto complexa, difícil de explicar por escrito. De certo modo, acredito nelas (ou no “transe”, como comentei no seu post), já que só algo do tipo explicaria certas “coisas”… O “ruim”, no meu entender, é deixar que as entidades nos dominem. É verdade que nunca poderemos controlá-las como gostaríamos (a graça da coisa é justamente essa), mas não devemos deixar que elas nos controlem completamente também, quando se manifestam. Se bem que a gente sempre pode resolver isso quando revisa o texto.
maio 11, 2007 at 10:42 pm
Eu tenho uma mania parecida de lançar olhares reverentes sobre os escritos do passado. Sempre me surpreendo com a pessoa que fui, com o que pensei, quis, vivi. Não me reconheço, e é só nessas horas que entendo quão grande é o indivíduo humano. O antigo, no fundo, não é antigo. A distância parece mais física do que cronológica!
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Paulo, pelo visto temos ao menos uma coisa em comum…
Obrigado pela visita e comentário.
agosto 27, 2008 at 7:42 pm
por favor me diz como posso saber que tipo de tela é essa? adorei.
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Cas, a pintura, em estilo surrealista, chama-se “O Contador Antropomórfico”, da autoria de Salvador Dali, datada de 1936. Salvador Dali é considerado o mestre do Surrealismo!
As gavetas do inconsciente, segundo as teorias de Freud, são “espécies de alegorias da psicanálise que ilustram uma tendência para aspirarmos o odor narcísico de cada uma das nossas gavetas”.
fevereiro 9, 2009 at 7:27 pm
Parabéns pelo texto. Valeu a pena ter postado novamente. Olha, também já passei por esse momento revival, quando encontrei, na casa de minha mãe, um diário de quando era adolescente e… já lá vão anos… Ai, ai… como você diz, sinto felicidade por ter mudado, por ser hoje uma outra pessoa. Se um gênio da lâmpada aparecesse para mim perguntando se eu queria ser adolescente de novo, eu diria: Jamais! Muita tristeza, muita complicação.
Ah, desculpe-me, mas fiz uso de sua gravura no meu blog, pois falo também de gavetas. Vou colocar o seu link.
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Obrigado pelo comentário e pelo link, Galeota.
O blog está inativo, mas talvez um dia eu volte.
Pode usar a imagem sem problema, pois eu também a pincei na blogosfera…
Abraço!